Para preservar tudo que a Lava Jato fez é tempo de pôr fim ao lavajatismo

Publicação: 2020-07-29 00:00:00
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Cassiano Arruda Câmara

Existe uma coisa que não se discute: - A Lava Jato foi a maior ação coordenada de combate à corrupção de que já se teve notícia nesse País. Seus resultados estão ai para comprovar que os preceitos da Constituição apresentados como valendo para todos, eram pra valer. 

Começando por demonstrar que prisão não existia só para gente pobre. A Operação Lava Jato comprovou que não existe ninguém acima da lei, por maior que seja o seu poder político ou econômico. É esta verdade que garante o seu lugar de destaque na história.

Não confundir Laja Jato com Lavajatismo, uma corruptela espúria usada por elementos que integraram algumas de suas equipes, e resolveram em nome de suas bandeiras, tornar posse de uma ação que deveria ser episódica, transformando-a em instituição permanente e patrimônio deles próprios.

Não esquecer que a Lava Jato tinha fatos como fundamento. E foi na busca desses fatos que estavam acontecendo, tendo a Petrobrás como epicentro, que foi possível formatar uma estrutura ágil para oferecer as respostas que a sociedade reclamava de há muito (sem levar em conta a ação promíscua do julgador com alguns investigadores).

PARECE MAS NÃO É
Lavajatismo é uma moléstia que tenta aproveitar o enorme sucesso  de operação original, procurando criar novas oportunidades para a proliferação de ações plagiadas de maneira descontrolada sob forma de múltiplas incursões supostamente inspiradas pelo mais legítimo espírito público e pelo próprio dever de Justiça, como parecem crer alguns membros do Ministério Público e do Judiciário que não querem soltar o osso da divina missão de liquidar de uma vez por todas a corrupção e purificar o Brasil como se isso fosse realizável no espaço de uma geração.

Para os militantes do lavajatismo os fatos não passam de detalhes que servem de suporte para o mesmo discurso de uma casta que se acha possuir  o monopólio da defesa da pureza de costumes. Comportamento que também serve para inibir qualquer discordância capaz de macular a imagem de quem tiver a audácia de divergir de causa tão nobre. Uma causa respaldada pelo enorme capital da Lava Jato e todo o seu elenco, misturando num mesmo patamar protagonistas e coadjuvantes; “somos todos lava jato”. 

A GRANDE ESTREIA
A estreia do lavajatismo aconteceu em grande estilo, envolvendo um ex-Presidente da República com direito a apresentação do novo uniforme de campanha da  Polícia Federal para barrar o carro particular de Michel Temer no trajeto de casa para o seu escritório, por algumas das mais movimentadas ruas de São Paulo, dia 21 de março, antes de completar três meses que havia deixado a Presidência, tudo documentado por várias equipes de reportagem de televisão.

Sem oferecer qualquer resistência, o carro do ex-presidente parou e ele saiu do seu para o carro da polícia sem nenhum problema. Ai, só então, lhe foi apresentado um mandado de prisão, prontamente aceito.

Toda essa movimentação ocorreu sem nenhum fato recente. Tudo isso aconteceu sob a desculpa de apurar a suspeita de que uma filha do ex-presidente, seis anos antes, havia sido favorecida com recursos de origem duvidosa, no custeio da obra de reforma de uma casa de sua propriedade. Tratando-se de um imóvel seria pouco provável que ele mudasse de lugar para impedir a investigação e exigisse ação policial tão espalhafatosa.

A prisão de Temer foi logo relaxada em instância superior e a presença da imprensa não garantiu o apoio da mídia à iniciativa. Pelo contrário. - Nem a suspeita foi confirmada...

O TEMPO NÃO PARA
Mais recentemente, em São Paulo, o Lavajatismo chegou com força. Mesmo sem contar com a conivência da grande imprensa, os métodos adotados provocaram questionamentos: - Como não considerar um atentado contra o Estado Democrático de Direito a prisão preventiva de investigados por crimes supostamente cometidos há mais de seis anos, como ocorreu num desdobramento do Lava Jato que tem como principal alvo o senador José Serra?

E o espalhafato como o ex-governador Geraldo Alkmin foi colocado para um julgamento sumário pelas redes sociais, merecendo tratamento idêntico ao de alguns dos grandes ladrões apontados e condenados pelo Lava Jato? Porém, desta vez, os meios de comunicação, em vez de ecoar as suspeitas e acusações, mostraram o ex-governador de São Paulo como exemplo de moderação e de um homem honrado, de vida modesta e hábitos simples.

Claro que Operações como a Lava Jato não só podem, como devem  continuar existindo. O que tem de acabar é o lavajatismo, que é um tipo de vale tudo, em nome da elevação moral da sociedade brasileira trilhando os caminhos de ilegalidade.

CADA UM NO SEU QUADRADO
Esta abordagem do assunto não pode ser confundida com censura para impedir o uso da palavra ou expressão por nenhum lavajatista. Pelo contrário. O lavajatismo se apropria de um justo anseio do cidadão para dele se aproveitar em benefício da sua turma, sem ser possível identificar por que e para que.

Apontar os desvios de conduta já incorporados ao repertório de cada um é só um alerta. Para sugerir que só é justificável que continuem atuando, se deixarem os seus cargos oficiais e filiarem-se a partidos políticos e ingressarem na política partidária. Até para darem o exemplo e mostrarem que nenhum país civilizado pode prescindir da política e dos políticos. Pensar ao contrario é abrir o caminho para uma legião de aventureiros de diferentes matizes se apossarem do país.

E que a Operação Lava Jato, a verdadeira, tenha um merecido e honroso  fim, fechando o seu ciclo virtuoso, sem que os mal feitos apontados sejam ignorados, mas justifiquem um prolongamento infinito, como querem os lavajatistas, que não podem ser aceitos como os donos da verdade, do combate à corrupção, e guardiães da moral e dos bons costumes da sociedade brasileira..