Para evitar falta de arroz no mercado, lojistas da Ceasa limitam vendas

Publicação: 2020-09-12 00:00:00
Mariana Ceci
Repórter

Quando Milena Fernandes, de 41 anos, decidiu começar um negócio de venda de quentinhas para complementar a renda familiar, que foi prejudicada pela a pandemia, não esperava que, semanas depois, o quilo do arroz e do feijão, que ela costumava comprar por até R$ 3, fosse dobrar de preço nas prateleiras do supermercado. “Tivemos que começar a adaptar e substituir. O preço subiu do dia para a noite”, desabafa. 

Créditos: Magnus NascimentoDentro da Ceasa, alguns lojistas limitaram a venda de arroz para evitar desabastecimentoDentro da Ceasa, alguns lojistas limitaram a venda de arroz para evitar desabastecimento

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A equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE encontrou Milena enquanto ela fazia compras, na manhã da última sexta-feira (11), em um supermercado que vende produtos para atacado e varejo, dentro da Central de Distribuição do Rio Grande do Norte (Ceasa). Lá, os preços são conhecidos por serem mais “em conta”, diz Milena e, muitas pessoas autônomas, como ela, se deslocam até o local em busca de produtos mais baratos. Em seu carrinho de compras, sacos e mais sacos de arroz. “Estamos levando o que dá, porque a verdade é que temos medo de aumentar ainda mais na próxima semana”, explica. 

Ao seu redor, outros pareciam ter tido a mesma ideia: uma fila comprida ia em direção aos caixas, a maioria com carrinhos cheios de itens básicos: arroz, feijão, flocão de milho para cuscuz e óleo de soja. Todos itens que tiveram aumento de preço registrado no último mês no País. Para tentar conter estocamento, uma placa foi colocada na prateleira: “Até 03 fardos por cliente”. 

A elevação do preço dos itens de alimentação básica presentes no dia-a-dia ocorreu em todo País. Em Natal, o aumento não foi tão drástico quanto o observado em outros Estados, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde alguns supermercados chegaram a vender 5 kg de arroz a R$ 30, um aumento de 50%.

A  Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudios Socioeconômicos (DIEESE) indica que, desde agosto, os preços do conjunto de alimentos básicos consumidos pelos brasileiros durante um mês aumentou em 13 capitais, dentre as quais Natal não está inclusa. Isso não significa, no entanto, que diversos itens deixaram de ter aumento na cesta básica do natalense: o óleo aumentou 15,47%. O leite, 8,37%. O arroz, 8,36%. Açúcar, manteiga, farinha e pão também registraram aumento.

O valor total necessário para adquirir todos os itens da cesta, R$ 419,47, representa 69,9% do total do auxílio emergencial concedido pelo Governo Federal até então durante a pandemia. O valor, que foi reduzido para R$ 300 pelo Governo Federal, será incapaz de cobrir o valor total das compras do mês.

Se, para Milena, o aumento dos preços pareceu ter acontecido "do dia para a noite", para os representantes de supermercados, a situação era uma tragédia anunciada. "Já vínhamos avisando sobre isso aos orgãos governamentais e, agora, o negócio se tornou mais visível para a população.", conta Nelson Leiros, da Associação de Supermercados do RN (Assurn). De acordo com ele, o aumento pode ser ainda maior nos próximos meses, caso o Governo Federal não tome medidas para controlar a exportação de produtos ou garantir a possibilidade de importação.

Leiros conta que se viu diante de uma reação em cadeia: com a alta do dólar, que há meses superou a marca dos R$ 5, muitos produtores preferiram exportar o produto e elevar os lucros a vender para o mercado interno, que gerou um desequilíbrio. "Paralelo a isso, o Governo tornou proibitiva a importação por causa das sobretaxas colocadas. Tudo isso favoreceu a exportação", conta. 

Créditos: Magnus NascimentoMilena Fernandes reclama que preço dobrou do dia para a noiteMilena Fernandes reclama que preço dobrou do dia para a noite

Um dos motivos que fizeram com que o preço das mercadorias não tivesse um aumento tão drástico no Rio Grande do Norte como aconteceu em outros Estados, segundo o diretor, se deve ao fato da maior parte das compras serem feitas de produtores locais. “Muitos estoques das últimas compras já estão acabando e, se não houver uma mudança muito drástica até lá na política de preços, a tendência é que os valores aqui continuem a crescer”, destaca. 

Diante da situação, a Câmara de Comércio Exterior aprovou, na última quinta-feira (10), zerar a alíquota de impostos de importação para o arroz até o dia 31 de dezembro. "Depois do estrago feito, a providência veio. Não é uma crítica à medida, mas ao tempo que demorou para que algo fosse feito. Houve muita falta de controle, principalmente da Conab [Companhia Nacional de Abastecimento]", completa Leiros.

Durante a pandemia, o setor de supermercados foi um dos únicos a não sofrer com a crise econômica. Pelo contrário: houve um crescimento na demanda, impulsionado pelo auxílio de R$ 600 pago pelo Governo Federal. “Foi um movimento impressionante porque, na verdade, o que isso provou é que muitas pessoas de baixa renda não chegavam sequer aos supermercados”, diz Leiros. 

De acordo com ele, o aumento na procura também é um fator que teve influência nos preços. Esse aumento, no entanto, não poderia acontecer de forma insustentável, que tornasse proibitiva a compra de alimentos básicos para muitas famílias. 

"Arroz e produtos de soja continuam a ser muito consumidos, porque são mais baratos. Mas a partir do momento que temos uma indústria totalmente voltada para a exportação, sem controle, sem atenção para o mercado interno, temos problemas", analisa.







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