Pé na aventura

Publicação: 2017-10-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter


Há paisagens e recantos que não figuram nos catálogos convencionais de turismo. No caso do Rio Grande do Norte, estima-se que pelo menos 70% de suas belezas naturais permanecem desconhecidas da maioria das pessoas – nativos e turistas – que circulam apenas pelos espaços já traçados pelas grandes agências. As rotas que seguem por caminhos menos óbvios partem de iniciativas pequenas, mas que oferecem grandes surpresas aos que apreciam natureza, aventura, história e cultura.

Um dos lugares mais bonitos do litoral potiguar é Diogo Lopes, distrito praiano de Macau. A vila de pescadores abriga atualmente a Reserva Sustentável Ponta do Tubarão
Um dos lugares mais bonitos do litoral potiguar é Diogo Lopes, distrito praiano de Macau. A vila de pescadores abriga atualmente a Reserva Sustentável Ponta do Tubarão

A diversidade paisagística e cultural do RN inspirou o agente de viagens e guia turístico Gilson Bezerra a criar a agência Pé na Estrada Trilhas, que há dez anos se tornou uma referência local no  turismo que agrega aventura, ecologia, e aspectos culturais em rotas menos conhecidas.”O estado não explora nem 30% de seu território turístico, já que mantém o foco em um só segmento”, afirma. As atividades locais ainda são muito limitadas ao litoral, no chamado pólo Costa das Dunas, que vai de Touros a Pipa.

Gilson Bezerra: Vivenciar o lugar é o mais interessante
Gilson Bezerra: Vivenciar o lugar é o mais interessante

A lista do que pode se encontrar pelas estradas do RN é imensa, segundo o agente: tem vale vulcânico e vulcão extinto, pinturas rupestres, sítios arqueológicos, praias desertas, fazendas centenárias, a maior floresta de mata atlântica sobre dunas do Brasil, lagoas calcárias, geosítios com formações rochosas variadas, cavernas, serras, e dunas sobre falésias que mudam de cor. E muita gente nunca viu e nem sabe disso.

Tour sensorial
Indo além da fórmula 'sol e mar', Gilson pensou em rotas que oferecessem não só um passeio comum, mas uma experiência sensorial. “Não é ir ao lugar só pra tirar foto. Vivenciar o lugar é muito mais interessante. Ver, sentir os sabores, os cheiros, conhecer a história da área e das pessoas, fazer descobertas. Uma experiência de levar para a vida”, filosofa. A agência também pratica um turismo de base local, ou seja, que valoriza o trabalho e os atrativos do lugar onde se instala – seja gastronomia, artesanato, produtos regionais, serviços e hospedagem.

O perfil do turista estradeiro é bastante diverso em idade, profissão e gênero, segundo Gilson, mas no geral são pessoas de um bom nível sociocultural, que curtem viajar, pesquisar, e aprender sobre novos lugares. Os roteiros são anunciados no site da agência. Os grupos no geral são pequenos, já que boa parte dos lugares visitados não contam com uma estrutura preparada para receber muita gente, como no turismo de massa – e essa é uma das graças adicionais desse tipo de passeio. 

Os roteiros foram demarcados pelo próprio Gilson em suas explorações pessoais. “Sou curioso e inquieto por natureza, criado na geografia sertaneja de Afonso Bezerra. Eu mesmo fui conhecendo os lugares e anotando suas qualidades, por isso os roteiros têm algo de pessoal, pois oferece ao cliente o que gosto de fazer”, afirma. Entre alguns dos lugares favoritos dos excursionistas estão os pontos da Costa Branca, trecho que vai de Caiçara do Norte até a Tibau de Mossoró. “O povo gosta de lugares como as Dunas do Rosado, que são incríveis, Ponta do Mel, e Porto do Mangue. São praias quase desertas, com um clima exclusivo”, explica.

Potenciais
Mas o que não falta, segundo Gilson,  são pontos de extremo potencial que pouca gente conhece, e mereciam um investimento sério e responsável.  São lugares como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Ponta do Tubarão, em Diogo Lopes; o geoparque Seridó, que abrange dez municípios da região (de Cerro Corá a Caicó), e conta pinturas rupestres, piscinas de pedra e outras belezas; o Parque Nacional Furna Feia – entre Baraúnas, Dix-Sept-Rosado e Felipe Guerra -, que conta com centenas de cavernas; e até mesmo um espaço mais conhecido, como Nísia Floresta, é subaproveitada, pois não explora o alto potencial hídrico de suas 27 lagoas – ressaltando que faz parte de uma Área de Proteção Ambiental (APA).

Quando história é o ingrediente principal da viagem, também há muitos lugares por onde passar. Gilson tem um roteiro chamado 'RN Colonial', que pontua lugares estratégicos como o solar do Engenho Ferreiro Torto (Macaíba), o Engenho Bom Jardim (Goianinha), a capela do Engenho Cunhaú, Barra de Cunhaú, e Vila Flor. Mas há muito mais. “É uma tristeza ver como Ceará-Mirim, um lugar repleto de engenhos, é pouquíssimo explorado. Ali deveria viver cheio de visitantes. E por todo o estado há exemplos de monumentos, igrejas seculares, casarões, velhas aldeias, que poderiam ser um roteiro incrível”, diz.

Gilson ressalta que os visitantes estrangeiros costumam ter uma  percepção mais aguçada desse turismo sensorial. “Certa vez levei um grupo de estrangeiros por um roteiro chamado Seridó Tradicional, num período de muita seca. Eles ficaram impressionados como as pessoas da região conseguiam conviver da melhor forma com as adversidades da região. Em Currais Novos fomos recebidos com um banquete, graças à variedade de produtos que a fazenda trabalhava. Por isso esse tipo de viagem tem algo de especial”, conta.

Devido a tão discutida interiorização do turismo potiguar ainda não ter saído efetivamente do papel, tem aumentado as iniciativas particulares em explorar novos territórios. Gilson Bezerra afirma que se deve ficar atento aos serviços oferecidos. “Esse tipo de turismo oferece a sua dose de risco, portanto, é melhor se informar bem antes sobre o promotor do passeio. Tem que saber se a agência tem as qualificações necessárias  à atividade. É uma forma até de evitar poluição e danos às áreas visitadas”, afirma. “Existe procura, há pessoas realmente interessadas, mas falta  visão de quem poderia investir com maior potencial nessas atividades”, ressalta.  O agente está escrevendo um livro de roteiros afetivos baseados em seus 10 anos de atividades. 

Serviço:
Pé na Estrada Trilhas. Tel.: 99945-5701. Site


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