Parceria intercontinental para a arte popular

Publicação: 2017-07-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Maior instituição museográfica do Rio Grande do Norte, o Museu Câmara Cascudo firmou parceria com uma das mais históricas galerias de arte de Londres, a secular Whitechapel. A aproximação entre as duas instituições vai propiciar a troca de conhecimentos em curadoria de exposições em torno da Arte Popular. Segundo o diretor do Museu CC, o professor de arte Everardo Ramos, a parceria pode também abrir as portas para a arte popular brasileira no Reino Unido.

A parceria entre as instituições foi possível graças ao programa de intercâmbio da British Council, uma organização do Reino Unido que tem a missão de difundir a cultura inglesa no exterior. O Museu CC é a única instituição do Norte, Nordeste e Centro-Oeste a ser aprovada no programa e se junta ao Masp, Museu do Amanhã, Inhotim, Instituto Moreira Salles e outras instituições culturais do Brasil contempladas.

Escultura de Santos, artista potiguar que já foi tema de exposição no Museu Câmara Cascudo
Escultura de Santos, artista potiguar que já foi tema de exposição no Museu Câmara Cascudo

Pelo programa, está previsto a residência da curadora Nayia Yiakoumaki, da Galeria Whitechapel no Museu CC e a do diretor e curador Everardo Ramos na galeria londrina, onde o objetivo é desenvolver novas formas de curadoria da Arte Popular. O intercâmbio tem duração mínima de duas semanas e deve ser realizado entre agosto de 2017 e março de 2018.

De acordo com Everardo, a escolha de trabalhar em cima da Arte Popular foi definida depois de conversas entre as duas instituições. “Temos uma coleção importante de Arte Popular, antiga, diversificada. São esculturas, ex-votos, utilitários como rendas antigas dentre outras peças”, conta o professor. A maioria dos itens foram adquiridos em pesquisas entre os anos 1960 e 70.

“Vamos mostrar nosso acervo para a curadora e promover uma palestra para os integrantes do museu e interessados. Pode ser que a estadia dela aqui renda uma exposição, mas não é obrigatório. Além dos diálogos, também pensamos em fazer excursões pelo interior do Estado. Levá-la para conhecer os artistas pode estimulá-la a Arte Popular potiguar lá fora”, explica o professor.

Se o Museu CC conta com um acervo de Arte Popular desde a década 1960, por outro lado, a Galeria Whitechapel é essencialmente voltada para a Arte Moderna e Contemporânea. Fundada em 1901, a instituição tem uma história de pioneirismo em sua trajetória: foi a primeira do Reino Unido a expor a obra Guernica, de Pablo Picasso, promoveu a primeira grande apresentação do expressionista abstrato Jackson Pollock, dentre outras ações. Apenas em 2013 fez sua primeira exposição de Arte Popular.

“Na Inglaterra eles têm uma concepção de arte popular mais urbana. Se encaixam no conceito deles os artistas sem formação, que estão à margem do sistema oficial de arte”, comenta Everardo. Professor de História da Arte da UFRN, além de curador e diretor do Museu CC, ele tem toda sua formação acadêmica na França, que inclui mestrado e doutorado sobre arte popular, francesa e brasileira, respectivamente. “A Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial. Então, de certo modo, eles acabaram perdendo muito do que era feito à mão. Tanto lá como em toda a Europa há um interesse grande pelo que é manual”.

Para além dos esteriótipos
O professor diz que em torno da Arte Popular brasileira existe um recorrente tratamento estereotipado por parte das instituições culturais. Nesse sentido ele vê o intercâmbio como um importante encontro para procurar formas de abordar a Arte Popular para além do prestígio folclórico e etnográfico.

“Nosso interesse é tratar a Arte Popular com novo olhar. Sair daquele conceito de peças típicas, de marcas históricas da identidade de um povo, como se as obras fossem apenas aspectos reveladores das características autênticas da população de uma área”, argumenta. “A ideia que temos de Arte Popular é mais diversificada. Ela não precisa ser rústica para ser popular, pode ter refinamento. Podemos tratá-la do ponto de vista dos processos criativos também, o que é raro no Brasil”.

Everardo dá o exemplo do artista potiguar Xico Santeiro (1898-1966)  – com exposição no Museu CC desde 2015. “Ao chegar em Natal, vindo do interior, ele ganhou o reconhecimento dos intelectuais da cidades, mas também foi aconselhado por eles a não pintar as peças para realçar a rusticidade delas. Ou seja, enquadrá-las em esteriótipos”, explica. “O intercâmbio com a galeria britânica vai nos oferecer novos olhares para a Arte Popular, reforçando sua importância no RN e no Nordeste”.

Atualização do acervo
Como diretor do Museu CC, Everardo tem se esforçado em atualizar, dinamizar e dar divulgação ao acervo de Arte Popular da instituição. “Nossas obras são resultado de pesquisas da década de 60 e 70. Precisamos continuar essas pesquisas e reforça o acervo com novas peças, itens atuais. Temos umas produção grande no Estado. E como maior museu do RN, é nossa obrigação conservar o patrimônio artístico potiguar”, afirma. “Existe coleções particulares fantásticas que a UFRN pode adquirir”.

Everardo alerta para o perigo de não apenas se perder obras antigas para o tempo, por falta de conservação, mas também para instituições e colecionadores do exterior, que vem ao Brasil com dólares em busca de adquirir acervos grandes. Ele cita o exemplo de Pernambuco, que perdeu uma coleção volumosa de folhetos de cordel.

“Depois que o colecionador morreu, uma universidade do Texas apareceu e comprou a coleção inteira da família. O seja, aquele acervo, que diz muito sobre a nossa cultura, não apenas saiu do Nordeste, mas do Brasil”, comenta. Desse acervo pernambucano, ainda resta uma coleção de matrizes de xilogravura feitas de madeira. “Estamos nos esforçando para adquirir essa coleção e trazer para a UFRN. Dentre as peças há matrizes antigas, algumas de obras clássicas da literatura de cordel”.

Programação do Museu
Desde que foi reinaugurado, em maio de 2016, após cinco anos de reforma – período em que funcionava com mostras temporárias –, o Museu Câmara Cascudo vem buscando se integrar mais ao roteiro cultural de Natal. Atualmente, das oito salas de exposição (incluindo a caverna), cinco estão ocupadas. Segundo o Everardo, o planejamento é abrir mais duas salas até o final do ano.

O diretor também defende que a programação do museu seja mais dinâmica, com as exposições durando no máximo dois anos e não décadas, como vinha acontecendo em anos passados. Outra mudança diz respeito a montagem das exposição. “Instalamos comissões expográficas para as montagens. Elas reúnem gente do design, da iluminação, da concepção do espaço, da narrativa. Estamos excluindo banners nas exposições. Quem vem a um museu precisa ter uma experiência única”, comenta. A instituição dispões de três

Dentro do tema Arte Popular, o Museu CC oferece a mostra “Xico Santeiro – Uma Escola de Arte Popular”, de 2015, com curadoria de Everardo. A exposição apresenta cerca de 170 peças, dentre obras do acervo do museu e de coleções particulares. Além das peças, há informativos e um documentário feito para a mostra, que deve dar lugar a uma nova exposição no final do ano.

Serviço
Museu Câmara Cascudo
Av. Hermes da Fonseca, 1398, Tirol
Terça a sexta: 8h30 às 18h Sáb. e domingo: 12h30 às 18h
Entrada Gratuita

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