Papa tem uma Semana Santa de orações solitárias

Publicação: 2020-04-09 00:00:00
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Um papa Francisco rezando sozinho em uma praça de São Pedro vazia e sob chuva chocou o mundo, há poucos dias. A pandemia do novo coronavírus o fará rezar sozinho novamente, durante o tríduo que leva a maior das festas católicas: a Páscoa. Pela primeira vez, começando hoje, se verá uma Semana Santa sem o povo na Itália - e em diversos lugares pelo mundo como no Brasil. E nas celebrações não haverá lava-pés, beijo da cruz ou outros rituais belos para o povo. E o papa, visivelmente abatido em suas últimas aparições, admite que vive hoje um momento de "incerteza".

Mas não deixa de cobrar coerência. "Esta crise nos toca a todos: ricos e pobres. É um apelo à atenção contra a hipocrisia. Preocupa-me a hipocrisia de alguns políticos que dizem que querem enfrentar a crise, que falam da fome no mundo, enquanto fabricam armas. É o momento de nos convertermos desta hipocrisia em ação. Este é um tempo de coerência. Ou sejamos coerentes ou perdemos tudo."

Em entrevista ao jornalista e vaticanista inglês, Austen Ivereig que já escreveu uma biografia dele, o pontífice conta como vive a pandemia: "A Cúria - explicou Francisco - busca trabalhar em continuação, viver normalmente, organizando-se em turnos para que nunca tenha muitas pessoas juntas. Muito bem pensado. Mantemos as medidas estabelecidas pelas autoridades sanitárias. Aqui na Casa Santa Marta temos dois horários para o almoço, para atenuar o afluxo dos residentes. Cada um trabalha no seu escritório ou em casa com instrumentos digitais. Todos trabalham ninguém fica no ócio."

Em um segundo momento, admite o momento complexo em que vive uma Igreja sempre acostumada a lidar com a relação entre pastores e rebanhos e ainda não totalmente afeita à revolução digital. "Como eu vivo espiritualmente? Rezo mais ainda, porque acredito que devo fazer assim, e penso nas pessoas. Preocupa-me isso: as pessoas. Pensar nas pessoas me ajuda, me faz bem, me subtrai ao egoísmo."

"A minha maior preocupação - ao menos a que sinto na oração - é como acompanhar o povo de Deus e estar mais próximo dele", prossegue o líder da Igreja Católica. "Este é o significado da Missa das sete da manhã ao vivo em streaming, seguida por muitas pessoas que se sentem acompanhadas, assim como de algumas minhas intervenções e do rito de 27 de março na Praça São Pedro. Também de um trabalho bastante intenso de presença, por meio da Esmolaria Apostólica, para acompanhar as situações de fome e de doenças. Estou vivendo este momento com muita incerteza. É um momento de muita inventividade, de criatividade."

Ele também se mostra presente e já pensa no futuro. "O povo de Deus precisa do pastor ao seu lado, que não se proteja demais. Hoje o povo de Deus precisa do pastor muito próximo de si, com a abnegação daqueles capuchinhos, que faziam assim. A criatividade do cristão deve se manifestar em abrir novos horizontes, abrir novas janelas, abrir transcendência para com Deus e os homens, e deve se redimensionar em casa. Não é fácil ficar fechado em casa. Recordo-me de um verso da 'Eneida' que, no contexto de uma derrota, dá o conselho de não desistir. Preparem-se para tempos melhores, porque naquele momento isso nos ajudará a recordar as coisas que aconteceram agora. Cuidem-se bem para um futuro que virá. E quando este futuro chegar, fará muito bem recordar o que aconteceu agora."




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