Internacional
Papa pede ‘renovação verdadeira’
Publicado: 00:00:00 - 15/02/2013 Atualizado: 23:55:59 - 14/02/2013
Jamil Chade e Filipe Domingues - Agência Estado

Cidade do Vaticano (AE) - Após ter criticado a “hipocrisia religiosa” e as “divisões no corpo eclesial”, o papa Bento XVI usou ontem seu último encontro com o clero da Diocese de Roma para pedir uma “verdadeira renovação” da Igreja Católica. Em uma espécie de conselho não só aos sacerdotes presentes, mas a todos aqueles que conduzirão a Igreja após a renúncia, até mesmo ao novo papa, Bento XVI procurou retomar o espírito de mudança proposto pelo Concílio Vaticano 2º. O pontífice disse que é preciso valorizar “a comunhão na Igreja” e 50 anos após o Concílio, “ainda há muito o que fazer”.
Bento XVI, em reunião com o clero:  mais uma aparição pública após renúncia ao trono de São Pedro
Um dos principais desafios do próximo conclave será escolher um papa com vigor para renovar a Igreja e superar as divisões que marcam a Santa Sé. Bento XVI, segundo a revista italiana Panorama, teria acelerado sua ideia de renúncia depois de ver os resultados de uma investigação por ele encomendada que apontou “resistência generalizada” na Cúria Romana por mudanças e mais transparência. O documento teria sido entregue a ele no dia 17 de dezembro.

Ontem, Bento XVI usou novamente uma aparição pública para alertar que, sem uma renovação e sem superar resistências, a Igreja estaria sob ameaça. Para muitos presentes, isso foi uma espécie de alerta ao conclave - e também ao próximo papa - sobre a tarefa que terá pela frente diante de um dos principais problemas: a perda de fiéis. Para alguns mais entusiastas, o pedido de renovação do papa também significaria uma abertura para uma eleição de um pontífice do mundo em desenvolvimento, como África, América Latina ou Ásia, ainda que vozes no Vaticano insistam que essa questão não é central.

Com relativo vigor, bom humor e serenidade, o papa dedicou a reflexão improvisada à sua própria experiência pessoal como um jovem perito no Concílio Vaticano 2º, iniciado por João XXIII em 1962 e concluído sob Paulo VI em 1965. Referindo-se àquela ocasião, Bento XVI recordou: “Todos acreditavam que se devia prosseguir com a renovação.” Havia, segundo ele, “uma esperança incrível, um novo Pentecostes”, observou, numa analogia ao relato bíblico em que os apóstolos são enviados pelo Espírito Santo para pregar no mundo inteiro. Alguns teólogos definem Pentecostes como o verdadeiro início da Igreja.

Num esforço para mostrar que o entusiasmo por uma reforma também faz parte da história da Igreja, Bento XVI lembrou a batalha entusiástica que havia sido aquele Concílio, transformando rituais arcaicos, como a missa em latim, para um modelo mais moderno. “Mas muito daquilo ainda não foi implementado”, lamentou. “Precisamos trabalhar para a realização de um Concílio real e para a real renovação da Igreja”, insistiu. “A Igreja é um organismo, é uma realidade vital. Não é uma estrutura. Nós somos a Igreja”.

Fontes próximas ao papa explicaram à reportagem que uma das dificuldades em implementar a reforma do Concílio é que, mesmo democratizados, os textos da Igreja precisam ser transmitidos com uma comunicação eficiente, o que não estaria ainda ocorrendo. No Vaticano, há uma impressão de que existem sérios problemas na capacidade do clero em fazer chegar a mensagem da Igreja em várias partes do mundo, além de resistências na reforma interna das instituições para torná-las mais dinâmicas.

Inicialmente comportada, a plateia de sacerdotes - quase todos vestidos de preto, cor que simboliza “morte para o mundo” - aplaudiu calorosamente o papa quando ele entrou na Sala Paulo VI ao som do hino em latim Tu es Petrus, que homenageia o sucessor do apóstolo Pedro. Bento XVI,  vestido de branco - cor que representa “luz para o mundo” -, logo justificou que suas condições e idade não o permitiram “preparar um grande discurso” “É para mim um dom especial da Providência que antes de deixar o ministério petrino eu possa ainda ver o meu clero, o clero de Roma.”

Jornada vai monitorar inscrições

Rio (AE) - Os organizadores da Jornada Mundial da Juventude no Rio já temem os prazos apertados para alterações na estrutura do evento com a hipótese de um aumento no fluxo de visitantes após a escolha do novo papa, em março. Qualquer mudança na estrutura só deve ser definida após o conclave - apenas quatro meses antes da Jornada. Segundo o secretário executivo do evento, monsenhor Joel Portella Amado, hospedagem, alimentação e transporte representam os desafios da organização.

