Pesquisa mostra que cursos da saúde são os mais desejados por jovens do RN

Publicação: 2020-01-12 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Apesar de terem crescido em meio às tecnologias digitais, os jovens natalenses ainda optam por cursos de áreas “tradicionais” no ensino superior. Uma pesquisa feita pelo Instituto RadarNE, com exclusividade para a TRIBUNA DO NORTE, durante os dois dias aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) 2019, mostra que 9% dos entrevistados pretendem ingressar no curso de medicina, enquanto 8% pretendem ir para a área do direito. O primeiro colocado na pesquisa, no entanto, é o curso de psicologia, que concentrou as intenções de 10% dos entrevistados.

A pesquisa tem como objetivo levantar posicionamentos junto às pessoas que fizeram a prova do Enem sobre assuntos diversos, que vão desde a área de atuação pretendida a aspectos como mobilidade urbana e uso das redes sociais, e que podem ser relevantes para a área da educação. “Com esses dados, nós podemos começar a entender um pouco melhor quem é esse jovem que está ingressando no ensino superior, quais são suas expectativas, desejos e percepções de mundo”, explica o sociólogo e diretor do RadarNE, Maurício Garcia.
Créditos: Magnus NascimentoLucas Nunes, de 18 anos, enxerga que foi a afinidade com a área que determinou suas opções de curso para a Universidade, geografia ou medicina veterináriaLucas Nunes, de 18 anos, enxerga que foi a afinidade com a área que determinou suas opções de curso para a Universidade, geografia ou medicina veterinária
Lucas Nunes, de 18 anos, enxerga que foi a afinidade com a área que determinou suas opções de curso para a Universidade, geografia ou medicina veterinária

A pesquisa foi reproduzida em outras duas capitais do Nordeste: Fortaleza e Recife. Em ambas, as tendências de cursos e percepções da juventude foram similares, de acordo com os analistas. Em Natal, foram 486 entrevistas realizadas ao longo dos dois dias de Enem, por meio de um formulário eletrônico, abordando alunos que entravam e saíam dos locais onde estavam sendo aplicada as provas.

Em relação à locomoção, por exemplo, a maior parte dos entrevistados (74%), costuma se locomover de transporte coletivo durante o dia a dia, enquanto 14% utilizam carros particulares. A maior parte (84%) também costuma usar a internet várias vezes por dia, e tem no Instagram a sua rede social favorita (60%).

Mais do que permitir conhecer os cursos mais buscados pelos jovens que pretendem ingressar no ensino superior, no entanto, a pesquisa revela também de que maneira aspectos como a situação econômica do país influenciam nas escolhas da nova geração que pretende ingressar no ensino superior, e que é tida como mais “pragmática” pelos especialistas.

“Se formos observar a lista de intenção de cursos como um todo, nós vemos que há muitos da área da saúde, por exemplo, onde a empregabilidade ainda é boa. Muitos desses jovens viram os pais perderem os empregos, então esses são aspectos que vão pesar mais na escolha”, diz Maurício.

Enfermagem, educação física, odontologia e farmácia, por exemplo, são algumas das profissões que se encontram no “Top 10” de escolhas entre os entrevistados, estabelecendo a área da saúde como a mais procurada pelos jovens. Cursos, como administração, história e pedagogia também figuram entre os dez mais procurados.

Outro dado revelado pelo estudo é que a maior parte (74%) dos candidatos pretende ingressar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), enquanto apenas 26% têm intenções de ir para instituições particulares. “Isso se deve principalmente à qualidade do ensino público, que já é reconhecida pela maior parte da população. Não importa se o aluno veio de uma escola pública ou particular: a maior parte quer estudar em universidades públicas”, destaca Maurício Garcia.

Lucas Nunes, de 18 anos, não abriu mão da identificação na hora de escolher o curso. “Passei a maior parte do ano querendo cursar geografia, para ser professor e, mais para o fim, fiquei na dúvida entre ele e medicina veterinária, que é outra área com a qual tenho afinidade por gostar muito de animais”, explica o jovem.

Com pretensão de ingressar em uma universidade pública, Lucas cursou o Ensino Médio em uma escola particular, como 26% dos entrevistados na pesquisa do Radar NE/TRIBUNA DO NORTE. O jovem, no entanto, não chegou a fazer cursinhos preparatórios para a prova. “Fazíamos muito simulados na escola, e isso me preparou bem para o modelo do Enem”, explica o jovem. De acordo com os dados, apenas 24% dos entrevistados chegaram a fazer algum tipo de cursinho preparatório para a prova em 2019.

