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Persuadir é dominar a linguagem
Publicado: 00:00:00 - 31/07/2022 Atualizado: 11:37:41 - 30/07/2022
João Maria de Lima
Professor

A linguagem é uma ciência e uma arte, muito parecida com a arquitetura, a matemática ou a engenharia. Há as boas e as más construções. Evidentemente, as boas construções valem mais, legam funções melhores e duram por mais tempo.

Há milênios, quando as pessoas começaram a observar que existiam formas e mecanismos de linguagem que tornavam mais fácil a exposição de ideias e o convencimento das pessoas, a leitura e a comunicação escrita passaram a ser um privilégio, o que tornava uma minoria de alfabetizados uma elite muito restrita de felizardos com acesso ao conhecimento. Para se ter uma ideia, muitos reis europeus daquele tempo eram analfabetos funcionais, e, por isso, tornavam-se dependentes do clero culto até para escreverem simples decretos.

O filósofo britânico Sir Roger Scruton diz que se não lemos (livros, é claro), se estamos presos apenas à televisão e à internet, se só vivemos o tempo presente, e se desconhecemos nossa história pessoal e a História da sociedade em que vivemos, então nosso passado vira um baú fechado, que guarda coisas das quais jamais poderemos desfrutar.

Para ele, ao viver apenas na ignorância do presente, estamos irremediavelmente escravos de uma ditadura terrível. Tal como os camponeses da Idade Média, condenados a apenas existir e trabalhar sem parar até a morte.

A origem do discurso persuasivo surge quando o homem percebe que se comunicar bem significa alcançar determinados objetivos - sejam eles objetivos de poder, de manutenção da ordem vigente, ou vendas, resultados, encantamentos, atração da atenção, enfim. A origem vem da necessidade, e a necessidade nunca foi tão grande quanto agora.

Um ponto fundamental que não pode ser esquecido é: falar e escrever bem geram admiração, apreço e projetam uma boa imagem para os nossos ouvintes e interlocutores. Consequentemente, aumentamos a rede de contatos, adquirimos mais créditos e ampliamos nossas oportunidades.

Escrever bem nos faz ler melhor. Ler melhor nos faz absorver mais informações em uma quantidade menor de tempo. Resumo: atingimos nossos objetivos com larga vantagem em relação a quem não tem essas habilidades.

Há uma frase que diz o seguinte: “Você deve temer mais a ira de um escritor, de um bardo ou de um poeta do que a ira de um guerreiro”.  E ela faz muito sentido, pois, se causamos a ira de alguém que maneja as palavras como um samurai manejava sua espada, certamente sairemos dessa experiência lamentando. Afinal, escrever bem, seja qual for o objetivo - vender areia no deserto ou perturbar um inimigo, dá no mesmo -, depende não apenas da escolha certa das palavras, mas de identificar previamente as dores daquele que você quer atingir.

O bom texto tem o poder de transportar o leitor de um lugar para outro ou de lhe provocar reações físicas. Quem nunca foi às lágrimas diante de uma narrativa? Ou sentiu o coração bater mais forte durante uma boa leitura?

Outro exemplo do poder das palavras é a história de Marco Licínio Crasso.  Ele foi um político e militar romano. Chegou a ser o homem mais rico do Império. Ao liderar uma campanha contra o Império Parta, Crasso cometeu um erro terrível na Batalha de Carras, que custou uma grande derrota a Roma. Mais que isso: custou a morte dele. Foi um erro militar tão primário que a palavra “crasso” virou adjetivo. Mais de 2 mil anos depois de sua morte, ainda dizemos que Fulano cometeu “um erro crasso”.

Por fim, cabe lembrar que nem o mais valente dos guerreiros luta para sempre. Assim como nem o mais poderoso dos feiticeiros é capaz de lançar uma maldição que dure trezentas gerações. Contudo, o bom redator tem a capacidade de vencer a barreira do tempo e manter as suas ideias vivas atemporalmente.

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