PCdoB aposta em 'múltiplas candidaturas' na base aliada

Publicação: 2016-02-14 00:00:00
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O Partido Comunista do Brasil decidiu sair, pela primeira vez em Natal, com candidatura própria à Prefeitura. E aposta que a pulverização de candidatos deveprovocar um segundo turno. Escolhido para concorrer pelo PCdoB, o vereador George Câmara afirma que o partido está pronto para participar da disputa majoritária na capital. Com três mandatos de vereador, George Câmara, 56 anos, deixou o cargo de secretário estadual de Esporte e Lazer, no governo Robinson Faria (PSD) para concorrer à Prefeitura nas eleições de outubro deste ano.  Em 1996, a George Câmara já havia disputado a primeira eleição majoritária, como candidato a vice em uma chapa encabeçada pela atual senadora Fátima Bezerra (PT), que, na ocasião, perdeu a eleição no segundo turno para a hoje vice-prefeita de Natal, Wilma de Faria.
Partido Comunista do Brasil terá, pela primeira vez, candidato próprio para concorrer a prefeito de Natal
Em 2000, George Câmara se elegeu vereador pela primeira vez, substituindo Juliano Siqueira na Câmara Municipal de Natal. Em 2004, apesar de ter obtido o dobro da votação da eleição anterior, ele não conseguiu se reeleger, numa composição do PCdoB com o PSB. Agora está na Câmara Municipal, mas não vai concorrer à reeleição. Ele pretende disputar a sucessão municipal como candidato a prefeito.

O que motivou o PCdoB a tomar essa decisão de ter candidato próprio a prefeito de Natal?
Nos últimos 30 anos, e dentro de um contexto de reconquista do regime democrático, o PCdoB vem atuando em condições de liberdade política. Então, isso possibilita a divulgação de suas ideias junto à população, trabalhadores, estudantes, a sociedade em geral. Isso motivou um crescimento e uma credibilidade dos comunistas em todo o Brasil. Hoje, nós não nos dirigimos apenas à cidade de Olinda (PE) ou não temos apenas o prefeito de Aracaju (SE), mas também o governo do Maranhão é exercido por um comunista (Flávio Dino), em uma aliança com vários partidos. O próprio processo de amadurecimento do PCdoB e o seu crescimento é o que nos leva à condição dessa postulação.

O desgaste do PT pesou nessa decisão. Diante do desgaste da imagem dos petistas, que pode ter consequências eleitorais, o PCdoB considerou que tem condições de conquistar um eleitorado que não desejaria votar mais no PT?
Nosso projeto nacional é de continuar aliado ao Partido dos Trabalhadores. Quem vê a postura da deputada federal Jandira Feghali (RJ), líder do PCdoB na Câmara, da senadora Vanessa Grazziotin e da deputada federal Luciana Santos (PE), que foi prefeita de Olinda, hoje presidente nacional do partido, sabe. Nós temos esse projeto nacional. Na verdade, estamos de olho no cenário de crescimento do PCdoB. É natural que o partido possa postular, e já fez isso em outros momentos em Fortaleza (CE), com Inácio Arruda, em várias capitais do país e cidades de um certo porte. Quando Flávio Dino foi candidato a primeira vez, em 2010, a governador do Maranhão, como em 2014, não foi em aliança com o PT. E dentro do próprio contexto de crescimento do PCdo B no Rio Grande do Norte, onde temos o vice-governador Fábio Dantas, a deputada estadual Cristiane Dantas, a possibilidade de reeleição do prefeito Flaviano Monteiro, em Apodi, e Arlindo Dantas, em São José do Mipibu, como também de eleger novos prefeitos – João Braz, em Caicó e Geraldo Veríssimo, em São Gonçalo do Amarante... Então, a gente está hoje em uma condição de crescimento, que nos dá a possibilidade, legitimamente, de  postular essa condição, e que a população faça o seu julgamento. Mas, entendemos que isso decorre do crescimento do PCdoB e do cenário politico de avanço democrático no país, independente da situação de partidos aliados estarem em alta ou em baixa.

Circulou uma especulação de que a senadora Fátima Bezerra talvez fosse para o PCdoB, em função do  desgaste político do PT. Existe alguma conversa neste sentido?
Eu presido o PCdoB em Natal e Antônio  Roberto de Medeiros o Comitê Estadual. A gente sempre conversa e nós temos uma relação muito amistosa e fraterna com a senadora Fátima Bezerra e com os demais expoentes do  PT, os dirigentes municipais e estaduais do PT. Não tem absolutamente nenhuma sinalização neste sentido. Se tem algo no plano nacional, eu desconheço. Mas por aqui, certamente, até 30 segundos atrás, desconhecia essa possibilidade.

