Pedro Moura: "O empreendedorismo tem função de impacto"

Publicação: 2019-06-09 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Se encerra neste domingo,  9, o primeiro Hackathon da startup americana fundada pelo potiguar Pedro Moura. A Flourish atua na área de finanças pessoais. Desenvolvida no formato de uma conta poupança, o propósito da empresa é ajudar pessoas a alcançarem sua segurança financeira, tornando a experiência de poupar mais fácil e divertida.

Créditos: Adriano AbreuNordestino, potiguar, de origem sertaneja e imigrante. A história de Pedro Moura é exemplo para quem não tem medo de inovarNordestino, potiguar, de origem sertaneja e imigrante. A história de Pedro Moura é exemplo para quem não tem medo de inovar
Nordestino, potiguar, de origem sertaneja e imigrante. A história de Pedro Moura é exemplo para quem não tem medo de inovar

A maratona de programação na qual os participantes tinham como missão desenvolver soluções com foco em inclusão e educação financeira começou na sexta-feira passada, dia 7. O intuito é unir programadores, designers, pessoas com habilidades em empreendedorismo e curiosos em equipes para uma experiência de aprendizado incrível.

Na entrevista a seguir, Pedro Moura destaca como é empreender nos Estados Unidos e no Brasil e faz uma análise do atual cenário do mercado da tecnologia e da informação. Acompanhe.

Como surgiu o empreendedorismo na sua vida?
Eu tenho uma família de empreendedores, na verdade. De empreendedores e imigrantes. Meu avô saiu do Sertão do Seridó, de Parelhas, literalmente levando os tijolos do Sítio para a cidade de Parelhas para que suas filhas pudessem estudar e dar uma melhor vida para eles. Então, eu tinha essa inspiração desde o tempo do meu avô. Do lado da minha mãe, a gente tinha farmácia no Rio Grande do Norte, uma pequena rede. Meus pais se separaram e minha mãe teve que se reinventar outra vez. A farmácia não estava indo tão bem e ela vendeu. Pegou as malas e foi viver o sonho americano nos Estados Unidos. Nisso, eu tinha 15 anos de idade. Vendo pessoas da minha própria família se reinventando, para mim foi muito de uma necessidade dentro dos Estados Unidos. Nós fazíamos trabalho de imigrantes, que era limpar casas, entregar jornal. Hoje, se fala como empreendedorismo. Mas para o meu avô, para a minha mãe, foi questão de sobrevivência.

E quando surgiram as oportunidades de melhoria?
Com o passar do tempo eu fui tendo certo acesso. Foram surgindo as oportunidades dentro dos Estados Unidos para ter acesso às boas escolas. No dia a dia, fazer com que as coisas acontecessem e ter como pagar as minhas contas era uma sobrevivência. Mas, com o passar do tempo fui adquirindo certa informação e tive oportunidade de estudar fora em boas escolas dos Estados Unidos, de conhecer novas realidades. E para mim foi: como posso ajudar as comunidades de onde eu saí que, dentro dos Estados Unidos eram as comunidades de imigrantes, e depois pensando de volta no Brasil. Daí eu vi o poder do empreendedorismo não só gerando trabalho, mas produtos sendo criados e que poderiam impactar positivamente a vida das pessoas. Para mim, começou como necessidade e evoluiu para como posso passar minha missão e querer ajudar pessoas que estão passando por algo que eu já passei e depois retribuir o que eu venho aprendendo. Eu vejo o empreendedorismo como uma função desse impacto. Eu resumiria, com base na história da minha família, que ser imigrante faz de você um empreendedor. E eu acho que se a gente olhar ao nosso redor, a necessidade de sobrevivência faz você criar oportunidades. Hoje, eu me considero privilegiado em ter certos acessos e busco através do empreendedorismo social criar oportunidades para outras pessoas ao meu redor.

De que forma você se interessou em trazer sua experiência para jovens e não-jovens no Rio Grande do Norte e como é participar desse processo de construção de novos empreendedores e empreendimentos?
Para mim, é incrível. Eu tive uma experiência de trabalhar numa empresa que cresceu muito rápido. Quando eu entrei éramos 300 colaboradores e, quando saí, éramos 3.500. Eu tive uma experiência incrível lá fora. Mas minha família, meus pais, estão aqui. Então, para mim é sempre esse conceito de: se você chegou em determinado lugar, como você retribui? E eu estou fazendo e aprendendo. O Hackathon, para mim, é uma parte disso: de contribuir e retribuir. E há uma parte minha nisso, de onde eu vim, como posso ajudar, como posso colaborar. Então, para mim, voltar para o Rio Grande do Norte e participar da Campus Party, como foi em 2018, um ano antes vim para participar de monitoria de startups, me inserindo no que estava acontecendo, colaborando com o Sebrae, com o Instituto Metrópole Digital (IMD), e vários outros projetos é como criar uma ponte entre Natal e o Vale do Silício, na Califórnia. Então, eu estou aprendendo e também fomentando algo que existe aqui, como suas necessidades próprias. Estou fazendo e aprendendo e parte desse evento era uma missão para compartilhar o que eu já passei e contribuir para o ecossistema. Eu me inseri com um pessoal muito bom aqui no Rio Grande do Norte, que está buscando oportunidades e procuro aprender com eles e, ao mesmo tempo, abrir uma janela ou porta no Vale do Silício. Porque aqui existem pessoas sumamente capacitadas, com um talento incrível que algumas vezes falta uma porta, uma guia, uma direção. Quero levar essas pessoas a terem uma oportunidade e mostrá-los que eles também podem fazer.