Afinidade deve ter mais peso na escolha

Fatores como a influência familiar, a situação do mercado de trabalho e da economia do País, além da própria noção de autoconhecimento a respeito das próprias habilidades são alguns dos principais eixos que norteiam a escolha profissional dos jovens. A psicóloga Ana Augusta Moreira, que faz o trabalho de orientação profissional com adolescentes, destaca que, diante de um mercado cada vez mais competitivo, a afinidade com a área escolhida passa a ser um ponto importante para o sucesso profissional.

“As pessoas ainda têm essa visão de que os cursos de medicina e direito vão garantir um lugar no mercado, e isso faz com que muitos tendam para essas áreas. Entretanto, esses mercados também estão abarrotados de profissionais e, muitas vezes, são aqueles que têm afinidade com aquilo que estão fazendo que vão se destacar”, diz a psicóloga.

A jovem Tainah Farias, de 21 anos, pretende ingressar em um dos cursos mais citados pelos entrevistados na pesquisa: medicina. De acordo com a jovem, o sonho de ser médica cirurgiã é algo que vem da infância, e fatores como remuneração acabaram ficando em segundo plano na escolha, que foi norteada principalmente pela identificação com a área.

“Eu terminei o pré-vestibular em 2015 e, desde então, venho fazendo cursinho preparatório para ingressar na medicina, que é o meu sonho”, conta Tainah. Em 2018, a jovem obteve nota suficiente para entrar no curso de direito, que continua fazendo enquanto se preparava para fazer a prova de 2019. “Escolhi a área do direito por ser um conhecimento que vou levar para a vida. Infelizmente, não somos ensinados ao longo de nossa educação sobre nossos direitos enquanto cidadãos, e pensei que isso seria algo que agregaria para mim independente da área de atuação profissional que eu escolhesse”, explica.

Assim como Tainah, Lucas Nunes, de 18 anos, também enxerga que foi a afinidade com a área que determinou suas opções de curso para a Universidade. “Quando os professores veem um aluno interessado em ser professor, eles te dão muita força e ajudam a ver que, por mais que a profissão tenha dificuldades, é possível obter sucesso e um bom salário”, afirma.

De acordo com a psicóloga Ana Augusta Moreira, quando as escolhas passam a ser norteadas exclusivamente por fatores familiares, como o fato de toda a família estar inserida em uma determinada área, ou mercadológicos, considerando apenas as tendências de empregabilidade naquele momento, o jovem pode acabar tendo dificuldades para lidar com o dia a dia da profissão e exercer a atividade com qualidade.

Jovens como Tainah e Lucas, portanto, que levam em consideração sua identificação pessoal, teriam mais chances de conseguir lidar com a pressão do mundo do trabalho.

“O jovem precisa ver se ele possui os recursos para dar conta de sua escolha. Se você vai para uma profissão que tem menos reconhecimento, é muitas vezes a sua afinidade com a área que vai ser determinante para obter sucesso, porque quando nos sentimos realizados, tendemos a buscar mais caminhos e alternativas. Não se trata de ignorar os outros fatores, mas sim de não deixar de levar em consideração as suas principais habilidades e gostos nessa escolha”, completa Ana Augusta.
Créditos: Arte/TNinfoinfo

Maurício Garcia: “O fator da empregabilidade é bastante determinante”

Os cursos mais citados pelos candidatos estão dentro da área de saúde. A que vocês atribuem essa alta procura?
O fator da empregabilidade é bastante determinante. Existe a questão do cuidado, mas o fato dessa ser uma área para a qual costumam haver concursos e onde a pessoa também pode ser empregada pelo setor privado acaba tendo um impacto. Na verdade, essa questão dos concursos também é vista na área do direito, porque muitas das pessoas que procuram o setor não visam mais a área de advocacia, mas buscam fazer concursos ou se capacitar melhor para atuar em outras áreas.
Créditos: Magnus NascimentoMaurício Garcia é diretor do RadarNE e sociólogoMaurício Garcia é diretor do RadarNE e sociólogo
Maurício Garcia é diretor do RadarNE e sociólogo

Um ponto que chamou atenção foi a quantidade de pessoas que não sabem o que pretendem cursar, que correspondem a apenas 2% dos entrevistados. Isso está relacionado ao modelo de ingresso do Enem/Sisu?
Esse é de fato um número baixo, e que está no mesmo patamar dos demais estados em que realizamos a pesquisa. O fato é que no modelo do Enem existem tantas opções que permite que esse processo de escolha seja mais tranquilo do que no modelo do vestibular. Se você tem uma escolha só, determinante, as pessoas têm mais dificuldade para definir o que querem. Como com a questão do Enem você primeiro vai ter acesso à sua nota e, apenas depois, vai colocá-la no sistema para tentar ingressar no curso de seu interesse, então as pessoas não enxergam, naquele momento da prova, uma determinação tão clara e definitiva do que pretendem fazer. Ela tem uma liberdade de escolha maior, o que faz com que a indecisão seja menor. Ela pode até ter uma dúvida, mas ela não vê a necessidade de explicitar isso, porque ela não precisa definir naquele momento.

