Pai

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Andreia Clara Galvão [ Psicóloga]

87 anos. Tinha um levíssimo tremor nas mãos e uma certa dificuldade de se adaptar ao teclado do tablet. Os dedos de vez em quando batiam na letra errada. Mas isso não era exatamente um problema. A questão  urgente mesmo é que já era madrugada do dia da “dead line” da revista para onde quinzenalmente escrevia a sua coluna e nada das ideias aportarem sua cabeça. Era tudo silêncio. Eram as brancas nuvens no céu do sertão no estio. As  vacilações do lápis grafite no papel pautado da escola da infância. As  areias nas dunas intermináveis da sua cidade.

Ideias silenciosas podem ser repouso. Às vezes. Também  podem ser tormenta. Ou pior, revolta. Há que saber lidar com o temperamento genioso das ideias. Senão é guerra. Com mortos e feridos. Januncia tentou conversar com o silêncio. E veio mais silêncio. Resolveu apenas ficar junto dele. E foram as durezas. Sem escolhas, insistiu. Água mole em pedra dura... Em vários momentos da vida, escolheu resistir.

Breve aconteceria o dia que dizem ser dos pais.  Todo dia é de pai, de mãe, de filho,  de não filho. Todo dia é dia de gente. Mas nesse dia que dizemos ser dos pais, ela gostaria de fazer um texto para eles.  Para  esses homens de todas as idades que  conhecem a ternura e  a transformam em gestos e cuidados das suas crianças. Esses homens valiosos em cujo olhar se vê disponibilidade para  os pequenos. Acompanhar pede coragem para estar junto.  Nos lampejos luminosos  das descobertas do mundo. Nas travessias das dúvidas, nas birras, nas horas febris. Mais além do sono e do cansaço.

 Januncia queria escrever um texto cujas palavras olhassem esses homens com a mesma ternura que pressentia em seus gestos. Um texto que lhes abraçasse e lhes prestasse a devidíssima homenagem. Por que é bom não esquecer,  a continuidade da vida afetiva depende muito de homens assim. Mas ela também queria escrever para abraçar os brutos, os difíceis, os que abandonam suas crianças e que também estão por toda parte dessa terra.  Como quem dá para ver se depois brota, prospera o solo infértil. Ou como quem tenta acalmar bicho selvagem.

Acontece que  dentro dela ainda eram os silêncios.  Desses que permitem que se ouça o vazio. Foi então que, subitamente, ela ouviu  o tac-tac-tac da máquina de escrever do seu pai. O mesmo do pai de Clarice. E depois ouviu os seus passos subindo a escada com os marrecos em cantoria atravessando o quintal atras dele. Ouviu sua respiração enquanto folheava os livros e lia para ela algumas linhas. Viu ele digitando em 10 minutos, no intervalo de sua jornada, o que ela, menina, tinha levado a manhã inteira a escrever. O papel dela todo borrado, porque a oito décadas atras, apagar borrava o papel datilografado. O dele era alvura e as letras nítidas. Pretas e iluminadas.

De repente tudo parecia ser agora. O tempo e suas artimanhas. Instante acordado. Fina pulsação de vida vinda de um tempo ido. De repente  brotaram para Januncia, plenos de vigor,  a goiabeira e a mangueira, as rosas brancas da janela, as ervas no canteiro, os pés de macaxeira no quintal.  O pai cultivador das plantas. Surgiram as ilustrações da enciclopédia Mirador e Flicts, a cor de Ziraldo que foi morar na lua. Apareceram nítidos todos os livros infantis da parte baixa da estante, mais lápis, papel e borracha para os traços que se quisesse.  E ela frequentemente queria. Desenhos e bilhetes. Comunicar é destino. Brilharam ainda mais forte os livro da parte  alta censurados que certamente foram encontrados...

Vieram as aulas sobre os solos, as plantas, as formas de organização dos povos...  A estrada  fazendo caminhos pra vida toda. Ela a percorre-los. Encantada 87 anos depois. Acompanhou a memória do olhar, a memória do gesto. Tudo tão vivo e bom. O pai e sua transmissão em receber o mundo, em se aventurar e se arriscar a lê-lo. Foi assim, madrugada a dentro, que ele atravessando tempo e silêncio, visitou Januncia. Memória e afeto são antídotos para a morte. Sorriso, voz, olhar, repreensão e ternura verdadeira chegaram clareando as horas.

A festa rompeu o silêncio. Amor quando chega é festa. Ultrapassa qualquer silêncio. Vai  além da densidade dos tempos. Januncia juntou tudo no seu texto-baú. Entregou à redação da revista, no tempo limite da “dead-line”. Por favor, abram com cuidado. Há muita luz aí dentro. Entregue aos pais que vocês encontrarem. Isso é para eles, para o pai de meus filhos, os pais de meus netos, os pais de todos os tempos, inclusive o das criancinhas que nem nasceram ainda é das que não vão nascer. Para eles hoje e depois. Com carinho.

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