Qual a expectativa com relação ao posicionamento do governador Robinson Faria (PSD) sobre as eleições municipais em Natal? HÁ pouco tempo o senhor era auxiliar do governo. Existe a possibilidade de sair vários candidatos a prefeito da base aliada?
O cenário de Natal em uma leitura muito superficial de qualquer um de nós, é de que podem surgir múltiplas candidaturas, mesmo na base aliada do plano nacional. Tem o PDT, com o prefeito Carlos Eduardo Alves, que é da base aliada da presidente Dilma Roussef, e também tem o PT, o PSD e o PCdoB, que podem lançar candidaturas. É um fenômeno que vem se dando em várias capitais e estados. Nesse cenário não sei qual é a opinião do governador. A leitura que o PCdoB faz é da possibilidade de candidaturas múltiplas e de fazer um segundo turno em Natal, que vai propiciar um grande debate acerca do futuro da cidade.

Quando o senhor entregou o cargo de Secretário Estadual de Esporte e Lazer, o governador não sinalizou nenhuma possibilidade? Estimulou o PCdoB a sair nessa estratégia de pulverizar candidaturas na base aliada?
Quando nós tratamos das questões administrativas, depois de 12 meses na condição de secretário, onde continuamos com o secretário Francisco Canindé de França, titular há duas semanas, nós tratamos também de questões de natureza política, envolvendo o nosso projeto e onde o projeto do PCdoB guarda sintonia com o PSD, partido do governador,  e sintonia com os demais partidos, inclusive o PT. Nós temos candidatos a prefeito de Caicó, João Braz, que poderá ter o apoio desses aliados e o pré-candidato a prefeito de Ceará-Mirim, que é do PSD, e caminha para um entendimento de sairmos juntos. A gente tem uma busca de trabalhar a reciprocidade, essa construção faz parte da inteligência humana de procurar construir um caminho que facilite o seu projeto. Em relação a Natal, o  PCdoB explicitou para o governador isto, as candidaturas múltiplas facilitam o segundo turno. A leitura que o PSD vai fazer disso, não sei exatamente. Certamente, o governador deverá considerar.

Um partido caminhar sozinho numa campanha eleitoral é difícil, o PCdoB já sabe com quem pode contar para uma aliança política em Natal?
Nós temos uma conversa com o PTdoB, que foi nosso aliado na última  eleição em 2014 para  deputado estadual, quando nossa aliança produziu seis cadeiras na Assembleia Legislativa ligadas aos partidos da base do  governo. Três do PSD, que elegeu Galeno Torquato, Dison Lisboa e José Dias; e três da aliança PCdoB/PT e PTdoB, que elegeu  Cristiane Dantas, Fernando Mineiro e Carlos Augusto Maia, então vereador em Parnamirim. E nós estamos tratando de um projeto metropolitano, em que o PCdoB tem parcerias. Eu sou o primeiro suplente nessa coligação. Uma eleição de Carlos Augusto Maia para prefeito de Parnamirim, nos dá a titularidade na Assembléia durante dois anos, uma oportunidade do PCdoB ampliar também a bancada na Assembleia. Estamos tratando dessa questão, o PT do B já é um aliado preferencial em Natal.

Essa decisão do PCdoB de lançar candidato a prefeito de Natal é irreversível. A conversa com  Fernando Mineiro, do PT, pode evoluir para uma composição?
Acho que, neste momento, a  leitura que tenho é de que uma composição se dá em um segundo turno. Eu pretendo passar para o segundo turno e vou buscar aliados.