O fato dos candidatos que estão prestando o Enem esse ano estarem fazendo isso em um cenário no qual a economia encontra-se desfavorável e o desemprego ainda é alto tem impacto nas escolhas de carreira apontadas na pesquisa?

Com certeza. Eles passam a ser mais pragmáticos, no sentido de procurar uma rentabilidade, algo que lhes traga um futuro mais estável, ao invés de buscar algo mais idealista. Nós fizemos uma pergunta sobre otimismo em relação ao País, que teve um resultado bem interessante: 59% dos entrevistados se dizem de alguma forma pessimistas quanto à situação do Brasil. Isso tudo mostra que esse jovem está tendo uma visão mais pessimista também do futuro, o que impacta sobre aquilo que ele vai escolher fazer de alguma forma. Outra pergunta relevante diz respeito a quantos pretendem trabalhar no setor público, que é a metade dos entrevistados. Isso mostra que estabilidade e garantias, não apenas financeiras, mas também profissionais.

Enem: RN teve a 4ª menor taxa de ausência do País

O Rio Grande do Norte teve a 4ª menor taxa de ausências do País no Exame Nacional do Ensino Médio, de acordo com os números divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No Rio Grande do Norte, dos 119.324 inscritos, 28.518 faltaram, o equivalente a 23,9%. Somente Piauí, Paraíba e Sergipe tiveram percentuais menores. O Enem foi realizado nos domingos  3 e 10 de novembro de 2019 e, em todo o País, estiveram presentes no segundo segundo dia de aplicação 3,7 milhões de candidatos, do total de 5,1 milhões inscritos. Aqueles que faltaram ao exame correspondem a 27,19% do total.

"Tivemos a menor abstenção de todos os tempos, tanto no primeiro dia, quanto hoje. Acho que agora dá para afirmar que tivemos o melhor Enem de todos os tempos, tanto em execução, operação, logística, como também em termos de formulação", disse o ministro da Educação Abraham Weintraub.

No Brasil, a taxa do primeiro dia, que foi 23,1%, superou a de 2018, até então a mais baixa, que foi de 24,76%. A contagem é feita desde 2009, quando o exame foi reformulado para selecionar estudantes para universidades brasileiras. No total, foram eliminados, no Enem, 747 participantes, sendo 371 candidatos no segundo dia de exame e 376 pessoas no primeiro dia. Esses participantes descumpriram as regras do exame.

Os resultados individuais do Enem 2019 serão divulgados na Página do Participante e no aplicativo do Enem, neste mês de janeiro, a partir de consulta com CPF e senha.O resultado dos participantes eliminados, segundo o Inep, não será divulgado, mesmo que eles tenham realizado o Enem nos dois dias de aplicação. Para os treineiros, que fazem o exame para autoavaliação de conhecimentos, a consulta só será liberada em março do ano que vem. Neste ano, as regras de segurança foram mais rígidas.

A pesquisa

Neste domingo (12), a TRIBUNA DO NORTE dá início a uma série de reportagens que aprofundam os números revelados por pesquisa realizada pelo Instituto RadarNE, que traça o perfil dos candidatos que fizeram o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) no Rio Grande do Norte em 2019. Nessa primeira reportagem, a TRIBUNA traz dados e análises sobre questões como cursos mais desejados; tipo de universidade em que os estudantes desejam cursar a graduação, e um perfil de como circulam pela cidade, como utilizam a internet e as redes sociais; se tiveram chances de fazer cursinho preparatório e em que tipo de escola cursaram o ensino médio. A pesquisa foi feita durante os dois dias de aplicação das provas (3 e 10 de novembro de 2019), durante a entrada e saída dos alunos nos locais onde estava sendo aplicada a prova. Em cada escola/faculdade foram selecionados entrevistados utilizando o critério do salto sistemático na entrada e saída de participantes.

As demais reportagens da série, que vão abordar novos números trazidos pela pesquisa RadarNE/TRIBUNA DO NORTE, serão veiculadas na terça-feira (14), quarta-feira (15) e quinta-feira (16), na edição impressa e no site da TN.







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