Pandemia leva empresários à falência no RN

Publicação: 2020-06-27 00:00:00
Luiz Henrique Gomes
Repórter

A Associação de Bares e Restaurantes do Rio Grande do Norte (Abrasel/RN) estima que os três meses de pandemia do novo coronavírus causaram a perda de 8 mil empregos em Natal, somente no setor de alimentação. A quantidade reflete o fechamento de aproximadamente 400 bares ou restaurantes, 20% de 2 mil estabelecimentos. Em julho, a quantidade de empresas fechadas pode dobrar e chegar a 800, se a reabertura gradual da economia não acontecer. A estimativa é do presidente da Abrasel/RN, Artur Fontes.

Créditos: Adriano AbreuGabriel Ferliti, de 22 anos, saiu da realidade de um sonho de infância para um pesadelo em aproximadamente 15 dias de isolamentoGabriel Ferliti, de 22 anos, saiu da realidade de um sonho de infância para um pesadelo em aproximadamente 15 dias de isolamento


Em todo Rio Grande do Norte, o desemprego pode atingir 30% de 120 mil empregos formais no setor de bares e restaurantes, ainda segundo a Abrasel.  Caso isso se confirme, o dado representa  mais de 2 mil empresas fechadas.

Segundo Fontes, as soluções encontradas pela maioria dos bares e restaurantes foi aderir à Medida Provisória do Governo Federal de suspensão por 60 dias dos contratos de parte dos funcionários. Mesmo com parte dos estabelecimentos abertos através do serviço de delivery, a maioria dos funcionários foi suspensa através da MP. “Um restaurante que tinha 300 a 200 funcionários manteve só uma parte trabalhando e os outros estavam em casa”, explicou.

A MP federal foi um guarda-chuva para as empresas, que deixam de arcar com os encargos trabalhistas temporariamente. Os funcionários passam a receber parte do seguro-desemprego para manter a renda. Aprovada em abril para permitir a suspensão nos meses de maio e junho, a medida foi votada e aprovada no Congresso mas ainda carece de sanção do executivo federal para poder ser aplicada nas empresas. 

Entretanto, na avaliação de Fontes, os estabelecimentos sofrem com outras despesas mensais, como o aluguel, e parte deles vai precisar pagar a folha salarial de junho. “Muitos funcionários retornaram neste mês de junho porque a MP havia se encerrado. E tem estabelecimentos que os funcionários voltaram na teoria, mas ficaram em casa porque o local de trabalho não estava em funcionamento. Eles vão ter que receber”, contou.

A expectativa de reabertura gradual no dia 17 de junho iria possibilitar, ainda segundo o presidente da Abrasel/RN, o mínimo de receita para arcar com essas despesas de julho. No protocolo adotado pelo governo estadual, os serviços de alimentação poderiam abrir 10 dias depois da primeira fase da reabertura gradual iniciar. “Mas com o adiamento para 1º de julho, é mais prejuízo. Abrir quinze dias antes 
parece pouco, mas você já consegue diminuir prejuízos. Sem a reabertura, a tendência é o quadro piorar”, lamentou Artur Fontes. 

Abertura de leitos
O presidente da Abrasel/RN reconheceu a gravidade da pandemia do novo coronavírus em todo mundo e opinou que o foco do Estado deve ser na abertura de leitos. Na última segunda-feira, 22, o empresário criticou a recomendação dos Ministérios Públicos que pediu o adiamento da reabertura, marcada então para o dia 24. “O Ministério Público deveria cobrar das Prefeituras a abertura de mais leitos, antes de entrar na discussão sobre a reabertura gradual da economia", disse.

Fontes assistiu a coletiva de imprensa feita por procuradores e promotores realizada no mesmo dia, onde a promotora de Saúde do Ministério Público do Estado, Iara Pinheiro, afirmou que as Prefeituras estão omissas durante a pandemia. “A discussão hoje é que se abra mais leitos para poder aumentar o número de vagas e ter leitos desocupados. Não queremos que o critério de 70% dos leitos ocupados mude, mas que haja mais leitos”, afirmou.  

Do sonho ao pesadelo em 15 dias de isolamento
Foi num breve período de 15 dias entre a abertura e o fechamento forçado que a esmalteria, clínica de estética e salão de beleza do empresário Gabriel Ferliti, a Flor de Lis, funcionou. Aberta dez dias antes do primeiro caso do novo coronavírus ser confirmado no Rio Grande do Norte, o empreendimento fechou as portas no dia 18 de março e, pouco mais de três meses depois, está perto de falir. Gabriel, de 22 anos, investiu aproximadamente R$ 40 mil no seu primeiro negócio com a expectativa de conseguir a independência financeira, mas agora acumula dívidas na empresa e cartões de créditos bloqueados, sem saber até quando vai conseguir manter o empreendimento aberto.

Passados quase 100 dias desde o decreto estadual de fechamento das atividades econômicas, no dia 23 de março, Gabriel não é uma exceção.A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio RN) estima 12 mil empresas falidas nesse período, número que se agrava a cada mês por causa das despesas mensais. Em abril, o fechamento levou a uma queda de 15,3% dos serviços no Rio Grande do Norte, em comparação com o mês de março. Os salões de beleza não foram considerados serviços essenciais neste primeiro decreto.

Gabriel Ferliti abriu a Flor de Lis no dia 2 de março em um imóvel alugado no bairro de Petrópolis, uma das áreas com o aluguel mais caro de Natal, na zona Leste. No dia 18, antes do decreto do dia 23, decidiu suspender as atividades porque teve medo da mãe, de 65 anos, contrair a covid-19. Eles moram juntos e ele já lidava com muitos clientes nas primeiras semanas de funcionamento, o que aumentou o receio. “Fechei com a expectativa de retornar em 15, 20 dias. Mas esses 15 dias viraram um mês; um mês viraram três meses; e três meses viraram uma incerteza”, declarou o jovem empresário.

