Pandemia, Insegurança e Apoio Psicológico

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
Thaisa Gomes Ferrandino
Psicóloga do Instituto Personale

Vivemos atualmente o desafio de pensar o futuro, em meio ao caos no presente, impetrado pela pandemia que assola o mundo. Em meio a este caos, vivemos todos ao mesmo tempo, as angústias da falta de liberdade de ir e vir, os novos hábitos e principalmente: o medo de um inimigo invisível que não se sabe onde está nem com quem está.

Conforme nos adaptamos (se é que podemos chamar de adaptação) a esta nova realidade, desenvolvemos quase um medo paranoide que passou a nos perseguir, independente de nossas tentativas de fuga; ele estava ali enquanto realizávamos atividades cotidianas, e até alcançou nossos sonhos. No início, esse medo chegava a ser paralisante: notícia após notícia, nos encontrávamos aterrorizados pela ideia de lidar com esse fenômeno inédito e avassalador.

De repente, sentir esse medo tornou-se uma sensação quase “normal”, como algo que se acoplou aos nossos sentimentos rotineiros, e alastrou-se até a perspectiva de futuro, que se mostra agora, para muitos de nós, como um borrão disforme.

A questão é: precisamos da ideia de futuro para nos mantermos seres desejantes, ativos, produtivos e mais que isso, esperançosos. A esperança de dias melhores nos dá a base para que sobre ela, se construam planos. Como manter a fé e a esperança? Como fazer com que estas mesmas nos deem segurança e paz de espírito?

O que vemos atualmente é que muitos dos temores e inseguranças que se sobressaem nestes dias e nos deixam mais vulneráveis e frágeis, não vieram todos eles com a pandemia; digamos que de certa forma, a pandemia deu luz às muitas rachaduras que já apresentávamos e após o surgimento do novo corona vírus, este lançou luz aos conflitos internos que já se encontravam conosco.

Já nos apercebíamos em um momento muito claro de fragilidade relacional, o qual se dá, principalmente, devido à polaridade que divide opiniões da nossa sociedade atual. Polaridade essa que surge da falta de ancoragem que buscamos para viabilizar nossa segurança psicológica, a ideia de que estamos amparados; afinal, todos temos nossas vulnerabilidades. A crise social, econômica e de costumes engatilharam essa polaridade, fazendo-nos mais expostos aos males da alma do que estávamos acostumados.

É importante lembrar que não somos super-heróis e termos consciência de nossos limites para o enfrentamento das angústias nos faz conseguir traçar melhores planos para a nossa saúde mental. Estamos, como humanidade, buscando caminhos de solidariedade, de música nas varandas, assistências das mais diversas, mas isso pode não ser suficiente. E se não for, não há demérito em buscar ajuda profissional. Atualmente vivemos a era da compreensão sobre a ciência psicológica e que a psicoterapia é algo comum, como ir ao dentista ou ao médico para prevenção ou tratamento de algo.

Talvez a maior demonstração de força não esteja em conseguir sozinho equilíbrio emocional e saúde psicológica; mas sim a de conseguir pedir ajuda e com isso, garantir as melhores decisões para que o futuro aconteça. Porque o futuro virá – e teremos de estar prontos para usufruí-lo.

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