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Rubens Lemos Filho
Palavra da salvação
Publicado: 00:00:00 - 17/04/2022 Atualizado: 12:23:22 - 16/04/2022
Palavra da salvação

Esperou com a angústia dos noivos, a paciência dos vingativos e a resignação das mães. Sem a sabedoria dos orientais, mas com amor transbordante e  resvalando na cegueira da estupidez.

É adoração o que ele destina ao objeto de seus sonhos  e sempre quer estar perto dele, na sagrada loucura dos amantes a improvisar melodias e dedicatórias medíocres, porém sinceras.

Lembrou, semana começando, dos gozos e contratempos, daquela relação de duas décadas, no mínimo, entre a fulminante estocada no peito à convivência reluzente, exposta como uma fratura sem dor, aguda quanto estocada do peito rendido à beleza.

Nos dias de glória, sempre adjetivou como os apaixonados patetas. E, finalmente, concordou com aquele amigo que dizia, falso e dissimulado(é do tipo crônico e desprezível): todo apaixonado é ridículo.

O amigo, ou a caricatura de, o emocional descobriu depois, não passava de um indiferente, de um nerd desvairado,  dotado de horror suspeito em relação a duelos em campos de soccer ou à  própria apreciação  do amor ilimitado.

Ocorre que, superlotado de defeitos básicos, o amigo que não era acertou no ponto fraco da devoção absoluta com que ele, o previsível, se entregava aos seus casos: fazendo promessas, de joelhos, rasgando o manual elementar da dignidade com fidelidade mantida, quase militarmente.

Também quis abraçar a cidade, dançou na rua, meteu-se a poeta(sofrível), brigou em mesa de bar, deu na cara de cabra safado. Gostaria mesmo era de ter acertado um tiro no crápula fundamental.

Agora ele voltava a autoanálise: no velório dos fracassos, que foram muitos e das perseguições covardes sofridas, da melancolia pela traição e a omissão conveniente de quem considerava irmão, o desejo, lá no fundo do labirinto cerebral: estar morto não seria pior do que apanhar tanto e absolutamente sozinho.

O relógio, silente, alerta: a hora vai chegando e a pulsação é frenética. Usa um tensiômetro digital, fajuto de farmácia e a pressão atinge 16 por 10. Mas nada merece tanta atenção e o sacrifício dos mártires quanto o acontecimento próximo.

Na juventude, fígado atlético, a cerveja gelada como bálsamo inútil. Apaixonado e bêbado, deplorável em dobro. Coragem pessoal testada, evitava dividir espinhos e moinhos particulares. Era um medroso existencial, um frouxo nas testagens da vida.

Seguia se perguntando, na solidão do quarto, breu do tamanho de suas interrogações: será que que a última vez será de novo? Ou será decepcionante, como a última?

Sente-se o toureiro diante da multidão sedenta de desgraça, com o touro perfurando-o como carne gelada de açougue, dependurando-o ao sol inclemente das tragédias de gente babando, uivando, pela coloração desgraçada do ato heroico.

Sente-se o policial se esgueirando, fuzil acompanhando a respiração ofegante, vielas com assassinos entrincheirados e prontos para derramar o sangue de quem sangra pelos outros sem reconhecimento.

Sente-se o doente recebendo o exame fechado que pode destruir até sepultar seu corpo. Sente-se o aluno em reza casuísta e ocasional, pela aprovação na prova do Enem. Sente-se em duelo com o imprevisível.

É angústia demais, ele reclama, enquanto o remédio sublingual luta para baixar a agonia das artérias. Está faltando uma hora para o reencontro de sua vida. Pensa nos mortos, implora para que eles antecipem o fim de um segredo cuja chave eles têm, no mistério de suas moradas que transpassam catacumbas.

O suor é frio, a boca seca, as mãos tremem. Então, buscando no infinito todas as coragens, abre a gaveta, tira a sua camisa  e vai rever, vestido de ternura, aflição e desejo, o clássico mais importante do mundo. O que fará do seu time, o campeão.

Ele é personagem de um teatro real de ardor e glória, temor e derrota. Mais tarde, embriagado e indomável, invadirá uma igreja em plena missa, gritando: sou o dono do mundo! E, virando-se ao coral, louco em adoração: “O ABC é o campeão das multidões!”. Ajoelhados, carolas e beatos, louvaram em uníssono: “Palavra da salvação!  “.

PS. Segundo fontes (pouco) confiáveis, o alvinegro em transe passou pelo Cemitério Alecrim e dormiu duas horas sobre o mármore do túmulo de Vicente e Maria Lamas Farache, patrono e matriarca do ABC. Continuou o porre no Cabaré de Maria, imediações do Campo Santo.

Hora do América

O América foi eliminado cinco vezes na Série D e essa onda tem que acabar. O América só está disputando a 4ª Divisão porque o ABC subiu à Série C, humilhação velada. O América vem  de encerrar um campeonato estadual, invicto em cinco clássicos e perdendo justamente o decisivo.

A moral da história é óbvia: além das pernas, sofre a mente vermelha. O América precisa controlar seus nervos para ser forte até o fim, não ser o triste nadador a morrer na praia.

O time atual será modificado porque não há craques, há uma referência goleadora chamada Wallace Pernambucano. William Marcílio rebola como camisa 10, joga como numeral 23. É hora de o América renascer. Já.

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