Paul Zumthor, “Performance, recepção, leitura” (2018, Ubu Editora, 114 p.)

Publicação: 2019-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Um dos maiores conhecedores do período medieval no tangente aos aspectos da linguagem, o suíço Paul Zumthor (1915-1995) é autor de obras consideradas clássicas pela crítica literária, entre elas as indispensáveis “Introdução à poesia oral” e “A letra e a voz”, dois livros obrigatórios para quem quer saber de onde veio, por exemplo, o cordel (e vem de bem longe!). Nesta reedição de outra obra de talhe essencial, Zumthor concebe um estudo de linhagem antropológica no qual o conceito de “performance” se encontra aliado à vocalização, leia-se voz agrupada à ideia de sua uso corporal de modo mais amplo, e não à simples oralidade. Dividindo o livro em um didático “Prefácio” e mais dois capítulos – um levando o título da obra e o seguinte nomeado “A imaginação crítica” –, para o teórico os conceitos acerca da voz humana (vocalização, vocalidade) estão mais ligados à performance dela, inclusive a de índice coletivo no âmbito da recepção, do que à audição individual propriamente dita. Longe de abranger uma leitura puramente literária, a voz aqui é a própria cultura do homem ocidental e a poesia segue além disso, sendo parte da linguagem humana ontem e hoje. E com certeza a de amanhã, com Zumthor relativizando o uso da voz pelos meios de comunicação de massa e cujo impacto é definido por ele como “artificialmente composto”. Para ele, a voz apresenta uma teatralidade que difere o homem e a máquina.

Francisco Martins, “Canção do canavial” (2018, Carolina Cartoneira, 144 p.)
Já com vários livros e folhetos publicados, Francisco Martins – assinando o nada atrativo codinome de Mané Beradeiro – compõe aqui obra híbrida sob edição desleixada (fonte em tamanho excessivo, ausência de sumário, capa artesanal em excesso para o século XXI). No conteúdo do livro surge, primeiramente, uma narrativa popular com sextetos rimados na 4ª. e 6ª. linhas, a “Canção do canavial”, que o autor chama de cordel na última estrofe dela. Aparecem em seu enredo um pouco da história e “causos” diversos da cidade de Ceará-Mirim, dividida entre “A origem”, “O apogeu” e “A decadência” (mas sem alcançar os dias atuais). Na parte seguinte da obra, o autor trata de “Algumas datas e considerações históricas de Ceará-Mirim”, elencando 23 itens e no derradeiro deles listando brevíssima biografia de pessoas citadas na narrativa, entre eles os irmãos escritores Juvenal Antunes e Madalena Antunes. Para aumentar ainda mais o caráter fragmentário da escrita, ainda surgem uma “Carta-diploma do Barão do Ceará-Mirim”, de 1874, e mais uma dupla de textos de Nilo Pereira e Edgar Barbosa, ambos nascidos no município.  Ou seja, a ideia da confluência das escritas sobre o local em questão é louvável, porém pouco organizada aos olhos do leitor (e ainda há uma seção de fotos – algumas sem a devida indicação da origem delas – e desenhos antes do final). Em tempo: as ilustrações em preto e branco do múltiplo Novenil Barros, de enquadramentos bem diferentes, acabam deslocadas em meio à elástica informação.  












continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários