Pesquisa no RN analisa eficácia do plasma no tratamento da covid

Publicação: 2020-08-13 00:00:00
Mariana Ceci
Repórter

Vinte pacientes com covid-19 no Rio Grande do Norte foram selecionados para participar de um estudo que utiliza o plasma sanguíneo no tratamento da doença. A pesquisa está sendo executada pelo Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e utiliza o plasma sanguíneo doado por pessoas recuperadas da infecção causada pelo novo coronavírus e que apresenta anticorpos contra ela. De acordo com os pesquisadores, há estudos anteriores que apontam “benefício significativo na redução de mortalidade dos pacientes que receberam plasma convalescente" para outras doenças. Pesquisas similares estão em curso nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.

Créditos: DivulgaçãoPlasma extraído do sangue humano é armanezado no Hemonorte. Pessoas que tiveram covid-19 poderão ser voluntárias na doaçãoPlasma extraído do sangue humano é armanezado no Hemonorte. Pessoas que tiveram covid-19 poderão ser voluntárias na doação


O tratamento consiste em fazer uma transfusão de plasma de pessoas já curadas para aqueles que estão em tratamento. A técnica é chamada de “transferência passiva de imunidade". A expectativa é de que os anticorpos desenvolvidos pela pessoa curada contribuam no combate ao vírus no indivíduo que ainda está infectado, o que poderia reduzir a mortalidade pela doença.

Os médicos e pesquisadores Mario Emílio Teixeira, Eliana Lúcia Tomaz, Iara Marques e Selma Jerônimo responderam em conjunto aos questionamentos da TRIBUNA DO NORTE sobre a condução do estudo, que já está em curso no Rio Grande do Norte. De acordo com os profissionais, os 20 pacientes iniciais serão selecionados com base em “critérios de inclusão e exclusão bem delimitados", assim como os doadores de plasma. 

De acordo com os pesquisadores, o uso de plasma convalescente já é uma terapia utilizada há algumas décadas na medicina. “O plasma de pessoas recuperadas é rico em anticorpos, em títulos suficientes para combater a infecção em outra pessoa que não consegue desenvolver uma resposta imune adequada e, portanto, desenvolve forma grave da mesma doença", explicam. Eles afirmam que o estudo realizado no RN tem como objetivo “descrever a experiência clínica com a transfusão de plasma convalescente administrado a pacientes com quadro críticos de covid-19".

A Agência Reguladora de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration, foi a primeira no mundo a aprovar o uso de plasma convalescente humano para tratar indivíduos com covid-19 que estivessem em estado grave. Atualmente, mais de 200 estudos similares aos brasileiros estão inscritos no Instituto Nacional de Saúde dos EUA.

Transfusões
Até o momento, quatro pacientes já receberam as transfusões no Rio Grande do Norte. Após receberem a doação, eles são acompanhados por 28 dias, para que os pesquisadores avaliem o desfecho da doença e os possíveis efeitos adversos da transfusão.

Ao todo, quatro hospitais natalenses estão conduzindo o estudo: o Hospital do Coração, Hospital Rio Grande, Casa de Saúde São Lucas e Hospital Giselda Trigueiro. A seleção dos doadores é feita pelo Instituto de Medicina Tropical, e no Hemocentro de Natal. A coleta, armazenamento e distribuição do plasma, por sua vez, é feito pelo próprio Hemocentro, e o estudo será acompanhado por um comitê de monitoramento de dados e de segurança independente.

De acordo com os pesquisadores, encontrar doadores não tem se mostrado uma dificuldade. “As pessoas, em geral, se mostram solidárias com a situação e se voluntariam para a doação", afirmam. A jornalista Marília Rocha foi uma das que, uma vez recuperada, resolveu procurar o Hemocentro para se candidatar à doação.

Apesar de estar seguindo as recomendações de sair apenas para atividades essenciais, a jornalista teve de continuar trabalhando presencialmente mesmo durante a pandemia e, em maio, após um teste feito coletivamente junto aos colegas de trabalho, constatou que estava com anticorpos para a doença. “Só depois que eu percebi que alguns sintomas que eu tive, como dor de cabeça,  que na época atribuí à outras questões, na verdade eram da covid", conta Marília.

Doadora de sangue assídua, ela ficou sabendo, através de uma colega, da possibilidade de doar também o plasma sanguíneo para o tratamento dos pacientes. “Procurei o Hemocentro, fiz o agendamento e viram que estava apta a doar. Eu tinha inicialmente muitas preocupações, inclusive sobre como meu corpo ia agir à doação após a doença", relata. 

A experiência, no entanto, transcorreu sem problemas, e Marília fez a doação no dia 2 de junho. A jornalista compartilhou o depoimento nas redes sociais e, após o gesto, outras cinco amigas procuraram o Hemocentro para doar. “Quando cheguei lá, vi que não era apenas a questão do plasma: a quantidade de bolsas de sangue estava baixíssima, então é muito importante que as pessoas façam esse exercício de solidariedade, de ligar, perguntar se atende os critérios para doação e, se atender, que ela possa doar e contribuir", completa.

O processo de seleção dos doadores, como Marília, é criterioso: é preciso assegurar que a pessoa não possui mais o vírus, e que se encaixa nos critérios básicos para doação. Ao todo, 30 candidatos já foram avaliados pelo IMT, dos quais 8 fizeram efetivamente a doação.

Doação
Para doar, é preciso ter entre 18 e 60 anos, não ter histórico de gestações, ter diagnóstico laboratorial de covid-19 (testes rápidos não valem nesse caso), estar sem sintomas há 15 dias e não ter tido complicações em decorrência da doença, como parada cardíaca ou entubação. Inicialmente, o candidato que chega ao IMT passa por uma avaliação médica, que realiza coleta de sangue para alguns exames laboratoriais, além do swab na nasofaringe. Em seguida, ele é encaminhado ao Hemonorte para a doação.