Pandemia vai impor mudanças inéditas à campanha eleitoral

Publicação: 2020-07-19 00:00:00
Luiz Henrique Gomes
Repórter

A realização da eleição municipal deste ano em meio a pandemia do novo coronavírus a faz diferente de todas eleições brasileiras desde a redemocratização. Não restam dúvidas sobre isso entre autoridades da Justiça Eleitoral, publicitários e especialistas médicos. O combate ao novo coronavírus exige que se faça o contrário do que é tradicional em uma eleição e nas campanhas eleitorais: comícios, caminhadas, reuniões com muitas pessoas. A Justiça Eleitoral ainda não definiu todas as mudanças para a eleição deste ano, mas as consequências da pandemia já são vistas. Pela primeira vez desde a redemocratização, por exemplo, uma eleição é adiada.
Créditos: Alex RégisPela primeira vez desde a a redemocratização, as eleições municipais foram adiadas e ficaram para os dias 15 e 29 de novembroPela primeira vez desde a a redemocratização, as eleições municipais foram adiadas e ficaram para os dias 15 e 29 de novembro

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Em campanhas eleitorais, quanto mais gente, mais forte a imagem da popularidade de um candidato. Mas especialistas afirmam que este tipo de ato de campanha não será seguro nas eleições deste ano por causa do novo coronavírus, que vitimou mais de 76 mil pessoas no Brasil e 1,5 mil no Rio Grande do Norte até esta sexta-feira, 17. “Em novembro, muito provavelmente ainda não teremos vacina. O vírus ainda vai estar circulando. Não sabemos qual a situação que estaremos, mas sabemos que o vírus vai estar circulando e por isso não é seguro”, declarou a infectologista Marise Reis, participante do comitê técnico-científico da Secretaria de Estado de Saúde Pública do RN (Sesap).

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza consultorias com especialistas e sanitaristas para discutir as mudanças das eleições deste ano, mas ainda não se posicionou acerca das aglomerações durante as campanhas. Outro aspecto que ainda não está definido é a veiculação da propaganda impressa, os famosos “santinhos” que sugerem de maneira mais simples para o eleitor os candidatos. Para Marise Reis, a veiculação deste tipo de material também é arriscado porque o novo coronavírus é um vírus de superfície. “Esse material é uma potencial fonte de contágio, numa eleição ele é distribuído em larga escala”, continuou.

Publicitários e especialistas em marketing político acreditam que certamente as estratégias de campanha serão diferentes. O publicitário João Maria Medeiros, com décadas de campanhas eleitorais, avaliou, por exemplo, que a propaganda eleitoral na televisão e no rádio terão um peso ainda maior para a imagem de um candidato. “O rádio e a televisão continuarão tendo um peso preponderante porque o distanciamento das pessoas vai ter que obrigar os candidatos a utilizarem esses espaços de propaganda eleitoral de forma mais criativa e inteligente, com mais cuidado”, afirmou.

Em 2018, a eleição do então candidato Jair Bolsonaro mostrou uma quebra do paradigma da televisão e do rádio. Bolsonaro se elegeu mesmo com pouco tempo de televisão, mas com forte presença no ambiente digital. Medeiros, no entanto, considerou o caso uma exceção. “As redes sociais terão um peso maior, mas ainda não está claro o quanto vai influenciar. Eu acho que este ano vai haver uma atenção maior as notícias falsas, que pode levar as pessoas a se informarem melhor pela propaganda eleitoral da televisão e do rádio.”

O cientista político e especialista em marketing digital Bruno Oliveira diverge desta visão. “A campanha deste ano tem tudo para ser a mais digital de todas, já que as pessoas não estarão nas ruas. Falar dessa campanha é um ponto fora da curva. Não significa dizer que a televisão não tem importância, mas que as eleições estão cada vez mais digitais é um fato. Em 2020, tende a ser a mais digital de todas por conta da pandemia.”

Por outro lado, os dois concordam que as eleições com menor presença das ruas favorece quem já é conhecido e possui mandato. Isso é atribuído não somente à pandemia, mas também ao fim das coligações para candidaturas proporcionais - no caso das eleições deste ano, os vereadores. “Tudo isso beneficia quem já está no cargo porque tem um histórico, uma presença mais forte e positiva junto aos seus eleitores. Fica mais difícil para quem busca entrar em um primeiro mandato agora”, afirmou João Maria Medeiros.

“Não é fácil e nem é rápido criar uma presença digital forte. Quem já faz isso tem vantagem. Quem não fez já não tem mais tempo de fazer porque leva tempo. Isso facilita sim para quem está no cargo porque é mais fácil ‘ter o que mostrar’ nas redes”, disse Oliveira.

O que mudou e o que pode mudar
O que mudou para as Eleições Municipais de 2020:
Data do calendário eleitoral: as eleições municipais deste ano foram adiadas dos dias 4 e 25 de outubro para 15 e 29 de novembro. É a primeira vez que uma eleição é adiada desde a redemocratização do Brasil. Há quase duas décadas também era tradição as eleições ocorrerem no primeiro e último domingo de outubro. A mudança na data das eleições provoca uma mudança em todo calendário eleitoral, adiando as datas das convenções partidárias, afastamento de candidatos e início da propaganda eleitoral na TV e no rádio.

Veto do leitor biométrico: a leitura biométrica está proibida nas eleições municipais deste ano. O leitor biométrico não pode ser limpado com frequência, o que poderia levar a se tornar um vetor de contágio do novo coronavírus. Outro fator é o tempo maior do processo de votação por causa da biometria porque o leitor pode não identificar na primeira leitura as digitais do eleitor.

Convenções partidárias: O plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou que os partidos realizem convenções por meio virtual para a escolha dos candidatos que disputarão as eleições municipais de 2020. As convenções partidárias deverão ser realizadas entre o dia 20 de julho e 5 de agosto, conforme prevê o calendário eleitoral.

MUDANÇAS DISCUTIDAS PARA AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2020:
Horários especiais: A Justiça Eleitoral estuda incluir horários especiais para separar os grupos de risco do novo coronavírus.
Distribuição de máscara e álcool gel: O Tribunal Superior Eleitoral também fez parcerias com empresas para distribuir máscara e álcool gel para mesários. A distribuição ainda não está definida.

Regras para campanhas eleitorais: As regras para as campanhas eleitorais com os atos presenciais também é discutido pela Justiça Eleitoral. Especialistas afirmam que campanha presencial põe em risco os participantes.

Fonte: TSE