O senhor participou das discussões sobre a formação da Região Metropolitana (RMN), mas esse processo parece que não evoluiu...
É verdade, a Região Metropolitana surgiu com seis municípios: Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Ceará  Mirim, Extremoz e Macaiba. Em seguida acrescentou mais dois – São José do Mipibu e Nísia Floresta e foi crescendo... Monte Alegre, Maxaranguape, Vera Cruz, Ielmo Marinho, Goianinha e Arez... E já está com 14. Não acho que esse movimento beneficie nem mesmo os municípios. Se Goianinha e Arez soubessem o que vem de exigência na nova lei federal, do Estatuto da Metrópole, que completou um ano agora em 12 de janeiro... Para fazer parte da Região Metropolitana tem de ter um plano de desenvolvimento urbano integrado. Tem mais ônus do que bônus. Belo Horizonte (MG) tem uma experiência que mostra a Região Metropolitana legal e real. Tem um estudo aqui, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mostrando que, em relação ao nível de integração – muito alto, alto, médio, baixo, muito baixo -, Natal só tem integração maior com três municípios – Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e Extremoz. E média com Macaíba. E as outras são muito baixo.  Isso mostra que, na Região Metropolitana, no nosso caso, ela está muito artificial. Isso é um desserviço aos municípios. Melhor é fortalecer os laços com outras categorias de organização regional, como polarizar o fortalecimento da chamada aglomeração urbana, que onde há vocação natural. Não se deve prometer a Taipu, por exemplo, que amanhã vai estar na Região Metropolitana, artificialmente sem que tenha nada que integre com Natal. É como Ielmo Marinho, que integra muito mais com São Paulo do Potengi do que com Ceará-Mirim, mas está na Região Metropolitana. Isso  termina criando uma situação absolutamente artificial. Apesar de alguns deputados ficar dizendo: “Daqui a dois anos o seu  município vai estar na Região Metropolitana”. Estão vendendo gato por lebre, porque na verdade traz muito mais obrigações.

Então isso tem um componente politico-eleitoral para a inclusão de municípios na Grande Natal?
Sim. E isso não é novidade. Todo mundo está vendo, essa é a matriz que está levando alguma proposição chegar à Assembleia. Agora, estou lembrando que a lei nova tem outras exigências, impõe aos municípios que apresentem um plano diretor integrado com a região, não é mais só um plano individual do município. O Estado passou quatro anos sem reunir o Conselho Metropolitano e Natal, mesmo sem usurpar uma prerrogativa do Estado de coordenar esse processo, tem um papel de liderança nata, com responsabilidade de uma cidade que tem 63% da população da Região Metropolitana.

Os partidos de esquerda, mais notadamente o PT, tem de se explicar sobre diversos episódios que envolvem suspeitas de corrupção, isso cria uma dificuldade adicional e fragilidade  à imagem desses partidos, entre os quais o PCdoB, também citado em alguns episódios?
 Alguns meios de comunicação, não são todos, mas alguns órgãos da grande imprensa procuram atacar aquelas forças politicas que defendem a democratização dos meios de comunicação e uma politica que democratiza o acesso à riqueza no país. Têm atacado algumas personalidades de alguns partidos, no nosso caso do PC do B. Ninguém é inatacável, mas o PCdoB recepciona essas ofensivas de cabeça erguida, com muita tranquilidade. Tentaram fazer isso com o então ministro Orlando Silva. Foi muito mais pelas pressões, inexplicavelmente, anti-republicanas que vinham da Fifa para fragilizar, naquele momento, o Ministério dos Esportes e a substituição por Aldo Rebelo criou uma blindagem. Orlando Silva Júnior foi, em seguida, eleito vereador por São Paulo com excelente votação e dois anos depois deputado federal. Hoje é um grande parlamentar no Congresso Nacional e tudo que foi dito pela revista “Veja” contra ele. Nada foi provado e ficou uma denúncia vazia. É claro  que essa avalanche de ataques à esquerda tem um objetivo. E se aproveitando de algumas personalidades  que fizeram coisas erradas. Certamente que é ruim para a esquerda, com um flanco aberto. Mas o PCdoB está muito tranquilo com relação a essa questão e apesar de terem vasculhado muita gente do partido, não encontraram nenhuma mácula, que pudessem nos  envergonhar, mesmo enfrentando situações de ataques direcionados para tentar atingir a imagem de um partido que tem 93 anos, que a sua relação com a polícia é levando borrachada por questões de defesa do país e do povo e não por roubo.

