Pelo Seridó de Boi de Prata

Publicação: 2018-06-10 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Antes de vir morar em Natal, em 2003, a paulista Flávia Assaf conheceu o Seridó. Não presencialmente, mas de ouvir histórias de seridoenses que cruzaram seu caminho nas andanças pelo Brasil. Eis que ao chegar na capital potiguar, movida pela curiosidade de se inteirar da produção cinematográfica local, ela se depara com a existência de um filme raro, visto por pouquíssimas pessoas e praticamente esquecido, cujas filmagens se deram em pleno sertão de Caicó, entre os anos 78 e 79. O filme é “Boi de Prata”, do caicoense Augusto Ribeiro Jr., feito em sintonia com o movimento do Cinema Novo e trazendo abordagens sobre o sertão nordestino no que se refere a sua paisagem, população e folclore.

Nas cenas de Boi de Prata, filme de Augusto Ribeiro Jr., se desenvolve uma história com prosa e verso da região do Seridó de 1978
Nas cenas de Boi de Prata, filme de Augusto Ribeiro Jr., se desenvolve uma história com prosa e verso da região do Seridó de 1978

Publicitária, produtora audiovisual e pesquisadora, Flávia decidiu ir atrás do filme e de tudo que envolve a produção da obra. Foram três anos dedicados a essa árdua tarefa, cujo resultado ela apresenta ao público neste domingo (10), no Festival Goiamum, com o lançamento do livro “Boi de Prata: estreia do sertão do Seridó no cinema terceiro-mundista brasileiro”. A publicação é um desdobramento de sua dissertação de mestrado. O lançamento compreende a programação do seminário “Boi de Prata - 40 anos pensando o Brasil a partir do sertão do RN”, que acontece entre 16h30 e 18h, no Solar Bela Vista (Cidade Alta), com entrada gratuita. Participam além de Flávia, os realizadores Augusto Lula e Fabio DeSilva. Na ocasião também será exibido o documentário “Devorando o Boi de Prata”, de Marcia Lohss, Jean Johane e Raquel Dié. Às 18h30, o público terá a oportunidade de a assistir o filme homenageado, numa cópia digitalizada de “Boi de Prata”.

Publicitária e pesquisadora, Flávia Assaf descobriu um filme raro que se passava no sertão do Seridó de 40 anos atrás
Publicitária e pesquisadora, Flávia Assaf descobriu um filme raro que se passava no sertão do Seridó de 40 anos atrás

“Antes de Boi de Prata outros filmes já haviam sido feitos no RN, mas não como ele, que contou com um diretor daqui, atores potiguares, equipe de produção local e com história que fala do Seridó, da prosa e verso da região. Por esses aspectos, pode-se dizer que Boi de Prata foi o primeiro filme do RN”, diz a pesquisadora por telefone a TRIBUNA DO NORTE. Nesta entrevista, dentre vários assuntos, Flávia conta detalhes da produção do filme que por tantos anos foi sua área de estudo.

Um Seridó forte
Boi de Prata mostra um Seridó seco, esse sertão que se conhece desde sempre, onde quem sobrevive é, antes de tudo, um forte. Ele usa essa imagem tradicional. Mas ele também constrói um outro Seridó. Ele mostra um Seridó em que o sertanejo não sofre calado. Ele reage. O lugar é o Seridó, é o RN, o Nordeste, o Brasil, o Terceiro Mundo.

Discurso revolucionário
O Augusto Ribeiro costumava chamar a atenção para as imagens do filme. E de fato as imagens são lindas. Foi o primeiro trabalho de Walter Carvalho como diretor de fotografia em um filme de ficção. Mas isso era um modo do diretor desviar o foco e evitar problemas. Porque na verdade o filme tinha um discurso revolucionário forte. Era muito violento. Tem cenas com personagens cheirando cocaína, seios nus. Dos filmes que tratam do Nordeste com uma abordagem de conflito com os estabelecido, seja do Cinema Novo até os anos 80, Boi de Prata é o único que os revoltosos vencem o confronto com os opressores. Nos outros, quem se revolta acaba morrendo.


