Pax

Publicação: 2017-12-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Hoje vai pintar um marco zero na cidade. É a inauguração de mais um espaço para os artistas se apropriarem e traçar seus metaplanos sonoros. Para eles ficará toda a Travessa Pax disponibilizada. É que a prefeito Carlos Eduardo, atendeu pedido de compositores e instrumentistas do Choro, articulado pelo maestro Chico Beethoven. O pleito teve recepção imediata. A prefeitura de Natal estabeleceu um cronograma de recuperação para ser executado em seis meses envolvendo a interdição de veículos, iluminação, restauro de pedras e calçadas. Portanto se fatura mais uma área privilegiada porque tombada e única pavimentada com pedras pretas marinhas, conhecidas na área do patrimônio material por “cabeça de negro”.

Antes fora na rua professor Zuza com a criação do Espaço Cultural Rui Pereira. Saudoso companheiro, que vem sendo objeto de documentário dirigido por Wilson Freire, também compositor e parceiro em clássicos de Antonio Nóbrega. E agora mais um novo espaço que homenageia o genial compositor norte-rio-grandense Sebastião de Barros, artisticamente conhecido por K-Ximbinho nascido em Taipu.

Não é a primeiro grande reconhecimento desse artista influenciado por Charlie Parker e o Maestro Cipó. Os clarinetistas Paulo Moura e Nailor Proveta gravaram CDs tributando a obra de K-Xmbinho. Respectivamente os discos K-Ximblues gravado ao vivo no Teatro Leblon e Velhos Companheiros de K-Ximbinho gravado em estúdio, em São Paulo pelo criterioso selo Maritaca, dirigido por Léa Freire. É essa preciosidade que será lançado hoje na Travessa Pax-Espaço Cultural K-Ximbinho, 19 horas, com a presença de Nailor Proveta e Edmilson Capelupi e vários artistas locais: Carlinhos Zens, Família Pádua, Bruno Barros, Choro do Elefante, Eduardo Tauficc, Álvaro Barros (?)...

O selo Nação Potiguar (Escritório Candinha Bezerra-Fundação Helio Galvão) lançou dois CDs com composições de K-Ximbinho relidas por músicos do calibre de Sivuca, Renato Borghetti, Dominguinhos, Paulo Bellinati, Carlos Malta, Toninho Carrasqueira... Capas de Newton Navarro e Dorian Gray que fez uma arte exclusiva.  Fiz um brevíssimo texto para o disco que será lançado hoje: O músico de Taipu.

O menino Sebastião de barros que saiu músico de Taipu, interior do Rio Grande do Norte, era filho de pequenos comerciantes. Desde cedo trazia a decisão de tocar um instrumento. Receberia por essa condição precoce e incondicional apoio materno. O que foi decisivo para se tornar a principal referência do choro contaminado pelo jazz. Adiante, já conhecido artisticamente como K-Ximbinho dizia na maturidade “gosto de improvisar”. E citava as principais influências: maestro Cipó ativo participante do carioca Clube do Jazz e Bossa, em 1985, e o lendário Charlie Parker, ligado ao bebop, a latinidade, ícone da Geração Beat. O lado paterno o queria ajudando no balcão da bodega. Contudo o menino emplacaria a decisão da trajetória musical. Fixado no Rio de Janeiro curtindo boemia produz peças musicais definitivas: Eu quero é sossego, Ternura, K-Xim-Bodega, K-Xim-tema, Penumbra, Sonoroso, Sonhando... O refino intuitivo seria burilado com aulas ministradas pelo maestro Hans Joachim Koellreutter assim como fizera Tom Jobim, Moacir Santos, Júlio Medaglia, Gilberto Mendes e outros. Portanto, da banda de música de Taipu, com as primeiras aulas de teoria musical para os influxos seriais, microtonais, experimentais, de harmonia acústica... Sebastião de barros ou K-Ximbinho (1917-1980) lançou vários discos liderando ou participando de bandas, se apresentando em formatos heterogêneos.

O instrumento preferido era o clarinete. Agora esse timaço sob a direção artística de Teco Cardoso estampa mais um CD homenagem a K-Ximbinho. Tem a participação de Nailor Proveta, Edu Ribeiro, Léa Freire, Edson Alves, Edmilson Capelupi... São redesenhos e novos retratos sonoros reatualizando e, sobretudo, como compositor gostava, reinventando seu repertório que sai de um dado vácuo memorialístico para pulsar na corrente sanguínea do melhor da criação musical brasileira, iniciativa fundamental como contributo e viga  de sustentação para uma obra se exclui de um atual cenário dominado por uma economia criativa questionada no conteúdo em detrimento da supremacia do produto estético. “Nailor Proveta Velhos Companheiros de K-Ximbinho” se coloca por si no protagonismo que lhe é cabível e inegável: K-Ximbinho atemporal e invulgar chancelados por virtuoses dos sopros, das cordas, teclas e batuques. Convocação de corpo e alma para essa escuta com tessituras e tratamentos sonoros executados por um grupo de músicos incomum. Vale, vale muito a pena.


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