Pesquisa escancara desigualdade nos times de futebol

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Itamar Ciríaco
Editor de Esportes

O futebol do Nordeste reproduz os tantos problemas que a estrutura do calendário do brasileiro apresenta. Enquanto os grandes clubes nordestinos disputam alguma das divisões do Campeonato Brasileiro e ainda contam com a Copa do Nordeste, que voltou de forma positiva para a futebol na região, os clubes pequenos mal conseguem manter suas atividades por conta da baixa quantidade de jogos. Se disputar muitos jogos pode ser prejudicial para os grandes, para os clubes menores a falta deles aliada à curta duração das poucas divisões estaduais torna inviável qualquer projeto de desenvolvimento a longo prazo.

Créditos: Reprodução/Tribuna do NorteA grande maioria dos clubes nordestinos joga apenas os primeiros meses da temporada regularA grande maioria dos clubes nordestinos joga apenas os primeiros meses da temporada regular

A realidade regional, exposta pela pesquisa da Pluri Consultoria, com dados referentes a 2019, também é reproduzida no rio Grande do Norte e alguns números alarmantes corroboram estes problemas levantados. Apenas 41% das cidades nordestinas contaram com clubes de futebol disputando competições profissionais em 2019. No caso específico potiguar, apenas 3,8% dos 167 municípios possuem clubes profissionais.

Esses números colocam o RN apenas como a 19ª unidade de federação (entre as 27) com mais clubes de futebol em atividade  em 2019, ao  todo  foram 13,  e  a 21ª  em  número  de  cidades  que  contaram  com algum desses clubes, 7.

A capital potiguar, de acordo com o estudo é  o  município  potiguar  que  conta  com  mais  clubes  profissionais  em  atividade  no estado (6), em 2019. Curiosamente, São Gonçalo do Amarante, cidade conurbada com Natal, aparece como a   mais  populosa do  Rio  Grande  do  Norte  (102.400 habitantes) a não contar com um clube profissional em atividade no ano de 2019. Para piorar, o município que possui o aeroporto é também o mais rico (1,4 bilhões de R$ de PIB” a não contar com uma equipe profissional.

São Gonçalo chegou a ter uma das equipes mais fortes a disputar o Campeonato Estadual do Rio Grande do Norte. O time que levava o nome da cidade e tinha o apelido carinhos de “Touro” chegou a fazer frente à ABC e América várias vezes, no entanto, sumiu do mapa tão repentinamente como teve sua ascensão.

O presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol, José Vanildo considera que o desaparecimento, ou afastamento dessas equipes do interior se deve ao sumiço de alguns beneméritos que deram força econômica e política a esses times. Nas demais situações, de acordo com o dirigente, os problemas locais são semelhantes ao que acontece nos demais estados brasileiros.

“Sou do tempo do Coríntians de Caicó campeão com a força do vereador Lobão, a força do atual prefeito de Natal, Álvaro Dias, tínhamos o ASSU com um prefeito forte, Daílson Machado, que também foi campeão estadual, o Potiguar de Mossoró com a tradição de apoio empresarial, tínhamos o Baraúnas de João Dehon. Ou seja, o problema foi o desaparecimento de beneméritos. Na proporção que esses somem pelas dificuldades econômicas e pelo avanço e profissionalização do futebol no contexto geral do esporte, há uma tendência natural ao prejuízo dos clubes. Lembrando que todos aí tinham a força política. Quando você soma isso, as coisas são diferentes. Tivemos por exemplo o Santa Cruz com o deputado Tomba, tínhamos Marconi Barretto, muito forte em Ceará-Mirim. Então, existe apenas a diferença de ABC e América devido a presença maior do profissionalismo, mas no geral as dificuldades são falta de apoio, amadorismo, falta de investimento nas bases e o desinteresse público, que poderia aproveitar a ferramenta futebol como instrumento de divulgação”, explicou.

Na visão do dirigente da FNF, a associação entre o público e o privado ajudariam no desenvolvimento do futebol nas cidades interioranas. “Quantas vezes fui assistir jogos em Santa Cruz e a cidade estava lotada para ver jogos do ABC e América. Ou seja, gera emprego e renda, comunicação, divulgação, destino da cidade. Tem que haver um entendimento dessa importância. Mas essa dificuldade no interior se assemelha a situação da pequena empresa, que também passam por dificuldades”, disse.

As categorias de base são apontadas pela FNF como a saída para a formação de clubes profissionais no Interior e também para consolidação de times na capital potiguar. “Os clubes têm que se voltar para as bases, rever seus conceitos. Temos um exemplo clássico. A dificuldade do Alecrim não é diferente da do time de Mossoró. A dificuldade do Palmeira, que é na área metropolitana também não é diferente. Tínhamos antes ilhas de prosperidade. Futebol é muito mais que o momento, é um negócio que deve ser tratado com planejamento, obediência a regra e ações que consagrem o produto dentro do Estado”, analisa José Vanildo.

Calendário

Outro problema recorrente e que acaba refletindo no todo quando o assunto é futebol é o calendário nacional. Dez em cada 10 pessoas ligadas ao esporte têm críticas a distribuição das competições no País.

A pesquisa realizada pela Pluri Consultoria coloca mais um ponto negativo nesse calendário. Além de confuso, poucos clubes conseguem estar inseridos 100% na programação anual do futebol brasileiro. Ou seja, a maioria dos times, ainda que profissionais, são sazonais.

O estado foi o 12º em utilização do calendário, com média de 34,0%. O Rio Grande do Norte contou com 4 clubes disputando alguma divisão do Campeonato Brasileiro em 2019. Enquanto  de  janeiro  a  abril, 62% das  equipes  potiguares  estiveram  em  atividade, em agosto apenas 15% delas disputaram algum tipo de competição, segundo dados da Pluri.

Nordeste

Apenas 41% das cidades nordestinas contaram com clubes de futebol disputando competições profissionais em 2019.

Na  Bahia  apenas 2,6% das  cidades  contaram  com  algumas  dessas  equipes,  ou  seja, mais   de 67% da   população   baiana   vive   em   cidades   que   não   contaram   com   futebol profissional  no  ano  passado.

No  Piauí  e  em  Sergipe,  a  taxa  de  utilização  do  calendário útil do  futebol  foi  inferior  a 20%. Significa  que  aqueles  poucos  clubes,  que  conseguiram  atuar, jogaram,  em  média,  apenas 2 meses  do  ano.

A Pluri Consultoria concluiu que o  Raio  X  do  futebol  do  Nordeste  nos  mostra  os  tantos  problemas  da  estrutura  do  futebol no  Brasil,  mas  também  nos  revela  a  quantidade  de oportunidades e espaço para crescimento.








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