O filme traz no elenco atores locais e de outros lugares
O filme traz no elenco atores locais e de outros lugares

Os oprimidos se rebelam
A temática do filme continua atual. No Seridó, desde a chegada dos colonos, com seus gados expulsando os índios de suas terras, até hoje se convive com fortes disputas de terra. Mas no filme de Augusto Ribeiro, os explorados se rebelam. Ele conhecia um pouco dessa situação. Seu avô era dono de muitas terras em Caicó. O bairro de Boa Passagem, pra você ter uma ideia, fazia parte de suas terras. Algumas cenas foram filmadas na fazenda de sua família, a Casa Grande foi usada como cenário.

Promover a autonomia
A idea do Cinema Novo de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” não é verdade. Aqueles caras tinha um profundo entendimento filosófico, especialmente o Augusto Ribeiro. Ele lia muito. Era um homem culto, ligado nas coisas do seu tempo. Conviveu com a turma do Cinema Novo, fez UNB quando a universidade estava agitada. Ele se preocupava com a conscientização das pessoas. Seus trabalhos incentivavam a autonomia.

O filme foi feito em sintonia com o Cinema Novo que aflorava na época. A produção mostra a vida no sertão nordestino
O filme foi feito em sintonia com o Cinema Novo que aflorava na época. A produção mostra a vida no sertão nordestino

Preocupado com temas atuais
Naquela época, a Ditadura pensava em alternativas para enfrentar a seca. Uma delas era incentivar a exploração de minérios no sertão. É uma atividade que não depende do clima. O filme trata disso. Augusto Ribeiro dramatiza em algumas coisas, mas não foge de falar do contexto real da época.

Cultura popular
A questão do boi aparece de várias formas. Existe o boi físico, os boi dos versos de cordel, o boi calemba. Essa simbologia com o boi está no filme o tempo todo. E o antagonista, que chega de Londres pra assumir a fazenda, passa por cima de tudo. Mata o vaqueiro, que representa a pecuária, e ameaça o poeta, que representa a cultura popular. Mas o troco vem justamente numa brincadeira de Boi Calemba, quando o poeta sai de baixo da armação do boi para furar o fazendeiro. É a cultura popular parindo o herói.

Um cineasta de raízes fortes
O Augusto Ribeiro nasceu em Caicó, veio morar em Natal com cinco anos, depois, quando seu pai foi transferido para trabalhar no Banco do Brasil em Brasília, ele foi junto, onde cursou cinema na UNB. Mesmo fora do RN, ele nunca perdeu a relação com seu estado nem com o Nordeste. Seus filmes eram filmados na região, sua equipe de filmagem era de nordestinos. Por um tempo ele chegou a tentar montar um pólo de cinema no RN. Por aqui ele foi bastante amigo de Racine Santos, Franklin Jorge, Mirabô.  Não bebia, nem fumava. Tinha asma. Morreu em 1994.

Boi de Prata é um filme potiguar, mais precisamente do caicoense Augusto Ribeiro Jr.
Boi de Prata é um filme potiguar, mais precisamente do caicoense Augusto Ribeiro Jr.

Sessões para poucos
Algumas pessoas de Caicó me contaram sobre a exibição do filme (em 1980). Também encontrei algumas notas em jornal. Em Natal (em 1981), a situação foi diferente. O governador era Lavoisier Maia e a primeira dama era Wilma de Faria, que tinha um projeto social. A sessão do filme foi promovida de modo que a bilheteria fosse revertida para o projeto dela. Foi uma sessão só para convidados do governo. Até a equipe do filme ficou de fora. Depois o filme foi exibido em festivais de cinema de Brasília e Niterói. Mas nunca de fato entrou em cartaz.

Sem distribuição
Algumas pessoas falam que o filme foi proibido. Mas isso não é verdade. O filme não foi distribuído. O motivo não dá para saber porque não existe documento sobre isso. Na minha opinião, o que prejudicou a distribuição foi que o filme envelheceu. Ele tem muito a cara dos anos 70, a atuação, a estética, tudo lembra os anos 70. E nos início dos anos 80, quando o filme fica pronto, o que estava nos cinemas era “Bye Bye Brasil”, do Cacá Diegues, de ar moderno. Dessa forma Boi de Prata ficou envelhecido e gerou desinteresse. Mas não dar para concluir nada quanto a isso. No livro, apenas lanço hipóteses.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários