Cookie Consent
Artigos
Palavras: combustível ou extintor?
Publicado: 00:00:00 - 19/06/2022 Atualizado: 14:48:57 - 18/06/2022
João Maria de Lima  
Professor

A interação social sempre foi fundamental para todo o desenvolvimento da espécie humana. Foi ela que nos permitiu estabelecer a comunicação. Hoje, essa comunicação está deixando de ser feita entre duas ou mais pessoas presentes — e passando a ser mediada por máquinas que conectam pessoas de diferentes lugares em interações digitais. 

Conversas ao celular, trocas de mensagens de texto e respostas por e-mail estão substituindo a comunicação interpessoal. Qual é o impacto, nas interações sociais, desta nova forma de comunicação? Talvez a maior consequência disso seja uma redução na capacidade empática das pessoas, que aumenta o individualismo e reduz a habilidade de se imaginar no lugar do outro. 

Isso deve ser motivo de reflexão, pois a empatia despertada por uma comunicação interpessoal é tão forte que, em alguns casos, não é necessário dizer sequer uma palavra para que a comunicação seja efetiva. 

A nova forma de se comunicar já é perceptível, como em um ambiente lotado de pessoas que, mesmo estando cara a cara, puxam os celulares do bolso e, sem olhar para o lado, se conectam com pessoas a quilômetros de distância, como se estivessem sozinhas ou não lembrassem mais o que é uma interação interpessoal. 

A interação por telefone limita o que Heni Ozi Cukier, autor de “Inteligência do carisma”, chama de audição visual. Para ele, um dos maiores problemas de uma conversa remota é a falta de interação visual. De fato, as pistas transmitidas pela comunicação não verbal são importantíssimas para a compreensão. 

Ademais, hoje está se tornando cada vez mais comum a comunicação via chat — do celular ou via computador. Essa forma limita a compreensão de uma comunicação por mensagens de texto, garantindo alguma discussão ou mal-entendido por mensagens de WhatsApp e parte do desentendimento ocorre em razão do “tom” usado pelo outro. 

Outro ponto importante a se considerar é a necessidade experimentada por nossa sociedade de ocupar espaço nas redes sociais. No contexto em que estamos inseridos, as pessoas, não preocupadas com o que dizem, esforçam-se para postar algo. Aí estamos diante de outro problema muito simples de entender, mas difícil de aplicar: ter sabedoria ao utilizar as palavras.

Para ilustrar, veja-se o caso ocorrido no último dia 13,  no Rio de Janeiro, no interrogatório de Jairo Souza Santos Júnior — médico e vereador cassado, conhecido como Dr. Jairinho, réu pela morte do menino Henry Borel. A sessão começou com mais de duas horas de atraso, por causa do embate entre a defesa do ex-político e a juíza Elizabeth Louro, do II Tribunal do Júri.

O estopim da briga foi uma reclamação da promotora do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre postagens em que os advogados de Jairinho concordavam com a alcunha de "Rainha de Copas", dada à magistrada pelo procurador-geral nacional de prerrogativas da OAB, Alex Sarquis, em evento da Ordem. Nessa ocasião, também foi insinuado que a juíza era “impaciente e surtada”.

A discussão, ocorrida numa sala de audiências e que deixou em segundo plano o interrogatório, começou em virtude de postagens nas redes sociais, as quais, muitas vezes, são feitas na impulsividade, e esta é responsável por atrapalhar o que falamos, as associações que fazemos e – é claro – o pior de tudo, as nossas decisões. Nesse caso, nada mais impróprio e desnecessário.

Nunca é demais lembrar que as palavras podem ser o combustível que alimenta uma explosão ou um extintor que apaga um incêndio. Por isso, a máxima de Provérbios 15,1: “Uma resposta branda aplaca o furor, uma palavra dura excita a cólera”.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte