Palumbo reedita brilho da "Londres nordestina"

Publicação: 2011-02-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Nelson Patriota - escritor

Mais conservadora e menos afeita à autoironia do que sua congênere mossoroense Papangu ou a nacional Piuaí que lhe serviu de inspiração, a revista palumbo adentra um novo janeiro focando em múltiplas direções, como um franco-atirador entregue aos prazeres do acaso. Alguns desses tiros miram na escassa memória que trata dos costumes juvenis de meados do século passado; outros, tentam explicar o presente escorregadio, não obstante suas limitações naturais.

Na capa destacam-se quatro temas: 50 anos de contracultura - o movimento underground na Fortaleza dos Reis Magos; entrevista com o advogado João Leite; uma comu-nidade islâmica em Natal; e um passeio pela Londres nordestina. Comparadas com outras matérias encartadas na edição, fica evidente que elas resultaram muito mais de uma "escolha do editor" (por sinal ausente desse número), do que por uma urgência, importância ou oportunidade maior relativamente a matérias como a entrevista com a poetisa Iracema Macedo, a crônica de Jairo Lima sobre um bêbado do Mercado de Petrópolis, ou ainda a entrevista com a jornalista Cínthia Lopes.

Mas a nostalgia é um dos produtos culturais incontornáveis de nossa época, sobretudo quando acom-panhado de registros fotográficos. Daí a "escolha do editor" ter recaído sobre o movimento underground na Fortaleza dos Reis Magos, cuja foto congelou num nicho do passado um grupo de jovens natalenses antenados com o credo do "peace and love" e outras palavras de ordem da época. A presença de três crianças de colo sinaliza melhor do que qualquer outro elemento - inclusive os cabelos longos do exímio guitarrista Lola ? a mudança de ventos que Dylan soprou nuns versos atemporais. A matéria assinada por Mário Ivo Cavalcanti, retomando o mote da Londres nordestina cunhada pelo eterno vanguardista Jomard Muniz de Brito, se soma à anterior pespegando-lhe o dístico umbertiano "apocalípticos e integrados" para uma leitura peripatética de tipos e letras potiguares.

A entrevista com Iracema vale por uma aula de poesia. Volta e meia ela deixa para trás as amenidades fáceis e retoma sua matéria preferencial. É quando fala de seu método de criação: "Não consigo planejar o poema; ele vem, depois eu tento lapidar, fazer a transpiração, a oficina". Mais curioso, porém, é quando declara: "Descobri um jeito de encontrar ouro nos poemas que todos escrevem", referindo-se à poesia que fervilha livremente no mundo da vida e que costuma passar despercebida às pessoas. A outra entrevista, dessa vez com o advogado João Leite, resgata com boa prosa e pouco saudosismo uma Natal risonha e franca.

No leque de ideias ventiladas aos quatro ventos, o foco da palumbo recai às vezes sobre temas deixados à mar-gem pela chamada grande imprensa. A reportagem assinada por Luana Ferreira sobre uma incipiente comunidade islâmica potiguar que tem à frente o jornalista Carlos Peixoto, editor desta sempre brava TN, é um desses encontros raros que o jornalismo é capaz de proporcionar. Não que a matéria esgote o assunto. Longe disso. Revela porém caminhos novos, veredas inéditas que oxigenam uma sociedade naquilo que lhe é mais decisivo: o campo das ideias, em tempos nos quais reinam tanta incompreensão, preconceitos e intolerância nesse campo minado que cerca as crenças humanas. No seu livro "A Condição Humana", Hannah Arendt enfatiza a importância de se começar coisas novas, modo simples de dar novo alento e renovar o sentido da vida. A conversão de Carlos Peixoto (Khalid Musa), exemplifica um pouco desse ato filosófico, enquanto retira do anonimato religioso a comunidade muçulmana que fincou raízes em nosso Estado.

Enfim, reafirmando sua posição de revista de ideias através do jornalismo investigativo, da reportagem personali-zada, do artigo às vezes contra a corrente ou propositalmente naïf, palumbo renova um diálogo com seus leitores que se mostra amiúde certeiro e necessário, na medida em que procura fazer diferente aquilo que pode ser feito de modo diferente, mesmo quando fazer igual seja mais cômodo.

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