Pequenos voos aleatórios

Publicação: 2020-01-26 00:00:00
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Livio Oliveira
advogado público e escritor/livioalvesoliveira@gmail.com

A NECESSIDADE DE ESCREVER se traduz em ouvir a própria voz e encontrar nas palavras a essência vital. É como doar sangue. Tem uma hora que, se não acontecer, vem uma coceira, um embotamento do pensar, um desespero mesmo. Nada a fazer, a não ser rolar a ponta do lápis sobre o papel, buscando a seiva que dele escorrerá e pingará sobre os pés descalços da verdade interna.

2. JULGAR A ARTE alheia não é algo fácil. Tento sempre observar e apreciar com benevolência. Se o esforço se transformar em sofrimento, termino abandonando a tarefa. Pode ser livro, filme, peça de teatro, canção, obra visual ou até mesmo a arte anedótica que alguns teimam em manter nas conversas. O difícil, às vezes, é desviar o olhar, distrair a própria audição, fugir do incômodo reiterado do invasor de paciências.

3. AS HORAS ADIANTADAS me lembram sempre que não sou eterno. As inquietudes íntimas podem ser um sinal de que não me resigno com isso. Mas não há mesmo o que fazer, a não ser criar. O ato de criação permite a certeza de que nossos fragmentos serão lançados ao solo, com a intenção de que brotem e continuem o movimento da vida. Cada pequena criação pode significar uma semente ou um ramo do nosso ser. Por isso, continuo na inquietude, seja lá qual for o resultado disso. E na criação. Uma certeza? Sim. Enquanto há vida, há vida.

4. NOVAS BANDEIRAS tremulam a cada despertar. Não se pode viver estanque ou acomodado. Não se pode estacionar, nem se resignar. Na vida, o movimento e a narrativa dão o importante sentido. É não parar, a não ser para revisar a carta náutica, a carta de marear, o plano. Prosseguir no sentido das ondas, que o mar nos leva e traz como nas primeiras águas, aquelas que nos nutriram e embalaram no ventre materno.

5. A NECESSIDADE DE OBSERVAR provoca a atenção e a refina. É imperioso perceber o campo aberto para o ingresso das palavras, associar-se a elas em prol da edificação de um pequeno castelo, morar nesse castelo e nele guardar e amar a princesa que se instala no pensamento e na ponta do grafite.

6. UMA HARMÔNICA toca longe, desliza. Não é um instrumento comum por aqui, nestas bandas. As excentricidades são permitidas e o som se eleva, atravessa o quarteirão e se aloja naqueles ouvidos, que não esperavam, antes não percebiam. Algo que chegou célere, algo perdido, algo recebido com leveza, prazer, pelas suas belezas recônditas, pelo seu componente de sedução. As notas tocaram aquela pele e ela se arrepiou, unindo-se à melodia, vencida em êxtase.

7. ENTRE OS LIVROS passeio alerta. A impressão é a de que serei surpreendido por algum dos personagens ou por algum dos autores se projetando para fora dos volumes de papel. Talvez eu sonhe mesmo com isso, para minimizar a minha solidão crônica, internalizada em meio a tantos prazos e prazeres, diante das angústias paralisantes e dos estímulos e desafios dolorosos, mas realizadores, esses que nos levam de verdade para um lugar melhor, mesmo que enfrentemos eventuais e aparentes derrotas. Até porque a vitória vem mesmo é com a manutenção do barco nas águas azuis, oceânicas, para que a experiência não se dissipe e os fragmentos da gente sirvam para a construção de novos caminhos.

8. A DANÇA É ÚNICA. Aceite o convite e ingresse no salão. Não tenha medo. Nem adianta ter medo. A vida é movimento e narrativa. Temos que nos manter na estrada, no mar, no ar. Não parar jamais. Temos que olhar com telescópio o mais longe possível, perscrutar os nossos quintais, onde há mistério e cor e memórias dos ancestrais. Temos que investigar também cada microcosmo, como se fosse um livro bom. A coragem é a essência. Quando não houver mais coragem, é aguardar a morte. Mas ela não é nossa amiga, a morte. Ela é só uma enganadora, como as meretrizes de esquina, que um dia nos ensinaram a esconder dores e simular o amor. O que vale é amar de verdade. O que vale é a verdade. É o que vale.

9. SER SUBESTIMADO pode ser bom. Pode ser a deixa para o drible nos incautos, crescer para o lado e adiante, em formato de L. Sempre é assim. Não se deve desprezar a oportunidade, a chance única que a gente mesmo cria. Só a gente. Só. Seguir, seguir, seguir, sempre aperfeiçoando a forma, sempre alimentando os conteúdos. Há os que se veem aptos a tudo, até ao refinamento das sensibilidades. Espanta-me a quantidade de pretensões que desperdiçam, apontando os dedos finos e pontudos, como lápis, fazendo a mesma acusação, trocando os sinais e confundindo os valores. O que vale é ter princípios. Daí, tudo se alcança, todo sonho. O resto, no entorno, é inveja e falta de amor. Mas a gente ama. E ama. E ponto.

10. TODOS DORMEM. Só eu continuo em vigília. Desde sempre tive essa sensação, enquanto caminhava solitário pelo Barro Vermelho, a qualquer hora, observando toda a cena ao redor. Não conseguia entender o porquê de não ter na mente um dispositivo que me desligasse. Era quase tudo perplexa observação e eletricidade corporal e na mente. Hoje repito isso, aguardando passar a próxima coleção de brisas, para entender que a pele ainda sente a vida em movimento.