Pesquisa busca bactérias que eliminem o petróleo cru

Publicação: 2020-02-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Um grupo de 10 pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) busca desenvolver um produto para eliminar o petróleo proveniente do desastre ambiental ocorrido em agosto do ano passado, que atingiu toda região Nordeste, Espírito Santo e Rio de Janeiro, e tentar diminuir as consequências do material químico no ambiente. O produto seria composto de bactérias que se alimentem de hidrocarbonetos (que formam o petróleo) e seria uma forma mais barata e sustentável do que outras formas de destruição, como a incineração.

Créditos: Magnus NascimentoPesquisa é liderada pela professora titular do Departamento de Biologia Celular e Genética da UFRN, Lucymara Agnez Lima, e foi selecionada pela CapesPesquisa é liderada pela professora titular do Departamento de Biologia Celular e Genética da UFRN, Lucymara Agnez Lima, e foi selecionada pela Capes


Liderados pela professora titular do Departamento de Biologia Celular e Genética da UFRN, Lucymara Agnez Lima, os pesquisadores irão testar em laboratório diversas bactérias no petróleo coletado nas praias do litoral nordestino para verificar se os microrganismos são eficazes na destruição desse material. As bactérias da pesquisa fazem parte de um banco de microrganismos do Laboratório de Biologia Molecular e Genômica (LBMG), que existe há 10 anos na universidade, e foram testadas anteriormente em outras pesquisas com petróleo. Elas não são patogênicas.

"Nós temos um banco de microrganismos selecionados em 10 anos de pesquisas. Algumas bactérias degradam petróleo, outras produzem biossurfactantes, que são moléculas que ajudam a capturar o petróleo do ambiente. Nós fizemos todo trabalho em laboratório, pesquisando a biologia desses organismos. Agora vamos tentar formular o que se chama de 'consórcio microbiano', que seria juntar algumas espécies (de bactérias) e verificar se nesse tipo de petróleo encontrado elas são eficazes", explica Lucymara Agnez.

A analogia feita pela pesquisadora para simplificar o processo que o petróleo sofre em contato com as bactérias é a de que o material químico serve como alimento para o desenvolvimento dos microrganismos. "Da mesma forma que a gente consome azeite, as bactérias também usam hidrocarboneto para fontes de energia e carbono. Ela consome a molécula para se multiplicar, produzir proteínas e outros componentes celulares. Se o processo é completo e total, o resultado é o mesmo da nossa respiração, que é dióxido de carbono (CO2) e água."

Um desafio da pesquisa é saber quais bactérias conseguem degradar o tipo de petróleo vazado, que é muito viscoso (denominado óleo pesado). Segundo Lucymara Agnez, esse material é diferente dos testados no laboratório até então, que são menos densos. A partir da identificação, um "consórcio" de diversas bactérias é criado com o objetivo de aumentar a efetividade da eliminação. Cada microrganismo consome um material químico diferente presente no petróleo.

A pesquisa tem duração inicial de dois anos e vai receber financiamento da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal e Nível Superior), conseguido através de um edital aberto pela fundação com o objetivo de incentivar o desenvolvimento de estudos voltados para o vazamento do petróleo. O financiamento é de R$ 100 mil e uma bolsa de mestrado, valor suficiente apenas para o desenvolvimento do consórcio em laboratório. A aplicação no ambiente vai precisar de mais recursos.

"Entre tratar um grama de petróleo no laboratório e uma tonelada há uma distância bem considerável. Então, o que vamos buscar é validar o modelo no laboratório. O escalonamento (passar do laboratório ao campo) seria um outro projeto. Em laboratório você cultiva 1 litro de bactéria, mas para tratar uma tonelada você tem que ter um volume de cultivo muito maior", afirma Lucymara Agnez.

Biorremediação é pouco desenvolvida no País
A pesquisa desenvolvida pelos cientistas do Laboratório de Biologia Molecular e Genômica faz parte da área de estudos da biorremediação, ainda pouco desenvolvida no Brasil e em toda América do Sul, segundo a pesquisadora Lucymara Agnez. Por conta disso e do baixo orçamento conseguido até então, Lucymara considera o objetivo mais como aprendizado com o desastre do que solução do problema. "A gente já teria que ter esses remediadores prontos no momento em que houve o desastre. Vamos ter que aprender com isso para nos preparar para outros eventos", afirma.

Créditos: Adriano AbreuMaterial da pesquisa foi coletado no litoral nordestino proveniente do desastre ambientalMaterial da pesquisa foi coletado no litoral nordestino proveniente do desastre ambiental

"Nós temos que desenvolver primeiro o que seria o protótipo (do consórcio) e depois transferir isso para a iniciativa privada etc. Entre sabermos que o consórcio funciona e ter toda condição de escalonamento, a pesquisa leva anos e envolve outras áreas. Escalonamento, por exemplo, precisa da engenharia bioquímica", complementa.

 Na avaliação da pesquisadora, a situação de atraso com relação ao desastre é gerada tanto pelo fator imprevisibilidade quanto pelo baixo desenvolvimento de pesquisas na área. "Desastre é desastre, você não tem uma probabilidade. Mas se você tem várias empresas operando petróleo no mundo, isso é óbvio que em algum momento pode acontecer. Comparado a outros países, o investimento do Brasil em pesquisa é menor. A proporção de doutores pela população é bem menor. Não existe país desenvolvido que não invista em ciência e tecnologia."

Ainda segundo Agnez, existem outras formas de destruição de petróleo, mas a grande vantagem da biorremediação é ser mais barata e não deixar resíduos tóxicos, como a incineração. A desvantagem é que para cada problema é preciso o desenvolvimento de um novo conjunto de microrganismos. "Não existe um pacote padrão que usa em qualquer lugar. É uma área que demanda um tempo maior de investimento e pesquisa porque você tem que desenvolver o produto. Tudo isso está ligado também ao local onde você vai usar. Cada organismo tem condições de PH, temperatura, salinidade", explica.

O grupo de pesquisa também tenta captar recursos através de outros editais e pretende criar uma empresa para desenvolvimento da pesquisa através da iniciativa privada e prestação de serviços. Agnez afirma que a área necessita de mais investimento para ser eficaz em todo mundo. "De todo universo de espécies estimadas para microrganismos, a humanidade só consegue cultivar em laboratório 1% das espécies. Toda microbiologia conhecida é baseada em 1% de espécies cultiváveis e 99% das espécies não são cultiváveis em laboratórios ainda. É um universo desconhecido. Tudo que a gente sabe sobre microrganismos é baseado em minoria", conclui.

A pesquisa foi concebida na Rede Nordeste de Biotecnologia, coordenada por Lucymara. Após as primeiras aparições do petróleo, pesquisadores de diversas localidades se reuniram para ver como poderiam diminuir as consequências do desastre e aprender com ele para se prevenir nos próximos. Universidades de outros estados, como Ceará, Pernambuco e Alagoas, desenvolvem pesquisas semelhantes.







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