Pelas velhas calçadas de Candelária

Publicação: 2017-09-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Mais de duas mil residências, nada de edifícios, só casas. Comércio, de nenhum tipo – para comprar qualquer coisa era preciso ir aos bairros próximos. Transporte público também nem pensar – as ruas ainda estavam sendo pavimentadas e os únicos ônibus passavam somente na BR-101. O trecho da avenida Prudente de Morais, por exemplo, era conhecido como “pedregal”, em referência a um lugar inóspito que aparecia numa novela da época. A Candelária que o escritor Humberto Hermenegildo encontrou em 1977, quando chegou para morar, foi esta – um bairro que ainda engatinhava.

Morando em Natal desde 1972, vindo de Acari, foi no novo bairro que ele pode vivenciar alguma atmosfera interiorana, depois de uma temporada residindo na movimentada Alecrim. “Eu pude, de algum modo, voltar a experimentar a sensação de um espaço mais amplo no lar, como acontecia no interior, nas minhas origens seridoenses”, diz o escritor em entrevista a TRIBUNA DO NORTE.
Quando uma parte da avenida Prudente de Morais tinha o apelido de pedregal, o escritor acariense Humberto Hermenegildo chegava  à Candelári
Quando uma parte da avenida Prudente de Morais tinha o apelido de 'pedregal', Humberto Hermenegildo chegava  à Candelária

Hermenegildo viveu em Candelária até 2003. Foi durante sua estadia no bairro que descobriu o mundo das letras. Entre os livros e a escrita, ele pode acompanhar o desenvolvimento da área, hoje, bastante reconfigurada, com inúmeros comércios, prédios de alto padrão, shopping center e grande movimento de carros. Mas, apesar das mudanças, ele ainda consegue enxergar algumas características resistentes ao tempo, como certo ar comunitário, de vizinhos que convivem próximos uns dos outros, que conversam nas calçadas.

Poeta, professor da UFRN aposentado e pesquisador da literatura potiguar, com mais de 10 livros no currículo, Hermenegildo estreou no romance em 2017, com a bem recebida obra “Rastejo”. O livro conta a saga de uma família potiguar que parte do interior em direção a capital, processo semelhante ao que o autor fez. Foi em 2017 também que o escritor foi eleito para a Academia Norte-Riograndense de Letras, como ocupante da cadeira nº 2, cuja patrona é Nísia Floresta.

Com a sensibilidade de poeta, o olhar crítico de pesquisador e o talento de romancista, Hermenegildo contou um pouco da história de uma Candelária que segue em ritmo acelerado de transformação.

Época do Garrafão
Minha casa ficava na rua Moysés Sesyom. Era um lugar tranquilo. Plantei dois pés de jambo na calçada. A minha mãe frequentava a igreja católica que, desde o início do bairro, foi um fator de agregação das famílias. Uma das personalidades mais marcantes nesse âmbito foi o Padre Vilela, já falecido. Nos primeiros anos, o “Garrafão” era o ponto mais popular de Candelária, sem a concorrência da Prudente de Morais, que ainda era uma avenida residencial. Lembro-me de um bar que ficava na esquina da minha rua, “O Pinto de Ouro”, onde era servido um delicioso chambaril. Marcou época, também, o bar “Cabeça de Bode”.

Conversas na calçada
Era muito interessante o hábito das conversas nas calçadas e a gente conhecia boa parte dos moradores, sabia quem tinha viajado, quem iria se casar, quem estava começando a fumar maconha, quem estava desempregado, quem votava em quem. Cheguei, ainda, a participar de aniversários e comemorações de formaturas, sempre em clima muito fraterno. Até hoje, vez por outra passo naquela rua e vou abraçar minha vizinha querida, Dona Ivone de Seu Felipe. Cito também o poeta Manoel Azevedo, de quem sempre fui amigo, e toda a sua família, que nós lá de casa chamávamos de “o povo da casa verde” (o pai era aluizista e pintava sempre de verde a casa).

