Padrões portugueses em Lioz

Publicação: 2020-06-21 00:00:00
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Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto
[Sócio do IHGRN]

A necessidade de comprovar a descoberta, os portugueses colocavam marcos de posse ou padrões, inicialmente de madeira e posteriormente de pedra, um material mais robusto e imperecível, o que não acontecia com os que eram feitos de madeira. Esses padrões de pedra lioz começaram a serem chantados na segunda viagem de Diogo Cão, quando chegou às costas da Guiné em 1484.

Os padrões deviam ser transportados, total ou parcialmente construídos em Portugal, para serem chantados nas novas terras para assinalar a posse.

Os padrões de Diogo Cão, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama não seriam os únicos e a rota do caminho das Índia não seria o único lugar no mundo onde eles os chantariam. Os portugueses também colocaram padrões na América.

A colocação de padrões de Pedra Lioz se tornou uma prática habitual para assinalar os descobrimentos, mas seguiram erguendo cruzes de madeira como a que a de Pedro Álvares Cabral levantou no Descobrimento.

Além desses, já citados, outros padrões seriam chantados nas costas mais remotas do Oriente e no Brasil. Lourenço de Almeida no Ceilão, depois Diogo Lopes  de Sequeira em Pacém e Pidie, António de Abreu em Java, Amboina e Banda, Jorge Álvares na ilha de Tunmen, Afonso de Albuquerque na entrada do Mar Vermelho, Duarte Coelho em Sion, Henrique Leme em Sunda, um dos Corte-Real no Labrador, Francisco de Sá em Banten e Cigidy e Martim Afonso de Sousa no Brasil.

A fixação de padrões nas terras onde chegaram pelos portugueses evidencia que não foi uma prática esporádica ou isolada, mas um evento que fazia parte da própria liturgia de descobertas das novas e essa prática durou várias décadas.

Os padrões fizeram parte dos elementos iconográficos das representações cartográficas contemporâneas. Mapas, globos, atlas e cartas náuticas antigas constituem uma fonte de informação sobre padrões, que serviam como localização e pontos de referência para a navegação por terem suas latitudes mais precisas.

A carta náutica de Pedro Reinel realizada entre 1485 e 1492 e a de Jorge de Aguiar contém uma cruz de madeira na costa da Guiné. Desconhece-se o motivo pelo qual Reinel desenhou uma cruz e não uma coluna de pedra. Encontramos representações de padrões em Martellus, Cristoforo Soligo e na carta náutica chamada de Cornaro de Martim Behaim. Os padrões dos descobrimentos voltariam a aparecer mais tarde no planisfério de Cantino na costa da África. Na parte que representa o litoral do nordeste oriental, percebe-se uma sobreposição no mapa onde a bandeira de Portugal está claramente prolongada.

Os padrões de Cão, Dias, Gama e Cabral resolveram o grande problema da vida curta das cruzes de madeira que provocavam grandes confusões na história dos descobrimentos, pois os exploradores não tinham certeza se tinham ou não chegado a um lugar já descoberto, não resta dúvida que a adoção dos padrões de pedra surgiu do desejo de D. João II, o Príncipe Perfeito, de dar maior legalidade e legitimidade aos descobrimentos, que com o aval do Vaticano outorgava direitos de propriedade ou pelo menos monopólio comercial.

Sem ir mais longe, Pedro Álvares Cabral, chantou um padrão na Praia do Marco, tomando posse oficial da nova terra e levantou um segundo padrão em Cananeia. Apesar da carta enviada por Pedro Vaz de Caminha para a D. Manuel, não fazer menção a um padrão de pedra, referindo-se apenas a uma cruz com as armas do rei, Damião de Góis faz alusão a uma cruz de pedra, como um padrão.