“Não há dúvida de que o prazo pode ficar limitado”, afirmou o Monsenhor. Segundo ele, o Comitê Organizador Local já prepara uma “estratégia urgente” de acompanhamento diário das inscrições A previsão inicial era de 2 milhões de visitantes - média histórica da Jornada, realizada pela Igreja há 30 anos. Nesta quinta-feira, integrantes do comitê passaram a manhã reunidos com representantes da Prefeitura do Rio para traçar hipóteses diante do novo cenário.

“Conversamos muito com a prefeitura em relação a espaços nas escolas, e vamos conversar também com o governo do Estado. Hoje, a hospedagem já está no vermelho. A rede hoteleira não é suficiente e não podemos mexer. A hospedagem domiciliar é como uma gota - e nós precisamos de um tsunami, que significam alojamentos. Vamos procurar espaços grandes para hospedagem”, afirmou o monsenhor.

Amado afirmou ainda que tem analisado propostas de clubes cariocas para utilizar suas áreas privativas, como quadras com vestiários, para alojamentos de jovens. Além da hospedagem, Monsenhor Joel Portella Amado cita ainda alimentação e transporte como gargalos na organização da jornada, mediante um fluxo maior de visitantes.

“Vão ter que ser replicadas as estruturas para os atos centrais, com a presença do papa. A alimentação é de responsabilidade da organização, que precisará contratar mais refeições. Já para o transporte, precisaremos muito da ajuda da prefeitura e com os meios de transporte da cidade”, afirmou.

As principais atividades da jornada com a presença do Papa serão a Missa de Acolhimento e Via Sacra, realizadas na Praia de Copacabana, e a Vigília e Missa de Encerramento, realizadas em Guaratiba, na zona oeste da cidade, há cerca de 50 km de distância de Copacabana. Todos os detalhes foram apresentados à equipe do Vaticano em uma reunião de dez dias, em janeiro.

Na época, não havia sinais da renúncia, segundo Monsenhor Joel Portella Amado. Com a saída de Bento XVI, o conteúdo litúrgico preparado para o evento será reapresentado ao novo papa e sua equipe. “Toda a jornada foi desenvolvida a partir do lema definido por Bento XVI e isso não mudará. O que o novo papa poderá mudar seriam ajustes ao seu jeito de ser.” De acordo com o Monsenhor, a Jornada representa o momento de reaproximação da Igreja com um novo mundo. “A gente espera que a palavra do novo papa, na Jornada, com uma projeção que ultrapassa os limites da igreja, nos ajude a encontrar um rumo para este novo mundo”.

Influência do papa será objeto de debates

Cidade do Vaticano (AE) - Novos questionamentos a respeito do tamanho da influência que o Papa Bento XVI exercerá sobre seu sucessor começaram a surgir ontem após o Vaticano ter confirmado que o conselheiro mais próximo do Papa deve seguir como seu secretário particular ao mesmo tempo em que continuará a liderar a Casa Pontifícia sob o comando do novo papado. Pelo segundo dia consecutivo, Bento XVI enviou mensagens pontuais a seu sucessor e aos cardeais que o elegerão sobre a direção que a Igreja Católica deve tomar uma vez que ele não for mais papa. Embora esses comentários façam parte de um certo protocolo antes da saída do Papa, sua influência após a aposentadoria continua sendo objetivo de intenso debate.

O Vaticano confirmou ontem que monsenhor Georg Gaenswein, de 56 anos, seguirá como secretário particular de Bento XVI e ao mesmo tempo como prefeito da Casa Pontifícia, organismo que reúne os colaboradores do Papa, organiza sua agenda e alguns aspectos de sua vida pessoal. A nomeação foi uma promoção para o religioso, que goza da total confiança de Bento XVI.

O duplo papel parece ter aumentado as preocupações expressas privadamente por alguns dos cardeais que temem que Bento XVI continue a exercer, no mínimo, alguma influência no novo papado e na governança da Igreja. O porta-voz do Vaticano, Pe Federico Lombardi, argumentou que o trabalho de prefeito é muito técnico e que não tem qualquer foco na doutrina ou na governança real da Igreja. “Nesse sentido, não acredito que seja um profundo problema”, afirmou ele.

Apelidado de “Gorgeous Georg”, algo como deslumbrante Georg, em tradução livre, ele figurou na capa da edição italiana da Vanity Fair no mês passado, sob o título “Não é um pecado ser bonito.”

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