Padre Raimundo Osvaldo, mártir do silêncio

Publicação: 2018-06-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Padre João Medeiros Filho

No dia 18 de maio do corrente ano, padre Raimundo Osvaldo Rocha, partiu para a Casa do Pai. Durante mais de cinquenta anos, serviu ao Povo de Deus, na paróquia de Luís Gomes, como sacerdote, professor e prefeito por três mandatos. Chegamos a conhecê-lo, na década de 1950, quando aluno do Seminário de Mossoró. Recordamos uma peça teatral da mesma época – carinhosamente denominada de “draminha” por padre Sátiro Cavalcanti Dantas – intitulada “Mártir do dever”. Era apresentada por um grupo vinculado ao Colégio Nossa Senhora das Vitórias, de Assú. Tratava-se de uma alusão a São João Nepomuceno, assassinado por não violar o sigilo da confissão. Na década de sessenta, já sacerdote, revisamos um trabalho de dom José de Medeiros Delgado, então arcebispo de Fortaleza, sobre padre Cícero do Juazeiro, com o sugestivo título de “Mártir da obediência”. Esses termos remetem-nos a padre Osvaldo, mártir do silencio e da resignação. Em 1988, foi afastado do exercício das funções sacerdotais, após sua eleição para o cargo de prefeito de Luís Gomes.

Submeteu-se à sanção, prevista no Código de Direito Canônico, em vigor desde 1983, suspendendo-o do ministério sacerdotal. O cânon 285, § 3 dispõe: “Os clérigos são proibidos de assumir cargos públicos que implicam participação no exercício do poder civil”. De forma obediente, acatou a determinação, tendo suportado humilhações daqueles que não compreenderam o seu engajamento motivado por amor aos paroquianos. Não raro, ouvia-se dele palavras plenas de fé e respeito: “Não me revolto contra a decisão da minha mãe Igreja. Mas Deus sabe os motivos”. Mesmo privado do uso de ordens, participava piedosamente da missa. Recebeu críticas de quem não aprendeu a misericórdia de Cristo e a caridade do Evangelho. Durante mais de dezesseis anos de afastamento do ministério sacerdotal, a Comunhão, a Sagrada Escritura, o Breviário Romano (atual Liturgia das Horas) eram sua companhia e conforto. Não buscou o poder, mas o serviço. Não se deixou seduzir pela honra e pela glória. Dizia como o Mestre: “Vim não para ser servido, mas para servir e dar a minha vida em resgate de muitos” (Mt 20, 28). A um assessor, que o aconselhou a romper com a Igreja, lembrava a frase dita outrora aos papas, no momento de sua coroação: “Sic transit gloria mundi” (Assim passa a glória do mundo).

Em julho de 2005, encontramos padre Osvaldo, quando pregávamos o retiro do clero da diocese de Mossoró, no Santuário do Lima. O tempo e o ostracismo religioso não lhe arrefeceram a chama do sacerdócio, a sede da Eucaristia e a nostalgia do altar. Dom Mariano Manzana, bispo de Mossoró, soube da decisão de padre Osvaldo de abandonar a política e cuidou de reintegrá-lo no exercício das ordens sacras. O prelado mossoroense solicitou-nos que, durante o citado retiro do qual iria participar padre Osvaldo, “conversasse com ele para a imposição da estola sacerdotal”. Em nossa vez de presidir a Sagrada Eucaristia, convidamos padre Osvaldo a fazê-lo em nosso lugar. Com humildade declinou do convite. Na concelebração, a nosso lado, estavam dom Freire, dom Mariano e ele. Grande fora nossa emoção, quando o vimos, olhos marejados de lágrimas, tomar a Hóstia consagrada e balbuciar palavras cheias de amor à Eucaristia: “Senhor, posso morrer em paz. Estou de volta ao altar”.

Muito pode ser dito ou escrito sobre o sacerdote, o professor, o político probo, servidor e pobre. Muitos ainda recordam o esmero e a dedicação com que preparava suas aulas ministradas no Campus da UERN, em Pau dos Ferros. Vale salientar que iniciou sua vida magisterial, ainda seminarista. E no Seminário de São Pedro, em Natal, teve como aluno nosso arcebispo emérito dom Matias Patrício de Macêdo. Cabe-nos lembrar o amor profundo de padre Osvaldo a Cristo e à Igreja. Hoje, encontra-se, no céu, contemplando também a face de Sant´Ana, diante de cuja imagem, por quase sessenta anos, piedosamente rezou e cantou: “Ó gloriosa padroeira, esta graça dai também. Que um dia no céu cantemos as vossas glórias, amém”. Padre Osvaldo, receba a gratidão do povo de Deus! “Requiescat in pace”!


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