Pedro Nava, o memorialista

Publicação: 2020-10-01 00:00:00
Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Pedro da Silva Nava, mineiro de Juiz de Fora, nasceu a 5 de junho de 1903, e morreu no Rio de Janeiro, em 1984. Os estudos do ciclo básico, Nava cursou em regime de internato:  na fase inicial, foi aluno do colégio Anglo-Mineiro, em Belo Horizonte; na fase seguinte, durante cinco anos, levado pelos tios Alice e Antonio Sales, estudou no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, sendo concluinte em 1920, na condição de laureado.  No livro Chão de Ferro, ele deixou essa reflexão, sobre seu tempo de colégio:  “O nosso período de colégio chegava ao fim. Ansiávamos por ele. Queríamos ir embora, terminar o curso, viver. (...) Não sabíamos que jamais teríamos tempo igual ao do internato, com sua disponibilidade, seu compasso de eternidade ...”

O livro Chão de Ferro está repleto de reminiscências do jovem Pedro Nava, com ênfase à vida no internato do colégio Pedro II, e dos finais de semana passados nas casas dos tios e outros parentes no Rio de Janeiro.  Há um relato que me chamou a atenção, fato – do qual eu já era sabedor – ocorrido em setembro de 1920: a visita à capital do país do rei Alberto I e da rainha Elizabeth, da Bélgica, uma gratidão ao Brasil pelo apoio aos aliados na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Da varanda da casa nº 166, da Av. Pedro Ivo, Pedro Nava, então com 17 anos, viu o rei e a rainha em desfile ao lado das autoridades brasileiras: “O Rei, a cavalo, pois ía passar em revista tropas na Quinta e no Campo de São Cristóvão. Era cor de rosbife, suava e parecia sangrar nas bochechas, de tão vermelho.  Num carro aberto, vinham atrás Epitácio e a Rainha.  Ela toda de branco, sombrinha branca, vermelha como um fiambre. Feia, mas de simpatia extrema”. Como era de praxe, o país anfitrião devia conceder ao Rei o título de Doutor Honoris Causa, mas, no Brasil, não havia universidade.  Por um ato do Presidente Epitácio  Pessoa, diversas boas faculdades foram reunidas e houve a criação da Universidade do Rio de Janeiro, a primeira do Brasil, hoje com o nome de Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma das melhores do país.  E – não seja por isso – o título foi concedido ao Rei Alberto I.  No entanto, há quem conteste essa versão. 

Em todos os livros de Pedro Nava sobressai-se o primor da escrita desse médico e escritor proclamado como o melhor memorialista brasileiro. Ele mesmo define o que é ser memorialista:  “Se eu fosse historiador, tudo se resolveria. Se ficcionista, também.  A questão é que o memorialista é forma anfíbia dos dois e ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação”.  Pedro da Silva Nava formou-se médico aos 24 anos, casou-se aos 40 – com Antonieta Penido –, começou a escrever somente aos 70 e morreu aos 80.  Sua obra memorialística, conforme definiu um dos seus biógrafos, o médico e escritor norte-rio-grandense Raimundo Nunes (1917-1990), reveste-se de autenticidade fatual, detalhe evocativo e beleza literária. Sobre a obra de Pedro Nava, disse o escritor Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), da ABL, jornalista, biógrafo e ensaísta:  “Estamos diante de um verdadeiro monumento literário, desses raros que se levantam de cem em cem anos”.  São seis os livros memorialísticos de Pedro Nava:  Baú de Ossos – 1972 –, Balão Cativo – 1973 –, Chão de Ferro – 1976 –, Beira-Mar – 1978–, Galo das Trevas – 1981– e Círio Perfeito – 1982. 






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