Essa defesa que o PCdoB faz do governo não é muito ampla, ao invés de ter uma postura mais crítica?
Se for pegar o Portal Vermelho, do PCdoB, que é atualizado diariamente desde 2002, e vai fazer 13 anos em 25 de março, o partido sempre teve posições criticas a determinadas posturas de governo, como politicas e taxas de juros elevadas, alguns aspectos que atingem direitos dos trabalhadores, reforma previdenciária. Nosso partido tem uma visão critica e explicita nos seus documentos. Mas não temos ilusão. Esse fogo cerrado, que o governo Dilma e Lula enfrentam, tem outro objetivo. Do jeito que Carlos Lacerda dizia — que Getúlio Vargas em 1950 não podia ser candidato; se candidato, não podia ser eleito; se eleito, não podia ser empossado; e se empossado não podia governar —, estão fazendo hoje. Só que “não poder governar” é paralisar o país. A sociedade está assistindo. Essa paralisia gera desemprego, prejudica as universidades, o conhecimento, a tecnologia, o desenvolvimento das empresas. É uma situação que a própria sociedade começa a questionar e o PCdoB tem a tranquilidade de saber distinguir essa matriz do componente politico para tentar desgastar figuras que foram construídas com toda uma tradição histórica. Hoje, esses ataques ferrenhos contra  Lula tem um objetivo muito claro. A revista “Carta Capital” trouxe essa semana um artigo de Marcos Coimbra, mostrando uma pesquisa da “Vox Populi” com dez elementos levantados. Lula está com o dobro de aceitação de Fernando Henrique Cardoso. Então, mostra o componente politico dessa disputa e o PCdoB tem isso muito claro.

E como analisa essas investigações em andamento contra o ex-presidente Lula?
Tenho como premissa, que o verbo que se conjuga numa acusação, não é o verbo julgar, é o verbo investigar, nem atacar e nem defender. Vamos investigar. Agora, essa seletividade de só investigar um lado e só divulgar um lado e, em alguns setores da imprensa, parece até que está marcado um encontro: Naquela hora e naquele dia só sai aquilo. Veja o que está saindo na “Folha de S. Paulo”, no “O Globo”, no “Estadão”, na “Veja” e na Rede Globo. São coisas absolutamente visíveis nos direcionamentos, não é um componente neutro, que jornalistas sabem muito mais do que eu.

Que saída o senhor e seu partido apontariam para essa crise e esse impasse vigente no país?
Não é só uma crise de modelo, é uma crise do próprio sistema. Como é que se consegue conviver numa situação no mundo, em que 338 famílias tem uma riqueza superior a 45 países. Esse mundo dos bilionários é o mundo dos miseráveis, esse modelo em que se ganha dinheiro somente com a elevação em 0,25 na taxa Selic, sem gerar emprego, apenas com especulação financeira. É um mundo que está produzindo essa desigualdade. Esse modelo vai se esgotando. Sair dessa crise sem mexer com isso, não vai sair da crise. O que foi a 2ª Guerra Mundial, senão o desfecho da crise de 1929? O crash da Bolsa de Nova Iorque foi um momento simbólico. O desfecho se deu em 1946, após o fim da 2º Guerra Mundial. Esse redesenho sem mexer com essas pilastras do sistema capitalista, que é excludente, não  tem como. Ou se mexe com essa tendência ou não vai ter saída para a crise.

Mas há uma crise de governo, mesmo tendo esse componente internacional?
O que se pode dizer é que não é aquela 'marolinha' que Lula falava em 2008. Em 2009 o Brasil gerou 1 milhão de empregos, a maior  entre os países capitalistas, porque apostou no mercado interno. Só que esse  cenário não era o mesmo de 2012 e 2013. Claro que os ajustes precisavam ser feitos e não aconteceram. A forma como o Brasil reagiu a essa crise mundial, já no oitavo ano, não era a forma do primeiro ano. Então isso deixou o pais num certo grau de aprofundamento da crise no componente econômico. Agora, há a crise politica, fabricada, porque os partidos que têm hegemonia no processo politico, deviam encontrar uma saída e depois partir para a briga. Não, a oposição escolheu o modelo de sangrar o governo até o fim e termina não se tendo consenso para sair da crise.

O governo não foi irresponsável, ao gastar mais do que devia?
O próprio setor industrial estava apontando para uma coisa bem diferente do que o setor financeiro estava apontando. E isso não foi levando em consideração. A presidente colocava, até uma certa altura,  que a crise não teria a sua resposta nas costelas dos trabalhadores, diminuindo os  programas sociais. Acho que isso tem de ser feito com muita cautela, uma afirmação dessa. É uma formulação justa, correta, mas que tem de ter lastro na realidade. Se comparar 0,25 na Taxa Selic que aumenta, paga dois bolsas famílias no ano. O capital financeiro está levando. Agora, mexer com capital financeiro, é palavra proibida. A chantagem que o capital financeiro faz é de outra forma, a população se mobiliza no meio da rua, a chantagem do capital financeiro é de outra natureza. Quando a presidente baixou a taxa Selic para 7,5 em 2011, alguns disseram que ela era maluca, mas ela tentou atingir o cerne da questão, não é algo simples.