Candelária e a literatura
Havia no bairro o espaço de cordel de seu Zé Saldanha, por trás do Natal Shopping. Mas eu não frequentei esse lugar, quem me dava notícias sobre essa inesquecível personagem era Manoel de Azevedo. Também cheguei a participar, como jurado, de um concurso de poesia promovido pelo Conselho Comunitário do bairro. Os vizinhos sabiam que eu era uma pessoa da literatura e me respeitavam por isso, chegavam até a demonstrar admiração e carinho, inclusive por causa da minha profissão de professor.

Cenário de livro
Eu gostaria, ainda, de produzir um romance que tivesse alguma parte desenvolvida nesse espaço. Acho que há uma vida pulsante nos corredores das escolas públicas do bairro. Sei, por experiência própria, que os anos de 1980 foram decisivos na transformação dos costumes. Como seria a vida urbana da juventude que chegou ali ainda criança? O que acontecia dentro das escolas noturnas e nas praças que surgiram com o bairro? Esse romance, muito provavelmente, já está “narrado” por muitos daqueles que frequentaram os diversos espaços do bairro. Há de convergir, ou não, para a escrita de alguém, quem sabe, na forma de romance.

Natal na literatura
Se a cidade tiver uma força cultural capaz de impulsionar a sua visibilidade e permanência no imaginário, então ela será transformada em matéria literária. Que sirva de exemplo o período em que a cidade foi governada por Djalma Maranhão, quando havia um grande incentivo à leitura. Se não houver leitura, como haverá a criação literária? Escrever para quem? Uma cidade “na” literatura é também uma cidade “da” literatura. A cidade é bem explorada na literatura potiguar? Sim, por Jorge Fernandes, por Zila Mamede, pelos poetas. O problema é que, às vezes, a gente não vê os poetas, mas eles existem. A literatura é como água, mas a humanidade não sabe que tem sede desse tipo de coisa.

Descaracterização do bairro
Acredito que o espaço de maior descaracterização, do ponto de vista da agregação das moradias familiares, é a avenida Prudente de Morais e as outras ruas por onde transitam os ônibus. Essa atividade sempre funciona como um chamativo para a abertura de estabelecimentos comerciais. No entanto, a maioria das edificações do bairro ainda se destina às residências e isso garante certo aconchego entre parentes e vizinhos. Acredito que a descaracterização é mais evidente para as gerações que fundaram o bairro, por causa da memória dos espaços perdidos (lugares destinados a praças, eventuais áreas verdes que foram loteadas com a especulação imobiliária). Talvez uma boa parte da população nem saiba que alguns quarteirões já foram promessas de praças e de outros espaços de lazer...

Lugares que resistem
A antiga padaria que fica nas proximidades da igreja católica, bem em frente à rotatória, faz uma bolacha excelente! Outro ponto que ainda resiste é uma antiga borracharia. O proprietário é Moacir, que não é morador do bairro, mas deve estar por lá há mais de vinte anos. Como área verde, a melhor é a Praça dos Eucaliptos. O espaço está intacto e talvez possa ser preservado para, em futuro incerto, voltar a ser frequentado tranquilamente por todos.

Por uma biblioteca no bairro
Em acordo com o CONACAN, poderia ser criada uma biblioteca pública com acervo significativo e com um programa de leitura (por exemplo, com “círculos de leituras”) que incluísse o convite a escritores locais interessados em interagir com a comunidade. Para a construção de uma memória da comunidade, seria muito interessante um programa de entrevistas com escritores e demais artistas que residem ou residiram no bairro (Alexandre Alves, Falves Silva, Manoel de Azevedo, Enoch Domingos, a família de artistas do inesquecível Severino Galvão, etc.), além de pessoas do bairro que se destacaram ou se destacam por algum motivo. Isso tudo favorece a criação e/ou o fortalecimento das identidades, mesmo que o seu efeito não pareça de visibilidade imediata.

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