Pelo direito de não sermos perfeitos

Publicação: 2018-11-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Dra. Patricia C. Palhano
Médica Psiquiatra - UFRN

Desde os tempos remotos da História, pacientes com transtornos mentais não eram vistos como doentes, mas sim como “possuídos por entidades malignas” ou “loucos”. Não nos resta dúvidas do porquê de, ainda hoje, o fato de “ir ao Psiquiatra” poder  representar um imenso tabu para boa parte da sociedade. Todavia, quando nos dedicamos a pensar com mais cuidado, percebemos que, a avaliação de um paciente, com a compreensão dos quadros clínicos que apresenta e do contexto sociofamiliar em que isso se manifesta, ocorre em todas as áreas médicas: Infectologia, Cardiologia, Endocrinologia, dentre as demais. Em outras palavras, da mesma forma que podemos desenvolver uma 'diabetes' ou uma 'hipertensão', podemos padecer de doenças da mente, em qualquer momento da vida. A Psiquiatria é a especialidade da Medicina destinada a prevenir, identificar, tratar e reabilitar pacientes com as mais diferentes formas de sofrimento mental.

Movimento Saúde
Todas as pessoas estão sujeitas a passar por algum tipo de transtorno mental

E como saber que estou em sofrimento mental?!

Veja a seguir dez sintomas que sugerem que você deve procurar ajuda médica especializada:
Tristeza acentuada por mais de 15 dias;

Alterações relevantes de humor;

Ansiedade;

Preocupação antecipatória excessiva;

Medos maiores do que as potenciais ameaças, em si;

Agressividade  exacerbada;

Insônia;

Comportamentos  obsessivos;

Pensamentos ditos incontroláveis;

Confusão mental;

Perda de memória;

Idas frequentes ao pronto socorro com ataques de “nervoso” (o paciente acha que vai infartar).

Todos esses são sintomas que, ao atrapalhar sobremaneira a vida de um indivíduo, ao interferir em todas as suas esferas de relacionamento e de desempenho, podem indicar a necessidade de uma avaliação mais profunda e especializada.

Muitos dos pacientes se perguntam: Por que eu?! Esta é uma pergunta simples de ser respondida.

“A gênese dos transtornos mentais: genética + ambiente.”

O surgimento e a causa dos transtornos mentais pode ser explicado, grosso modo, pelo resultado da interação  entre informações genéticas e meio ambiente em que se vive. Por este último, entenda-se experiências traumáticas vividas.

“Experiências traumáticas vividas podem estar ligadas ao desencadeamento de transtornos mentais.”

Esmiuçando o que acabamos de falar, é possível que tenhamos a informação genética favorável ao desenvolvimento de transtornos mentais mas que, ainda assim, ele não se desenvolva, a depender das vivências do indivíduo. Da mesma maneira, informações genéticas dotadas de menor força de expressão podem vir a se manifestar precocemente, caso o indivíduo tenha sido exposto a experiências traumáticas prematuras.

Exemplos de experiências traumáticas:

Ser fruto de gestação indesejada;

Abandono por parte da família;

Maus tratos na infância;

História de abuso sexual;

Ambiente familiar conturbado;

Somam-se aos fatores acima descritos, o fato de vivermos  tempos de uma sociedade afeita aos mais diversos tipos de ilusões. Pessoas sorridentes, felizes e equIlibradas, casamentos bem-sucedidos e famílias unidas em viagens harmônicas, corpos ditos “sarados”, sucesso profissional, são alguns dos protótipos  que  estampam as redes sociais todos os dias e fazem-nos sentir cronicamente frustrados por não alcançar um padrão irreal de quase tudo. Um mundo moderno cheio de correria, necessidade crescente por dinheiro, menos tempo para a convivência não-virtual e a, também falsa, impressão de que temos de ser “super” o tempo inteiro: super mães, super país, super filhos, super cônjuges, super profissionais, super amigos, super “seres humanos”. Não adianta: existe uma tendência universal a sucumbir a tamanha pressão. As pessoas simplesmente não dão conta.

Ainda existe muito preconceito voltado para as pessoas que padecem ou que estão parecendo de um momento de sofrimento psíquico. Não é incomum que elas sejam friamente rotuladas como preguiçosas, desejosas de chamar atenção, fracas, pessoas de pouca fé. Santa ignorância! É preciso disseminar informações sobre saúde mental a fim de humanizar as relações, a fim de  ser possível identificar e ajudar pessoas em redor.

A era dos coachs, dos ditos mindsets de crescimento pode nos levar a uma errônea interpretação de que tudo é uma questão de “força de vontade”. Pessoas podem e devem se implicar nas próprias questões ou tratamentos, mas o alívio do sofrimento não depende exclusivamente disso e, reforce-se: Por mais que você se esforce, alguém('ns') simplesmente não reconhecerá('rão'). Falta compreensão; sobra arrogância e, diga-se de passagem, toda ela esconde um grande abismo interno. Ouve-se muito falar, também, em “energia”: Afaste-se de gente com energia pesada! Mas mais uma vez, não se sabe analisar criticamente o que se escuta. Nem tudo é questão de energia! Este tipo de pensamento acaba corroborando para a instalação de uma individualidade indiferente.

E como se pode ajudar alguém em sofrimento psíquico?! Identificando que, talvez, aquela pessoa precise de auxílio médico e conversando sobre isso com ela ou com seus familiares. Apoiando-a. Estando junto. Respeitando seus silêncios e oferecendo uma escuta compreensiva. Procure o Médico Psiquiatra!

Como diria a (sensacional) propaganda de uma grande empresa de telefonia móvel, 'rótulos não nos definem' e nem podem nos definir. Há de se  aprender a não acreditar que se é  o que os outros acham que se é, tenhamos ou não um diagnóstico psiquiátrico. Somos pessoas, diferentes, reais, com genéticas, histórias, experiências, situações e possibilidades próprias e únicas.

Clamamos por um mundo mais humano. Por uma vida mais real! Alegrias, tristezas, realizações, frustrações, saúde, doença, quilos a mais, quilos a menos, desentendimentos e pazes, possibilidades e impossibilidades, equilíbrios, desequilíbrios, reequilíbrios... Tudo dentro daquilo que você pode ser.. Por menos venda de conceitos ideais (e irreais!). Pelo direito de não sermos perfeitos!


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