Nas primeiras quinze páginas do caderno de Gabriel é possível ler nomes, horários e serviços agendados, escritos organizadamente em formato de planilha, mas de repente há uma quebra. Uma página, datada do dia 18 de março, com a palavra “fechou” escrita em letras grandes marca o fim dos agendamentos. A partir dela, todas as folhas estão em branco. “Eu estava muito feliz e esperançoso porque esse é meu primeiro empreendimento e tinha muita gente aqui. Estava surpreendido positivamente pela aceitação, mas de repente tive que parar”, relembrou angustiado.

Quando se deu conta que o empreendimento teria que ficar fechado por tempo indeterminado, o empreendedor começou a ter problemas psicológicos. Para dormir, começou a precisar tomar remédios; acordado, pensava estar em “um abismo.” “Eu sempre pensei em empreender, em ter meu próprio negócio. Isso desde criança. Eu comecei a trabalhar como produtor de bandas de forró aos 17 anos, ganhando pouco e tendo que virar muitas noites. Guardava todo dinheiro para isso aqui. Finalmente consegui empreender, e agora me vejo nessa situação”, disse.

A prioridade do jovem foi pagar funcionários e aluguel - uma despesa que chega perto dos R$ 7 mil por mês -, mas para isso ele precisou utilizar uma poupança e de uma pequena ajuda da mãe, funcionária pública federal. As contas de energia, luz e cartões de crédito deixaram de ser pagas. Gabriel está com o nome bloqueado em mais de três bancos, mas a prioridade é a sobrevivência de um sonho.

Rifa é saída para manter empreendimento vivo
A situação financeira se agravou neste mês de junho com o fim da poupança pessoal. O empreendimento está à beira da falência com pouco mais de três meses de existência. O empreendedor decidiu abrir uma rifa para tentar pagar as contas, mas não sabe se vai ser suficiente. Na sua conta do Instagram, justificou a ação: “Eu investi tudo que tinha pra montar o meu sonho, mas diante da situação estou próximo de fechar as portas antes de 6 meses de inaugurado. Pra ajudar a pagar os funcionários atrasados e o aluguel de lá eu decidi fazer uma rifa beneficente, onde todo o valor sera revertido na manutenção do prédio e da equipe.”

O empreendedor tenta se manter esperançoso porque a cada dia que passa mais clientes o procuram nas redes sociais interessados em marcar um horário. Desde que fechou em março, o salão só voltou a funcionar quando o governo estadual autorizou a abertura do setor, no dia 24 de abril. Menos de um mês depois, ainda em maio, o decreto foi alterado, e ele precisou fechar novamente. “Clientes a gente vê que tem, que vai ter, o que falta é abrir. Quem conseguir atravessar a pandemia vai ter muita procura, pelo menos no meu setor, mas eu sei que já tem muitos salões fechados, principalmente os maiores. O que resta é a esperança”, declarou.

Adaptação é a palavra de ordem
Empresas que conseguiram manter uma saúde financeira precisaram suspender contratos de funcionários, amparados em uma Medida Provisória do Governo Federal, e se adaptar à pandemia. Foi o caso da empresa familiar de Emanuel Dantas, de venda de alumínios, que possui duas lojas montadas no bairro do Alecrim, principal centro comercial de rua de Natal. O empreendedor aderiu à Medida Provisória, e três dos cinco funcionários de carteira assinada foram remunerados pelo governo federal em abril e maio.

Segundo o IBGE, 172 mil trabalhadores do Rio Grande do Norte ficaram sem remuneração em maio. A quantidade representa 13,96% da população ocupada no Estado, mas não deixa claro se esses trabalhadores foram amparados pelo governo federal neste mês. Para Emanoel Dantas, a adesão à MP garantiu a renda dos seus funcionários e deu fôlego para a empresa se adaptar à pandemia. “Minha família sobrevive das lojas, e ela também é a única renda de alguns funcionários meus”, contou.

Uma das lojas de Emanuel está parcialmente em funcionamento, mas de forma diferente. Uma bancada foi montada na frente da loja e divide os funcionários dos clientes, que pedem para olhar os produtos - à maneira dos antigos armazéns. O outro meio de vendas é a internet: a loja aderiu à entrega domiciliar e à retirada de produtos comprados antecipadamente. “O primeiro mês foi de muito medo. A palavra é essa: medo. A gente não sabia o que ia acontecer e também tinha a gravidade da doença. Mas conseguimos nos organizar e está dando certo para manter funcionários e aluguel”, destacou.

Entregas
As entregas são realizadas pelo próprio Emanuel em uma moto comprada há pouco tempo, em um investimento que deu certo. O número de seguidores do perfil da loja do empresário passou de 2,5 mil antes da pandemia para 6,5 mil atualmente. As entregas em domicílio foram expandido a rede de clientes pelo esquema “boca-a-boca” e investimento em redes sociais.

No entanto, a adaptação durante uma pandemia se limita a parte dos negócios. Muitas lojas acumulam dívidas - e Emanuel vê isso no próprio bairro da sua empresa, o Alecrim. “Infelizmente nem todos conseguem se adaptar. Tem uma parte que é aquele proprietário mais antigo, que fica receoso a novas coisas, a se abrir à tecnologia. Eu conheço sim lojistas que acabaram fechando as portas e outros que estão numa situação bem complicada, que demitiram os funcionários", comentou.