Como é empreender nos Estados Unidos e empreender no Brasil. O que você aponta como mais discrepante nessas duas realidades?
Essa é uma pergunta, em si, complexa. Mas, falando a partir da minha experiência, empreender não é fácil para ninguém. É um estilo de vida e uma mentalidade. Todo mundo passa por dificuldades e barreiras. E empreender é a mesma coisa. É uma opção de quem você é. Eu acho que há uma perspectiva, quando a gente começa a falar em diferenças, porque queira ou não, os Estados Unidos é um país muito acético. Há muita tecnologia, muitos recursos, mas também é um país extremamente competitivo e existem várias pessoas com ideias parecidas, similares. E como você diferencia está na execução, na forma como se faz, na persistência. Queira ou não, o Brasil talvez, em algumas maneiras, existam pessoas muito capacitadas. O Brasil é um país muito rico, porém a diferença entre a formação é maior. Quem tem acesso à informação, tem. Quem não tem, não tem. Então, eu vejo que existe uma oportunidade no Brasil incrível de poder disseminar certas informações de pessoas que estão inseridas na elite ou de certo acesso que tem formação. E não necessariamente chega pro resto da população. Existem dificuldades aqui? Sim. Existem dificuldades lá? Sim.  Mas eu acho que, no final, podemos dizer que o Brasil tem muita burocracia, mas do outro lado tem muitas oportunidades. Isso nos dá muito mais oportunidade de empreender, de criar novas oportunidades que talvez nos Estados Unidos haja um acesso a um capital maior, algumas outras coisas, mas a competição é bem mais alta. Um empreendedor nato irá conseguir desempenhar seu papel, mostrar diferenças. Queira ou não é um mercado mais nascente em termos de fundos de investimentos, cultura empreendedora. Então, existem essas diferenças. Mas, para quem quer empreender, isso se transforma em oportunidade.

Você percebe, no Rio Grande do Norte, jovens e não-jovens com esse intuito de mudar, de empreender e fazer diferente?
Totalmente. A nossa geração, ou até a geração mais jovem, quer fazer parte de uma diferença. Elas já não querem mais o emprego público, fazer concurso. Eles querem fazer a diferença. As pessoas acreditam que podem. Porém, ainda falta exemplos, modelos, inspiração, histórias de sucesso que inspirem. As pessoas daqui estão saindo do Estado. Terminam indo para São Paulo, Rio de Janeiro, para fora, para conseguirem determinado emprego ou funções, quando o ideal seria deixar essa cultura aqui e acreditar. Existem pessoas e exemplos locais querendo fazer acontecer. O que precisamos é estimular o ecossistema.

Mas não é preciso somente o esforço individual. É necessário o apoio de instituições, correto?
Existem empresários norte-rio-grandenses que são reconhecidos nacionalmente. Existe uma riqueza incrível no nosso Estado e o que precisamos é de pessoas investindo em nossos jovens talentos. O Sebrae é fundamental. Mas, o Sebrae sozinho não vai para a frente. O que eu quero dizer com isso? Para um ecossistema funcionar, você precisa de diversidade, de pessoas do Sebrae, de empresários e grandes empresas, de sonhadores. Então, eu acho que o Sebrae já faz um trabalho incrível de captar eventos como a Campus Party, mas a gente precisa de outros pilares para fazer parte dessa jornada. Um pequeno exemplo, uma pequena semente que plantamos com o Hackathon, com a vinda de pessoas de diversas áreas, é parte disso. As mudanças acontecem quando várias pessoas, de diversos segmentos, estão reunidas à mesa. A gente precisa do jovem com sede de empreender, que queira fazer parte disso. O Sebrae, dentro do Rio Grande do Norte, está fazendo um trabalho incrível. Se unindo, a gente consegue fazer um trabalho incrível. O Porto Digital, em Recife, é um exemplo disso. É preciso acreditar, sonhar grande, começar pequeno e começar a se movimentar rápido. Acho que isso é crucial.

Como surgiu a Flourish?
A Flourish, por si, começa como um trabalho de Mestrado na Universidade. Ela começa como uma ideia e como uma frustração de que sistema financeiro não existe para ajudar as pessoas a construírem seus sonhos e ajudá-las a chegar onde elas almejam. E eu já tinha trabalhado no mercado financeiro na área de crédito. Muito importante, porém, vira uma dependência. E eu queria pessoas com sonhos e com vontade de ajudá-las a criar hábitos financeiros mais saudáveis. Mas eu não sabia como. Surgiu a ideia e eu comecei a debater com outras pessoas, a compartilhar essa ideia e tive uma companheira de classe que acreditou no projeto e se engajou. Ali começou um pequeno protótipo, bem parecido com os que surgem num Hackathon, e continuamos validando, entrevistando bancos. E a gente ainda está começando. Somos uma equipe enxuta, ainda. Estamos encubados numa das melhores e maiores encubadoras do mundo, temos um produto no mercado norte-americano, estamos construindo uma equipe aqui no Brasil. A Flourish nasceu dentro da Universidade, dentro dessa infraestrutura e começamos a vencer desafios, contratamos engenheiros, construímos protótipos que não funcionaram, mas alinhamos ideias e hoje estamos operando nos Estados Unidos. O nosso sonho é trazê-la para o Brasil, para a América Latinha e o Hackathon é o primeiro passo para isso.

Quem
Pedro Moura tem 32 anos, é fundador da Startup Flourish. É bacharel em Economia e Relações Internacionais pela University of California, Davis. É mestre em Administração de Negócios (MBA) com foco em Empreendedorismo e Estratégia pela University of California, Berkeley.








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