Patrimônio em risco

Publicação: 2013-05-07 00:00:00
Yuno Silva - repórter

Alheios ao imbróglio criado em torno da possível extinção da Guarda Patrimonial do Estado, os museus públicos sob a tutela da Fundação José Augusto sentem ‘na pele’ a falta de segurança. Destinados a conservar parte significativa da memória cultural do Rio Grande do Norte, museus localizados no centro de Natal estão sendo alvo de furto e tentativas de arrombamento. O caso mais recente aconteceu há cerca de duas semanas no Museu Café Filho, que funciona no sobradinho construído entre 1816 e 1820 onde o ex-presidente morou na rua da Conceição. De acordo com Luana Cibelle de Oliveira Costa, coordenadora do setor de museus da FJA, nesta ocasião pularam o muro  e levaram um gaveteiro – que seria restaurado – e uma uma extensão elétrica.
Diferente do prédio vizinho, o Iphan, o Museu Café Filho não possui cercas ou segurança eletrônica. Atualmente está sem funcionários

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A ocorrência aconteceu durante a tarde de um domingo e a vigilância já estava sob a responsabilidade da empresa que presta serviço na restauração do imóvel. “Pelo que fui informada, quando pularam a pessoa que toma conta não se encontrava. Felizmente o acervo do Museu Café Filho não foi desfalcado, até por que ele foi retirado do local para a realização dos serviços”, garantiu. Luana explicou que a Guarda Patrimonial deixou de cumprir expediente no museu após o início da obra.

Nomeada como coordenadora do setor de museus no final de janeiro, Luana Cibelle ressaltou que a ocorrência foi lavrada em boletim de ocorrência na polícia. Ela lembrou que foi a primeira vez que fato semelhante acontece durante sua gestão. “O Memorial Câmara Cascudo também sofre com as tentativas de roubo, e mesmo com a presença da Guarda Patrimonial registramos tentativas recentes de arrombamento”.

Luana adiantou que há um projeto para restauração do Memorial, onde também está incluído o reforço no quesito segurança. “O trâmite para liberação dos recursos está em curso, e como o prédio é cedido ao Estado pelo Patrimônio da União tudo o que tiver de ser feito temos que submeter à Secretaria regional do órgão”. Sobre a Guarda Patrimonial, a coordenadora disse já ter sido informada que em breve não poderá mais contar com a presença do policiamento.

Com reforma emperrada desde 2009, Museu Café Filho tem sido alvo de furtos e arrombamentosEla também aproveita a oportunidade para desmistificar o comentário sobre a possível demissão dos servidores que trabalhavam no Museu Café Filho: “Ninguém foi demitido, foram todos remanejados para outros setores”.

Vale registrar que os acervos dos espaços museológicos sob responsabilidade do Governo do Estado, entre eles Pinacoteca do Estado, Fortaleza dos Reis Magos, Museu Café Filho, Memorial Câmara Cascudo e Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza (Cedoc), estão com inventário desatualizado há pelo menos uma década; e que não há como identificar se novas peças incorporadas nesse período permanecem no acervo. Embora em reforma há cerca de uma semana, o Cedoc funciona parcialmente. O local também foi alvo de vândalos e vem recebendo reparos na estrutura física.

Procedimento padrão

O imóvel onde funciona o Museu Café Filho foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional secção RN na década de 1960, e após restaurado, em 1979, passou a abrigar o museu. Apesar do Iphan-RN ter tombado apenas o imóvel, e não o acervo (móveis, documentos e objetos), qualquer investida contra o espaço deve ser comunicada ao órgão. “Que eu me lembre, com esse novo episódio, o Museu Café Filho foi invadido pelo menos duas vezes nesses últimos dois anos”, lembrou Onésimo Santos, superintendente do Iphan-RN.

Santos contou que da vez anterior “arrombaram o museu mas não levaram nada de importante. Como utilizaram fósforos para iluminar o ambiente sem chamar atenção, o problema maior era o risco de incêndio”. O superintendente disse que, se for de interesse comum, “o acervo também pode ser tombado. De qualquer forma, tudo precisa ser comunicado”, conclui.

Fortaleza e Pinacoteca

Esta semana, de acordo com Luana Cibelle, a equipe do setor de museus da Fundação José Augusto trabalha na formatação final da programação que irá ilustrar a 11ª Semana Nacional de Museus no RN. A iniciativa, cuja temática em 2013 segue o lema “Museus (Memória + Criatividade) = Mudança Social”, estará em cartaz entre os dias 13 e 19 de maio e envolve um total de 1.252 instituições de 535 municípios de todo o país. A programação da Semana, entretanto, se concentrará na Pinacoteca e Fortaleza dos Reis Magos.

Foto mostra área interna do imóvel, que foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na década de 1960.Memória

2009

Fechou as portas para visitação pública e o Iphan-RN realizou restauração física da estrutura do Café Filho.

2010

A Fundação José Augusto decidiu manter o museu fechado para ampliar a restauração, contemplando também instalações elétricas e hidráulicas.

2011-2012

O Governo lançou dois editais para selecionar empresas interessadas na continuidade das obras: não apareceram interessados.

2013

Após duas tentativas frustradas de licitação, o Governo convida empresa para dar prosseguimento aos serviços, que também incluem reparos no teclado e climatização. Obras foram retomadas em abril.

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