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Rubens Lemos Filho
Paysandu, uma história de ódio
Publicado: 00:00:00 - 20/04/2022 Atualizado: 21:28:29 - 19/04/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Até o jogo pela Série C, ABC e Paysandu viveram uma história de ódio revanchista, provocada por um dos maiores crimes cometidos no futebol brasileiro. 

Faz 31 anos que parte da arquibancada do estadinho da Rua Curuzú, alçapão dos paraenses, desabou por excesso de público, causando horror em quem via pela televisão. Por um desses motivos em que a ingenuidade e a picaretagem resolvem acasalar, o jogo continuou e o ABC foi eliminado por 3x1. 

Era domingo, 5 de maio de 1991 e o ABC animava a Frasqueira pela bela campanha na Série B. O time era muito bom, com Pedrinho(ou Washington); Lotti, Arimatéia, Toté e Quinho; Lourival, Roberto Nascimento, Silvinho e Odilon; Zinho e Rildon. O técnico era o pouco afável e competente Givanildo Oliveira. 

Tinha 21 anos incompletos (faria aniversário a 20 de agosto) e, por confiança do jornalista Antônio Melo, era editor-chefe de telejornal na TV Potengi (hoje Band RN), que transmitiu o jogo ao vivo. 

Melo demonstrou ousadia naqueles idos de aprendizado na transição de quem estava acostumado com redação de jornal e aprendia como dosar texto e tempo, ganhando(eu), sem modéstia, capacidade para pilotar um programa ao vivo. 

Aos jogos do ABC em Natal, fui a todos, no Machadão(a substituição do nome do Marechal Castelo Branco ocorrera dois anos antes) e o time correspondia pelo toque de bola requintado, com três craques na armação de jogadas: Roberto Nascimento, Silvinho e o pequenino Odilon.

Na defesa, os cordiais Arimatéia e Toté devastavam canelas, ossos estalavam ainda que a multidão nos impedisse de escutar o massacre do mais violento miolo de zaga abecedista. 

No ataque, florescia o talento de Zinho, um ex-cobrador de ônibus de raro talento, que sairia para o Santa Cruz e rodaria por quase 20 times, ganhando muito dinheiro perdido em casamento com uma esperta que lhe fez assina, em branco,  um papel transformado em transferência dos imóveis comprados pelo ingênuo jogador, inverso na vida do capeta que sempre foi no gramado. 

Após bela campanha na fase eliminatória, que incluiu a eliminação do América(4x2 e 1x1), o ABC enfrentou o Sampaio Corrêa(MA), empatando em Natal e São Luiz e ganhando a vaga nos pênaltis, o que deixou a Frasqueira em festa. 

O ABC jogou a primeira partida contra o Paysandu numa tarde chuvosa de feriado de 1º de maio. Apertou o adversário o jogo todo até Silvinho marcar de cabeça o 1x0 final. Placar inseguro, mesmo o alvinegro com a vantagem de passar adiante com uma derrota por 2x1(gol fora de casa valia por dois). 

Uma série de eventos  cabulosos antecedia a peleja de Belém. O ABC não brigou para a partida ser disputada no Mangueirão, o maior estádio paraense, com capacidade similar à do Machadão(50 mil pessoas). Aceitou, humildade dos frades, a partida na emboscada da Curuzu. 

Para chefiar a delegação, foi indicado um ex-dirigente do América, famoso não apenas por torcer e conquistar campeonatos para o seu clube, mas por menosprezar o ABC de forma rasteira. 

Como um homem nu em plena avenida, o ABC permaneceu em campo  para enfrentar o Paysandu e o apito do árbitro Manoel Serapião Filho. Em qualquer lance duvidoso, bola para o time da casa. 

O Paysandu abriu 2x0, a arquibancada atrás da trave de Washington(Pedrinho fora substituído após ser atingido por um rojão) e as imagens apavoravam. Gente correndo, ferida, efetivo policial pequeno para socorrer os feridos. O ABC não deixou o campo, o que era óbvio e ululante. Aceitou continuar a partida em  clima de terror. 

O lateral-esquerdo Quinho diminuiu para 2x1 e a classificação sonhada durou até o terceiro gol do Paysandu. Depois do ABC, Américano de Campos(RJ) e Guarani(SP), adversários seguintes do Paysandu,  sofreram o diabo também. 

O Paysandu foi campeão da Série B e ao ABC, passivo e dormente, restou alimentar uma vindita que nenhuma vitória seria capaz de amenizar a tragédia da Curuzu em 1991. Uma lambança em que a má-fé (dos episódios) e o lavar as mãos (do ABC), se associaram em maldade e covardia. 

Sem comparação 
Os adversários do América no Grupo 3 da Série C não amarram as chuteiras do time rubro em grandeza e tradição: Sousa(PB), Retrô(PE), Crato(CE), Afogados(PE), São Paulo Crystal(PB), Globo(RN) e Icasa(CE). Resta ao América comprovar sua força. 

Time 
Pelo que foi mostrado na estreia, o time do estadual parece melhor que o montado para a Série D. 

Téssio 
Sem nada de excepcional, Téssio merece ser titular na atual equipe. 

Seleção 
O oftalmologista Júlio Fulco envia à coluna uma lista pescada na internet, de nomes exóticos(ou bizarros), de jogadores da Série D: Watthimen; Rabiola, Tobinha, Fazendinha e Bilal; Tiago Bagagem, Cabecinha e Limão; Léo Turbo, Sucuri e Wembley. Técnico: Zé Caribé. 

É assim  
Série D é assim: tragicômica e hilária. O melhor de estar nela é a perspectiva de sair. Quem vai ficando, termina se acostumando e se apequenando. 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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