Pela 1ª vez, Hospital Walfredo Gurgel não recebe queimados de fogueiras e fogos

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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Ícaro Carvalho
repórter

O único centro público especializado em queimaduras do Rio Grande do Norte, o Hospital Estadual Monsenhor Walfredo Gurgel, localizado em Natal, não registrou nenhum atendimento por fogos de artifício ou fogueiras pela primeira vez desde que o hospital foi fundado, há 47 anos, em 1973. O registro pode estar associado às proibições de acendimento de fogueiras nas festas juninas em 2020, medida adotada em virtude da pandemia do novo coronavírus.

Créditos: CedidaEnfermarias do setor de Centro de Tratamento de Queimados do Walfredo Gurgel ficaram esvaziadas no mês de junho, um efeito da pandemia do novo coronavírusEnfermarias do setor de Centro de Tratamento de Queimados do Walfredo Gurgel ficaram esvaziadas no mês de junho, um efeito da pandemia do novo coronavírus

De acordo com o médico chefe do Centro de Tratamento em Queimaduras do Walfredo Gurgel, Marco Almeida, a unidade não registrou “nenhum grande caso” de queimaduras em virtude do período junino em 2020. A média, segundo ele, é de 20 atendimentos por ano, em virtude da falta de cuidados específicos e manuseios nos explosivos festivos.

“Esse ano não tivemos nenhum tipo de procura por algum acidente de fogos ou fogueiras. Normalmente, todo ano, temos pelo menos 20 casos de fogos de artifício. São casos graves, com mutilação, perda de dedos, de mãos, pedaço de mãos. Isso em relação ao que costuma aparecer mês a mês, em algumas estatísticas, aumento de até 1000%. A gente precisa ter consciência que fogos não são brincadeira”, comenta o médico, que também é secretário geral da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ).

No dia 04 de junho, a governadora Fátima Bezerra, no decreto que estendeu o isolamento social e a retomada gradual das atividades econômicas para o dia 17, um dos artigos do texto já proibia “a realização de quaisquer atos que configurem festejos juninos no Estado do Rio Grande do Norte, de modo a diminuir as ocorrências de queimaduras e síndromes respiratórias nos serviços de saúde públicos e privados”. No dia 06 de junho, uma portaria estipulou multa de R$ 2 mil, cada, para quem acendesse fogueiras ou realizasse festas juninas, além de multa de R$ 1 mil para quem fizesse uso de fogos de artifício.

Ainda de acordo com o chefe do CTQ/RN, a população ainda carece de informações e cuidados específicos no manuseio desses fogos de artifício, que caso não sejam utilizados de forma correta, podem trazer riscos sérios para as pessoas que o manipulam ou estão ao seu redor.

“Normalmente as pessoas compram, não sabem a questão da qualidade, da fabricação, e existe uma classificação que os bombeiros qualificam de o que é permitido e o que não é. Minha sugestão é que deixem isso para quem é técnico no assunto. Se for fazer shows pirotécnicos, é melhor deixar para alguém que saiba mexer com isso”, acrescenta.

O setor comemorou o fato de que a estatística chegou a zero pela primeira vez em 47 anos de atuação do CTQ no Walfredo Gurgel. Mesmo com o número, Marco Almeida comenta que compreende a questão cultural referente aos fogos de artifício nos momentos juninos, mas analisa que a sociedade precisa refletir sobre o manuseio dos fogos.

“Isso é muito relevante. Não sou contra a questão cultural das festas, mas precisamos rever algumas atitudes, hábitos, de maneira que isso possa diminuir ou mudar essa incidência de acidentes tão graves. O acidente de queimadura traz um trauma emocional, pra o resto da vida, e o físico que podem acarretar sequelas para o resto da vida. Muitas vezes as pessoas precisam ser operadas muitas vezes e nem sempre consegue se fazer restituição da pessoa 100%”, avalia.

Cenário nacional
O presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), José Adorno, comenta que acompanhou a situação das fogueiras e festas juninas pelo país. Além de comemorar a situação relativa ao RN, Adorno disse que o cenário se repetiu em outras cidades.

“Não teve em Campina Grande, em João Pessoa. Os chefes de queimados dessas áreas relataram que esse acidente não teve. Tem a cultura da fogueira, da festa junina, que é bonita, folclórica, mas os cuidados de lidar com o fogo tem de ser respeitados, para que a festa não se transforme numa tristeza e num sofrimento crônico com as pessoas que sofrem queimaduras graves e ficam sequeladas para o resto da vida”, aponta.

Com as medidas de isolamento social em virtude da pandemia do novo coronavírus, o gestor chama a atenção para outros tipos de acidentes que têm sido recorrentes nos últimos meses. Acidentes envolvendo a rede elétrica, queimaduras térmicas, e líquidos super aquecidos têm se destacado nos atendimentos do CTQ, além de casos envolvendo o álcool líquido, por exemplo, bastante utilizado para higienização das mãos. De acordo com dados do CTQ repassados à pedido da TRIBUNA DO NORTE, esses quatro tipos de acidentes representaram praticamente a totalidade de atendimentos no mês de maio, com 54 atendimentos, de um total de 59.

Até o mês de maio de 2020, período consolidado pelo setor de estatísticas do CTQ/RN, foram 273 nos cinco primeiros meses do ano, envolvendo 13 tipos de queimaduras. No ano passado, no mesmo período, já envolvendo 16 tipologias diferentes de queimaduras, o setor havia realizado 270 atendimentos.