Palco online

Publicação: 2020-07-08 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

O admirável mundo novo é virtual e, ao mesmo tempo, muito real. Um grande palco on-line cada vez mais conectado ao fazer teatral. Dois dos mais conhecidos grupos potiguares de teatro estão colocando agora na rede as suas novas experiências cênicas em tempos de isolamento: o Clowns de Shakespeare iniciou a temporada de “Clã_Destin@: uma viagem cênico-cibernética”, até 17 de julho, e o Carmin estréia com “Gente de classe: Desfocados”, dias 08 e 15 de julho. É dramaturgia virtual que discute profundamente o mundo real contemporâneo.  

Créditos: DivulgaçãoClows - "Clã_Destin@" poderia ser classificada como uma distopia baseada em fatos reais. A trama se projeta 25 anos adiante para mostrar um futuro possível – ou nãoClows - "Clã_Destin@" poderia ser classificada como uma distopia baseada em fatos reais. A trama se projeta 25 anos adiante para mostrar um futuro possível – ou não


“Clã_Destin@” poderia ser classificada como uma distopia baseada em fatos reais. A trama se projeta 25 anos adiante para mostrar um futuro possível – ou não. Trata-se de um tempo onde todos estão isolados e impedidos de fazer seu ofício, onde toda a população vive num sistema de perseguição aos movimentos artísticos e tudo deve seguir normas de higienização e aculturação. Nesse tempo fictício as pessoas já não podem mais viver em comunhão e todos os encontros foram banidos da sociedade.

Viagem entre plataformas
Para entrar no mundo de 2045 imaginado pelos Clowns de Shakespeare, o espectador também deve seguir regras. São três sessões diárias, entre 18h, 19h30 e 21h, cada uma com acesso a apenas seis pessoas por vez. Os espectadores/internautas acompanham a trama se desenrolar entre o Whatsapp, o Instagram e o Zoom, conduzida por seis atores mascarados. Um teatro imersivo, mas todo em ambiente digital. O acesso ao “mundo pelo avesso” dos Clowns custa R$25 e deve ser adquirido pelo direct do Instagram no perfil @teatroclowns.

Fernando Yamamoto, diretor dos Clowns, afirma que se trata de um espetáculo ‘multiplataforma’. “A gente está chamando de viagem cênico-cibernética por ser um lugar que ainda estamos aprendendo a explorar. Mesmo assim apresenta uma relação muito interativa e dinâmica. De fato só assistindo para ter uma dimensão exata do que é”, diz. Ele ressalta que a peça é uma forma de ressignificar um pouco a maneira como os aplicativos e redes sociais têm sido utilizados nesse período durante o dia-a-dia, no trabalho, para os estudos ou lazer.

A experiência, que se mostra nova para a platéia, também é para os próprios atores. Yamamoto explica que o grupo tentou ao máximo transpor a mesma lógica dos ensaios presenciais para o virtual. Mas não foi fácil. “Nos ensaios presenciais, a gente fica até oito horas numa sala, mas há uma renovação de energia, é estimulante. Já nos ensaios virtuais, olhando o tempo todo para uma tela, isso não acontece, o desgaste é maior e mais rápido. É complicado”, relata.

Não é fácil ensaiar, mas para a criação se abrem várias possibilidades. O diretor afirma que o processo de idéias também foi similar à dinâmica dos tempos “normais”. “Os atores criam material e apresentam, e daí vou trabalhando, dirigindo, e experimentando. Então nesse sentido foi curioso porque a gente começou o processo de uma forma pragmática, sem entender muito como isso funcionava, e aos poucos fomos achando o ponto”, explica. Segundo ele, a confusão contemporânea é difícil, mas capaz de deixar a cabeça do artista “em ebulição”. O grupo fez uma semana de ensaios abertos on-line para outros colegas de todo o mundo.

“Queremos discutir o que é estar em casa, o que é estar fora, o que é viajar”, disse o diretor. A atriz Paula Queiroz destacou as especificidades de um trabalho realizado por uma equipe fisicamente separada que se reúne por meio de um ambiente virtual. "A gente começa a transformar os espaços da casa, a ver quais são suas potências artísticas ao enxergá-la com outro olhar", relatou. "É o aprendizado de uma outra linguagem", resumiu o ator e assistente de direção Diogo Spinelli. A peça também  homenageia  mestres  e  mestras  do  teatro  latino-americano, reconhecendo a identidade da trajetória de 26 anos do grupo a partir dessa homenagem.      

Classe média sofre
O grupo Carmin entre em cena virtual com uma cena de seu novo espetáculo, “Gente de Classe”, nesta quarta, às 20h, em seu canal no Youtube. A peça conta a história de uma típica família da classe média brasileira que vive em um condomínio fechado, sem contato nenhum com o mundo externo. A cena intitulada “Desfocados” será exibida em duas sessões – a próxima será no dia 15/07. O projeto foi contemplado pelo edital simplificado ‘Tô Em Casa e Tô Na Rede’, realizado pelo Governo do Estado.

Créditos: DivulgaçãoCarmin - o ator Robson Medeiros faz parte da trama que dá vida a uma família de classe médiaCarmin - o ator Robson Medeiros faz parte da trama que dá vida a uma família de classe média


No palco virtual a atriz Quitéria Kelly e os atores Robson Medeiros e Mateus Cardoso dão vida à família que vive como classe média, come como classe média, briga como classe média e faz yoga como classe média. O grupo vem realizando ensaios de maneira virtual e a cena que será exibida nasceu dos momentos de isolamento social causados pela pandemia do novo coronavírus. Após a exibição, o grupo irá bater um papo com os espectadores da live. A cena ficará disponível no canal até às 00h.

O diretor Pedro Fiuza explica que todos os elementos presentes nos trabalhos do Carmin, como política, humor e crítica a sociedade contemporânea estão no novo espetáculo. “É também um avanço no recorte geográfico do Brasil: se em Jacy falamos de Natal, na Invenção do Nordeste falamos da região, agora nós queremos falar do país inteiro, mas não a partir do espaço, e sim da classe social mais numerosa e diversa do país, que é a classe média. Além disso, o público pode esperar alguns elementos de ficção científica”, disse.

O processo de criação do novo espetáculo surgiu ainda em 2018, logo após as eleições. De acordo com Henrique Fontes, que assina a dramaturgia ao lado de Pablo Capistrano, com o resultado do pleito e todos os acontecimentos que se seguiram ficou claro o ‘fator classe média’ explicitado nas obras do potiguar Jessé Souza. “Como sugere Jessé, fizemos uma análise sobre nós mesmos. Tivemos que cortar na própria carne”, conta.

Serviço:
Clã_Destin@: Uma viagem cênico-cibernética. De terça a sexta, às 18h, 19h30 e 21h, até dia 17/07. Ingressos e informações: por mensagem no perfil @teatroclowns.

Gente de Classe: Desfocados. Dias 08 e 15/07, às 20h, no canal do YouTube do Grupo Carmin.