Pandemia no RN: o transporte de pacientes do RN está “doente” e precisa de remédio

Publicação: 2020-07-03 17:12:00
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Ricardo Valentim
Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde

Lyane Ramalho
Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Pesquisadora do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde


A frota de ambulâncias com suporte avançado de vida já era insuficiente no Rio Grande do Norte (RN) muito antes desta pandemia, ou seja, apresentava “sintomas de uma doença” grave e negligenciada. Os sintomas atuaram paulatinamente na “desidratação” e precarização da assistência à saúde na área da urgência e da emergência.

O novo coronavírus ainda não matou o transporte de pacientes no RN, mas desnudou um problema que sempre esteve presente em nossa sociedade, porém pouco era percebido, sobretudo pelos formadores de opinião. Segundo o Sistema Regula RN, <https://regulacao.lais.ufrn.br/sala-situacao/sala_publica/>, atualmente, um paciente leva, em média, mais de 30 horas para ser regulado no Sistema Único de Saúde (SUS).

O tempo de regulação corresponde ao período compreendido entre uma solicitação por um leito e o momento em que o hospital aceita o pedido de internação. Além desse tempo, é preciso considerar também a duração do transporte do paciente, indicador que no atual contexto pode ter implicações graves no desfecho do cuidado da covid-19. Atualmente, um paciente leva mais de nove horas para ser removido de um estabelecimento de saúde até chegar ao leito do hospital. Um tempo tão alto como esse é alarmante, principalmente quando se trata de salvar vidas.

Hoje, o Regula RN registra mais de 230 óbitos de pacientes que morreram na fila de espera por um leito. Um triste dado desta pandemia. Segundo estudo desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), seria necessário apenas mais dois transporte de pacientes, com suporte avançado de vida, para reduzir de nove para duas horas o tempo de espera. Esse estudo, inclusive, respalda uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF/RN), Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte (MP/RN) e Ministério Público do Trabalho (MPT) encaminhada para a Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (SESAP/RN).

O estudo e a recomendação foram oportunos, pois a pandemia chegou ao RN, se instalou, avançou e segue causando um dano enorme em todas as dimensões da sociedade. Todavia, falta ainda a ampliação da frota de transportes com suporte avançado de vida ao paciente, a qual ainda não foi ampliada, segue “doente”, não de covid-19, mas “estafada”, sobrecarregada e, por isso, impossibilitada de cumprir sua missão social de maneira eficaz e eficiente. No que diz respeito à ampliação de leitos covid-19, algo positivo em virtude da necessidade de melhorar a assistência à saúde, tende a se agravar, pois quanto maior for a disponibilidade de leitos, maior será a necessidade de transporte.

Diante do processo de retomada gradual, progressiva e fracionada das atividades econômicas, as quais foram reivindicadas por todos os setores representativos da economia potiguar, é necessário considerar que isso poderá causar impactos nos indicadores epidemiológicos de todo o estado. Nesse contexto, seria mais que um dever ou obrigação que esses setores financiassem pelo menos mais dois transportes com suporte avançado de vida, os quais deveriam ficar à disposição da SESAP/RN por, no mínimo, seis meses. Essa seria uma atitude solidária, demonstrando compromisso com a vida e responsabilidade social. Uma ação humanitária, da qual o setor produtivo do RN não pode se furtar.

A pandemia mostrou a todos que o transporte de pacientes no RN está “doente” e que há muito tempo precisa de “remédio”. Enquanto não houver uma vacina, será necessário conviver com o vírus. A cooperação e a solidariedade podem ser um remédio eficaz neste novo normal que nos é imposto. Trata-se de uma questão de justiça social e de promoção da equidade, que deve ser patrocinada por aqueles que clamam pela retomada das atividades econômicas - sem essa compreensão ficará clara a falta de respeito à vida.

O estudo do LAIS e a recomendação dos Ministérios Públicos podem ser vistos nos links a seguir.

Estudo do LAIS:

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