Padilha prepara Tropa de Elite 2

Publicação: 2010-04-06 00:00:00
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Por Luiz Carlos Merten

Auditório do Palácio “Gustavo Capanema”, no Centro do Rio. O prédio de Oscar Niemeyer pode ser uma obra-prima da arquitetura brasileira, mas o calor é infernal no auditório do mezanino, agravado pela potência do gerador que lança luz lá para dentro. José Padilha finalmente abre o set de “Tropa de Elite 2” para a imprensa. Ele termina a filmagem na sexta-feira (09). As grandes cenas de ação ficaram para trás e a cena deste domingo de Páscoa passa-se no presumível 3º Congresso de Direitos Humanos. O professor Fraga faz sua exposição sobre a conta perversa que caracteriza o Brasil atual. ‘Fraga’ é interpretado por Irhandir Santos, que você já viu em “Besouro”, como Noca de Antonia, inimigo do herói. Na plateia, formada preferencialmente por jovens - Fraga é professor de história, no curso de jornalismo -, está o personagem real, que o inspirou. O sociólogo e deputado Marcelo Freixo. O discurso de Fraga reproduz palestras de Freixo. O Estado brasileiro gasta uma miséria com escola e saúde. Para manter uma criança na escola, despende oito vezes menos do que para manter um preso (somente) no sistema carcerário. Além de caro, ele é inoperante. Pior - opera em sentido contrário. O sujeito que rouba um celular sai lá de dentro formado em crimes muito piores (e mais violentos). E a população carcerária não para de crescer.

No blog da Tropa,  Marcos Prado e os músicos Dudu Nobre e Seu Jorge, que atuam em Tropa de Elite 2Hoje, são mais de 400 mil encarcerados. A conta perversa - a população brasileira dobra a cada 50 anos; a carcerária, cada 8. “E ainda tem gente que diz que o Brasil é o País da impunidade. Pode ser para uma determinada faixa, mas não para os pobres”, Fraga sintetiza seu discurso. O sistema carcerário reproduz a sociedade que o criou. Fraga mostra a maquete de Bangu 2, onde estão presos os 40 homens considerados mais perigosos do Rio. Os 40 ladrões? “Ali Babá está lá fora”, ele diz. A plateia ri, e vai rir nas sucessivas vezes em que o plano será repetido. A conta perversa - neste ritmo, em 2081, a população brasileira será de 570 milhões de habitantes e 510 milhões estarão presos nesses condomínios fechados - e Fraga aponta para a maquete. Havia a cobrança por um “Tropa 2”, depois que o primeiro filme virou um fenômeno - artístico e social. No intervalo, várias emissoras, no Brasil e no exterior, quiseram transformar “Tropa de Elite” em série. Uma pesquisa do Ibope mostrou que o Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, povoa o imaginário dos brasileiros. Sete entre dez pessoas nas grandes cidades já ouviram falar nele. O diretor Padilha e seu sócio, Marcos Prado, perceberam que nunca teriam controle sobre a série, porque as condições da mídia TV são diferentes (“Não estou nem criticando”, diz Padilha).

Eles fizeram o mais difícil. Abriram mão do artigo terceiro, captaram o máximo que a lei lhes permitia (R$ 5 milhões, mais o ICMS do Estado do Rio, cerca de R$ 600 mil). O restante da produção - R$ 13,5 milhões (chegando a R$ 16 milhões com os custos de lançamento) - está sendo bancado por particulares, incluindo Padilha, Prado, Wagner Moura e uma carteira de pessoas que resolveram investir no projeto.

“Se ‘Tropa 2’ repetir os 2,5 milhões de espectadores do ‘Tropa 1’, vai se pagar e ainda dar lucro”, garante Padilha. Ele filma num estado de euforia. Não sente a pressão de estar fazendo um grande filme. A cobrança de ter de se superar não lhe tira o sono. Sua mulher diz que ele “é irresponsável”. Quando fez “Tropa de Elite”, Padilha foi chamado de direita. O filme era de direita, como seu protagonista, o Capitão Nascimento.

Por “Ônibus 174”, no qual mostrou o outro lado da realidade de “Tropa”, foi etiquetado como de esquerda. Mas ele nunca pensou nos filmes, nem em termos dele mesmo, como esquerda e direita. Em busca de um enfoque que fosse original, transferiu a dicotomia para a ficção de “Tropa 2”. O ex-capitão, agora Coronel Nascimento, tem um antagonista, e é o Fraga, o homem das ONGs. Se o tema do primeiro filme era a corrupção e a violência da polícia no combate ao crime, agora é a milícia. O papel e a responsabilidade do Estado - Padilha admite que filma para provocar polêmica e animar discussões.

“Ele é obcecado pela realidade”, diz o diretor de fotografia Lula Carvalho. De novo, ele filma com a câmera na mão, seguindo os atores (o filme deve ter uns 3% de câmera no tripé, ele diz). O plano deste domingo é filmado como sequência, um prodigioso plano de 4 minutos que Padilha e Daniel Resende vão desconstruir na montagem. É muito comum ver, no set, Padilha e Lula Carvalho cochicharem com Resende.

O montador de “Cidade de Deus” e Tropa 1 está presente o tempo todo na filmagem. Padilha já filma discutindo opções de montagem com ele. O set fechado alimentou todo tipo de boataria sobre o filme. O Coronel Nascimento não é secretário de Segurança, ao contrário do que você leu por aí. Muita informação errada tem circulado na imprensa. O filme tem um blog - www.tropa2.com.br - e também está no facebook, orkut, twitter, flickr e myspace. “A essência do personagem e do seu embate contra o crime estão de volta”, garante o diretor. “O que muda é a abordagem. As questões familiares e profissionais convergem. Agora, é pessoal “

Você vai ouvir muito esta frase. É sobre ela que vai se construir a campanha de lançamento de “Tropa 2”. A data ainda não está fechada. Seria, em princípio, 12 de novembro. Padilha é o nosso Francis Ford Coppola? “Que é isso?”, pergunta. Como o diretor de “O Poderoso Chefão”, ele encara o desafio de fazer um segundo filme melhor do que o primeiro (grande), que o inspirou.