Economia
Para conter inflação 'persistente', BC acelera alta da Selic
Publicado: 00:00:00 - 05/08/2021 Atualizado: 23:15:00 - 04/08/2021
Brasília 04 (AE) - Após insistir durante meses no discurso de que a escalada da inflação era temporária, o Banco Central admitiu nesta quarta-feira (4) que a alta dos preços "continua se revelando persistente". Para tentar segurar a inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu acelerar o ritmo de alta da Selic (a taxa básica de juros) e anunciou um aumento de 1 ponto porcentual, de 4,25% para 5,25% ao ano.

Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Alta de ontem nos juros foi a quarta consecutiva. Em decisões anteriores, BC subiu taxa em 0,75 p.p.

Alta de ontem nos juros foi a quarta consecutiva. Em decisões anteriores, BC subiu taxa em 0,75 p.p.


Esta foi a quarta alta consecutiva dos juros, sendo que nas três decisões anteriores o BC havia subido a taxa em 0,75 ponto porcentual. Há 18 anos, desde fevereiro de 2003, os juros não subiam de uma só vez 1 ponto. Mais do que acelerar o processo, o BC já sinalizou que em setembro aplicará aumento na mesma magnitude, para 6,25% ao ano.

Na economia, manter os juros em patamares mais altos é uma estratégia para controlar o avanço da inflação. No entanto, taxas elevadas significam que o custo para a tomada de crédito também tende a crescer - justamente em um momento em que a atividade econômica tenta se recuperar da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.

Desde o segundo semestre do ano passado, a alta dos valores das commodities no mercado internacional - como soja e milho - tem elevado o custo dos alimentos no mercado interno. Para piorar, os preços dos combustíveis também vêm contribuindo para o avanço do IPCA - o índice oficial de inflação, que nos 12 meses até junho subiu 8,35%. Mais recentemente, a estiagem em diversas regiões do País elevou os custos da energia elétrica, enquanto a geada provocada pelo frio aumentou a pressão sobre os alimentos.

Este conjunto de fatores fez o BC mudar sua avaliação. Em maio, a instituição ainda defendia a ideia que os choques de preços de alimentos e energia elétrica eram "temporários". No comunicado de ontem, no entanto, a instituição traçou um cenário mais pessimista. "A inflação ao consumidor continua se revelando persistente. Os últimos indicadores divulgados mostram composição mais desfavorável", reconheceu o BC - que destacou ainda a maior pressão na área de serviços, com o fim das medidas de restrição social.

Outro fator que vem sendo citado pelos economistas do mercado financeiro também foi mencionado pelo BC: a sustentabilidade das contas públicas. No comunicado de ontem, o Copom voltou a dizer que o "risco fiscal elevado" é um fator para o aumento de preços no Brasil. Desde a semana passada, a visão no mercado financeiro é de que o risco fiscal aumentou após o Ministério da Economia ter dito que não há espaço, no Orçamento, para o pagamento de R$ 90 bilhões em precatórios em 2022. A ideia do governo é propor parcelamento de uma parte desses débitos em até dez anos.

"As fortes pressões inflacionárias recentes, especialmente aquelas provenientes da crise hídrica, recomendavam uma atuação mais firme da autoridade monetária", disse o economista-chefe da corretora Órama, Alexandre Espirito Santo, que também citou os "ruídos fiscais".

No comunicado, o BC também atualizou seus cálculos para a inflação. A projeção para o IPCA de 2021 passou de 5,8% para 6,5%. O porcentual está bem acima dos 3,75% perseguidos pela própria instituição. No caso de 2022, a expectativa seguiu em 3,5% - exatamente na meta buscada. 

Críticas
 decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa de juros Selic para 5,25% ao ano foi "equivocada" na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para a entidade, as condições de crédito para consumidores e empresas deveriam continuar sendo estimuladas e a medida, ao contrário, desestimula a economia e aumenta o custo do financiamento.

"O controle da inflação de oferta via juros é menos eficaz e requer um forte desestímulo à atividade econômica em um momento em que a recuperação da economia ainda se mostra frágil. A taxa de desemprego ainda está próxima do pico histórico e a produção da indústria de transformação perdeu força ao longo deste ano apresentando queda em cinco meses no primeiro semestre", avalia o presidente da CNI, Robson Andrade, em nota.

A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) também considerou a decisão do Copom um "equívoco". "Pode-se dizer que é um equívoco do Banco Central não apenas elevar a taxa básica de juros, mas acelerar o ritmo de alta, colocando em risco a frágil recuperação da economia brasileira", diz a federação em nota. (Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues)









Leia também