Para não esquecer Raimundo Soares

Publicação: 2019-11-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Tomislav R. Femenick
Jornalista e historiador

O Rio Grande do Norte é pródigo em esquecer os grandes nomes de sua história. Em Mossoró, menos. No entanto, até lá há uma seletividade no que deve ser cultuado. Há quase 20 anos, coloquei à disposição das autoridades locais os originais de 5 (cinco) livros, nos quais descrevo a história da cidade entre 1963 e 1972 (período que cobre todo o mandato de Raimundo Soares de Souza como prefeito, de 1963 a 1968). Na ocasião ouvi de um prócer local: “Vamos estudar”. Até hoje não recebi resposta.

Mossoró teve dois grandes prefeitos. Padre Mota em cujo mandato, segundo Câmara Cascudo, em cujo mandato “tudo se agita e se modifica”, em um “ambiente de vibração, de tarefa contínua, de labor sem pausa”. Em seu governo de quase dez anos, transformou a quase vila em uma cidade pujante; industrial, centro comercial e irradiadora do progresso. O desafio de Raimundo Soares foi atualizar e dinamizar essa lógica, para o que era necessário uma nova infraestrutura.

A primeira luta foi a busca pela água, um problema secular na cidade, que se agravava com o seu crescimento. O problema foi resolvido com o descobrimento de um lençol aquífero, com profundidade em torno de 700/800 metros. Alguns “poços resolveriam o abastecimento de uma população de 400 mil pessoas”. Naquele momento, a população era de 80 mil habitantes. A segunda foi a busca pela energia elétrica. Na ocasião, o então prefeito disse: “A luta pela energia foi um dos esforços mais dramáticos da minha administração” (Diário de Natal, 19.03.1967). Para tanto contou com a ajuda da SUDENE, dos Senadores Dix-huit Rosado e Dinarte Mariz e do Deputado Vingt Rosado, que empenharam verbas no orçamento da União para a construção do linhão e da modernização da rede local de distribuição.

Outra frente que a administração Raimundo Soares abriu foi pela modernização e ampliação do ensino. A rede municipal de ensino básico foi ampliada, as escolas antigas foram remodeladas, os professores receberam cursos de aperfeiçoamento e atualização, foi construído o prédio e inaugurado o primeiro Ginásio Municipal, que atendia a quase 500 alunos. Mas o grande passo foi a criação das primeiras faculdades (Economia, Filosofia e Serviço Social) e, depois, duas instituições que deram origem às duas universidades públicas que ainda hoje têm sede em Mossoró: a Universidade Regional do Rio Grande do Norte (hoje Universidade do Estado do Rio Grande do Norte) e a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (a atual Universidade Federal Rural do Semi-Árido). Nos trabalhos que resultaram na estruturação do segmento de ensino superior, houve participação significativa de João Batista Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado e Dix-huit Rosado; foi uma tocata a oito mãos.

No final do seu governo, Raimundo Soares enfrentou um sério desequilíbrio financeiro, reflexo da crise que atingia alguns dos mais expressivos setores da economia mossoroense – sal, algodão e cera de carnaúba – e das alterações da política econômica e fiscal da União. Falando sobre o assunto, afirmou: “Determinei rígido regime de economia, não preenchi cargos vagos e extingui outros. Acresce que a Prefeitura tem pesados ônus. Inclusive de 70 poços tubulares perfurados pelo meu governo. Além de despesas com ensino, cultura, saúde, eletrificação [...]. Deixei o governo em ótima situação econômico-financeira e com o funcionalismo pago em dia [...]. Mas ainda: deixei condições para que o meu sucessor realize uma grande administração. Imprimi à administração de Mossoró um tal ritmo (inclusive através de uma reforma administrativa) que dificilmente, alguém poderá mudá-lo”.

Apesar de todo o seu trabalho por Mossoró, o prefeito Raimundo Soares de Souza somente é homenageado dando nome a uma escola, uma rua (que nem é encontrada no Google Maps), um prédio de uma central de abastecimento e um ala da Universidade Estadual. Era nome da Estação Rodoviária. Quando inauguraram um prédio novo tiraram o seu nome.




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