Pavilhão 4: palco da morte

Publicação: 2017-03-12 00:00:00 | Comentários: 0
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As escritas feitas com sangue nas paredes, o “cheiro fétido de morte”  entre as celas e corredores, as cinzas que escurecem  o “Setor 04”, ou pavilhão “04” da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, guardam lembranças e escancaram o cenário de guerra entre duas facções criminosas rivais.  O local, que está esvaziado, foi palco de uma chacina que vitimou pelo menos 26 presos em janeiro passado, no episódio que ficou marcado como uma das maiores e mais violentas rebeliões que o sistema penitenciário brasileiro vivenciou.
Adriano AbreuAlgumas áreas do pavilhão foram queimadas e as mensagens de ódio entre as facções seguem estampadas nas paredesAlgumas áreas do pavilhão foram queimadas e as mensagens de ódio entre as facções seguem estampadas nas paredes

As marcas deixadas para trás  revelam não só a sede de vingança de uma facção contra outra, mas também os rastros de desespero dos presos que tentaram, em vão,  fugir da morte. Nas paredes do pavilhão, que custodiava cerca de 200 pessoas do “Sindicato do RN”, o sangue humano foi usado como tinta para marcar a “morte vingada” dos presos do PCC sobre os do “RN”, facção ligada ao Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN). “Os otario do RN perdeu”, diz uma das frases.

No sábado em que aconteceu a rebelião, seis agentes tomavam conta dos presos da Penitenciária Rogério Coutinho Madruga, ou pavilhão 5. Relatos revelam que após “tomar” o lugar, os presos do PCC correra em direção ao “PV 4”, empunhando armas caseiras e de fogo, quebrando uma parede para ter acesso.  No lado oposto, os apenados do “Sindicato do RN” corriam, desesperados, dos rivais. O portão de aço que poderia ser o livramento da morte guarda marcas de chutes e murros. Sem conseguir ultrapassar a barreira, uma parede foi quebrada. “Alguns fugiram para outros pavilhões ou para fora da unidade”, disse uma fonte ouvida pela reportagem, que pediu para não ser identificada.

Quem não conseguiu sobreviver, teve o corpo empilhado no pátio do PV 4, foram jogados em fossas ou enterrados. A ordem não era só de matar o “inimigo”, na batalha entre facções, os mortos foram deixados sem cabeça, braços, pernas ou tiveram o corpo completamente carbonizado. Em 29 de janeiro, a Polícia Civil atuou 109 apenados do pavilhão cinco pelo motim. Os cinco supostos líderes foram transferidos para a Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia.

Nas quinze celas do pavilhão – onde os presos estava soltos  desde a rebelião de março de 2015 – na mesma parede,  passagens bíblicas e crucifixos dividem espaço, lado a lado, com desenhos de palhaços, símbolo que representa, na linguagem do crime,  roubo e morte de policiais. No mesmo espaço, as frases “Deus é amor” e “Deus é fiel”, rabiscadas com lápis colorido, estão desenhos de arma de fogo. Por toda parte, as siglas “ PCC - 1533”, e “Sindicato do RN - 1314”  são visualizadas. Os números são códigos que representam as iniciais das facções no alfabeto.

O descontrole do Estado sobre o acontecia no dia-a-dia dentro de Alcaçuz e principalmente  no interior dos pavilhões é escancarado nas deficiências estruturais, como  falta total de grades, rchaduras e túneis encontrados em todas as celas.     Todas possuem algum tipo de perfuração na parede e no chão, os resquícios de túneis ainda são visíveis. Sem agentes penitenciários nos locais,  os presos trabalhavam dia e noite para escapar da prisão. Somente em 2016, Alcaçuz registou 91 foragidos.

Todas as celas eram interligadas por meio de buracos nas paredes. Na ausência do Estado, a “ordem” foi estabelecida pelo crime organizado, que criou as  próprias regras com “leis” e métodos a serem cumpridos. O nome “igreja”, escrito na entrada da cela 04, indica que ali eram realizaram as celebrações religiosas. No chão e em buracos nas paredes,  bíblias  cheias de areia e cinza foram deixadas para trás. 

Rotina e obras no Pavilhão 5
Equipes da Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP) tentam estabelecer uma nova rotina dentro da Penitenciária Estadual Rogério Coutinho Madruga, o pavilhão 5 de Alcaçuz. Trabalho é feito em paralelo às obras de reconstrução da estrutura, bastante afetada durante a rebelião. A força tarefa faz constantes vistorias em celas e treina agentes estaduais. Contato com presos é mínimo.

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