Paraná quer distribuir vacina russa

Publicação: 2020-08-12 00:00:00
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O governo do Paraná deve oficializar nesta quarta-feira, 12, um acordo com o Ministério de Saúde da Rússia para a produção de uma vacina contra o coronavírus. O acordo prevê que o Estado realize testes, produza e distribua a vacina após a validação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que vai analisar os resultados das pesquisas russas. Ontem, o presidente Vladimir Putin afirmou que a Rússia se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a regulamentação da vacina.

Créditos: Divulgação/Governo do ParanáGovernador do Paraná, Ratinho Júnior terá reunião para oficializar a parceria com a RússiaGovernador do Paraná, Ratinho Júnior terá reunião para oficializar a parceria com a Rússia


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O embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Akopov, tem encontro agendado com o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), nesta quarta-feira, às 14h. A expectativa é de que o encontro formalize a parceria para a produção da vacina. Embora tenha sido registrado, o imunizante ainda será submetido a ensaios clínicos para testar sua segurança e eficácia. O chefe do fundo soberano da Rússia, Kirill Dmitriev, afirmou que a vacina deveria ser produzida no Brasil após aprovação regulatória.

Após a assinatura do acordo, o próximo passo é o compartilhamento do protocolo russo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil para a liberação das próximas etapas. O Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) deve ser um dos polos de produção e distribuição da imunização para a América Latina e representante técnico na parceria. O instituto seria a "ponte" com o Instituto Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia, localizado em Moscou, onde estão sendo produzidsa as vacinas russas. 

"Possivelmente nesta semana será assinado um termo de cooperação entre o governo do Paraná e a Rússia para iniciar as tratativas técnicas. Nós não vamos avançar se não tivermos a anuência dos órgãos reguladores como a Anvisa e a Comissão Nacional de Ética e Pesquisa. Ainda é uma fase inicial", afirma o biólogo Jorge Augusto Callado Afonso, diretor-presidente do Tecpar.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou ontem que não recebeu ainda pedidos de autorização para pesquisa ou de registro da vacina russa. A agência também afirmou que não pode prever o tempo necessário para dar o aval ao uso da droga. "A Anvisa tem a função de avaliar os pedidos de registro e autorizações de estudos apresentados pelos laboratórios farmacêuticos que têm interesse em colocar seus medicamentos e vacinas no Brasil. A avaliação da Anvisa tem foco na segurança e eficácia que são os requisitos fundamentais para qualquer medicamento ou vacina.” 

O governo federal tem recebido representantes de outros países interessados em trazer ao Brasil medicação para imunizar a população contra a covid-19. O primeiro acordo foi para a fabricação na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, e a farmacêutica AstraZeneca. Na última terça-feira, 4, o Ministério da Saúde realizou reunião com a empresa chinesa Sinopharm. No mesmo dia, as tratativas foram sobre sobre vacina da Rússia com representantes do Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF). 

Dúvidas
Os estudos sobre a vacina russa geram dúvida na comunidade científica mundial. O Ministério da Saúde da Rússia informa que as pesquisas estão na fase 3, a última e mais importante das etapas de produção de uma vacina, mas não divulgou estudos em nenhuma revista científica sobre os resultados, duração e os detalhes das fases anteriores. Além disso, a vacina foi aprovada após menos de dois meses do início dos testes em humanos.

Ontem, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que seu país foi o primeiro a desenvolver e registrar uma vacina contra covid-19, segundo a agência de notícias russa RIA Novosti. Putin também alega que uma de suas filhas recebeu a vacina. "Pelo que sei, uma vacina contra a infecção do novo coronavírus foi registrada nesta manhã, pela primeira vez no mundo", disse Putin, durante reunião com membros de seu governo, informou a RIA Novosti.

Embora o governo russo tenha programado uma vacinação em massa contra a covid-19 para outubro, Callado mostra cautela em relação às eventuais campanhas de imunização no País. "A comunidade científica no Brasil cita o período do segundo semestre de 2021 como um prazo responsável. Antes disso, você está arriscando muito. Depois de pronta, a vacina passa por muitos testes, que levam algum tempo antes da disponibilização para a população. A Rússia pode programar a vacinação para outubro lá, mas aqui é outra situação". 

Embora ainda dependa da assinatura formal, a parceria paranaense é bastante significativa do ponto de vista científico, na opinião do presidente do Tecpar. "Essa parceria não envolve apenas o repasse de um produto acabado. Ela envolve transferência de tecnologia. Isso auxilia o País a ter maior autonomia e a entrar no circuito internacional dos imunizantes", afirma o cientista.