Peregrino e outros talentos

Publicação: 2019-08-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Diógenes da Cunha Lima
Escritor, advogado e presidente da ANL

Há pessoas leves e luminosas, que, naturalmente, produzem um bem-estar nos circunstantes. Assim foi o escritor natalense Peregrino Júnior (1911 – 1983), que honrou a Academia Brasileira de Letras e a nossa Academia.

Viveu mais tempo no Pará e no Rio de Janeiro, mas o Rio Grande do Norte é a terra idílica, a sua idade do ouro, como registrou Arnaldo Niskier que também acentua o seu companheirismo, o bom-humor de quem possui certa ternura. Teve vida gloriosa, no sentido dado por Machado de Assis: “a glória que fica, eleva, honra e consola”.

Passando alguns dias no Rio de Janeiro, fiquei angustiado por ter perdido os óculos, extensão do meu corpo, companheiro indispensável. Genibaldo Barros teve a inspiração feliz de procurarmos o Dr. Peregrino. Este nos recebeu com afeto e amabilidade, ampliados pelas lembranças comuns de conterrâneos e de família e, ainda, disponibilizou-nos oftalmologista e ótica. Durante as rememorações, lembrei a amizade com Seabra Fagundes, que eu tinha visto em congressos jurídicos, sempre aplaudido de pé. Outro irmão, Humberto Peregrino, fez no Rio um sítio nordestino, o encantado São Saruê. Certamente, o nosso médico puxou ao seu pai, João Peregrino “sempre com um sorriso a lhe aflorar os lábios” como testemunhou Paulo Viveiros.

Ribeiro Couto afirmara que a cordialidade brasileira é obra da civilização e Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, cunhou a expressão e sentido de “o homem cordial”. No discurso de saudação na Academia Brasileira de Letras-ABL (25.7.46), Manoel Bandeira identificou Peregrino Júnior como protótipo: “Sois por excelência um homem cordial”.

Um episódio pitoresco foi recentemente relatado por crônica em “O Estado de São Paulo”. Nos idos de 30, o ministro Gustavo Capanema deu brilho ao seu ministério com os melhores intelectuais. Convocou, entre outros: Carlos Drummond de Andrade (chefe de gabinete) e os assessores: Sérgio Buarque de Holanda e Peregrino Júnior. No jornal, Humberto Werneck transcreve uma carta de Manoel bandeira a Gilberto Freyre em 17 de janeiro de 1935: “A namorada (irmã da Germaninha) foi requisitada para trabalhar no Ministério da Educação. O Carlos Drummond engraçou-se com ela, uma coisa à toa, e o nosso Sérgio entrou pelo gabinete um belo dia e atracou-se com o Carlos. Acudiu o pessoal, o Peregrino levou uma sobra na cara, e o Sérgio gritava indignado para o Carlos: ‘Seu poetinha de merda!’”.

A proclamada cordialidade de Peregrino Júnior foi premiada com tabefe mal direcionado, quando tentava apartar a briga, mas depois serviu para reconstruir a paz entre o antropólogo de raiz e o genial “poetinha de merda”.

Peregrino Júnior foi sempre um homem solidário, de humor prestante, criador de chistes, com alegria de viver. Já muito doente, foi encorajado por um amigo que lhe garantiu que a saúde voltaria e ele iria viver muitos anos. Consciente da gravidade do seu estado, respondeu: “Aceite essa confidência: não vim para ficar, sou um peregrino”.





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