Pesquisa RadarNE mostra jovens mais liberais em questões como beijo gay e políticas de cotas

Publicação: 2020-01-15 00:00:00
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Um jovem com tendência a uma postura mais liberal é o perfil identificado dos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), colhido na pesquisa elaborada pelo Instituto RadarNE, com exclusividade para a TRIBUNA DO NORTE. Esta parte da pesquisa analisou tendências, opiniões e comportamento dos jovens durante os dois dias do exame em Natal e mostra que temas como beijo gay, políticas de cotas e a discordância para porte de armas têm ampla aceitação do público entrevistado.

Créditos: Alex RegisFinalistas da Olimpíada Brasileira de História: estudos permitiram novas interpretações da realidadeFinalistas da Olimpíada Brasileira de História: estudos permitiram novas interpretações da realidade
Finalistas da Olimpíada Brasileira de História: estudos permitiram novas interpretações da realidade

“As frases com maiores índices, seja de concordância quanto de discordância, mostram um jovem de uma tendência bastante 'liberal'. 81% são favoráveis ao fato de dois homens poderem se beijar em público, 76% são amplamente favoráveis às políticas de cotas, que tem um caráter mais igualitário, de correções da sociedade em relação aos negros, é uma postura progressista. Nessa mesma linha, a maior discordância ocorre em relação ao porte de armas: 71% são contrários à ideia de que ‘o cidadão de bem’ deve ter o direito de portar uma arma, postura também progressista”, analisa Maurício Garcia, sociólogo e diretor da RadarNE. “E na sequência, os 67% que são contrários à ideia de que o Bolsa Família estimula as pessoas a não trabalharem. Só essas frases demonstram claramente o quanto esse jovem que está às portas da universidade tem uma postura liberal em relação a questões comportamentais, de uma maneira geral”, afirma.

Em linhas gerais, afirma o diretor da RadarNE, esse jovem se mostra bastante liberal, e um pouco conservador apenas em relação a questões que passam pela segurança pública. Segundo ele, em outros estudos do RadarNE, principalmente qualitativos, “para boa parte das pessoas a liberação da posse de armas traria mais insegurança do que segurança à sociedade, pois nos aproximaríamos de uma certa ‘barbárie’, de uma terra sem leis”.

Polarização
A pesquisa apresentou frases aos jovens, que puderam dizer se concordavam, discordavam, ou não possuíam opinião formada sobre o tema. A respeito da frase “Fazer aborto deve ser um direito da mulher”, por exemplo, 56% dos jovens afirmaram concordar, enquanto 42% discordaram e 2% não souberam responder à questão.

Outras duas frases que dividiram as pessoas entrevistadas pela pesquisa foram “As escolas deveriam ensinar valores religiosos” e “a pena de morte deve ser aplicada para punir crimes graves”, que tiveram, respectivamente, a concordância de 49% e 46% dos participantes.

“Ao mesmo tempo em que eles apoiam os direitos humanos, eles apoiam a pena de morte. Nós estamos em um momento social de transição de várias naturezas, da questão emocional à questão de valores. O momento ainda é de intensa polarização, e é como se os jovens carregassem conceitos das outras gerações, mas ao mesmo tempo estivessem fundamentando seus próprios conceitos, que trazem as características próprias dessa geração”, explica a psicóloga Taciana Chiquetti.

Outras duas frases foram apresentadas aos entrevistados, essas com uma grande porcentagem de discordância. A frase “O Bolsa Família estimula as pessoas a não trabalharem”, por exemplo, teve 67% de discordância, e 71% não concordam com a afirmação “No Brasil de hoje, o cidadão de bem deve ter o direito de portar uma arma”.

Outro fato que chamou atenção na pesquisa foi o baixo número de pessoas que afirmou não possuir opinião ou posicionamento formado sobre os assuntos abordados: para nenhum dos tópicos, o número ultrapassou os 2%.

“Hoje, os jovens têm mais oportunidade não apenas de se posicionar e se expressar graças às redes sociais, e também têm muito mais acesso à informação, e isso gera uma nova dinâmica do ser humano com o seu contexto”, afirma a psicóloga. De acordo com ela, o desafio está principalmente em “garantir que haja não apenas o acesso, mas também a reflexão sobre as informações recebidas, algo que se torna difícil às vezes graças à comunicação reativa que muitas vezes marca as redes sociais”.

Corrupção é considerado o principal problema do país
Outra questão analisada pela pesquisa RadarNE/TRIBUNA DO NORTE foi a percepção dos candidatos sobre o principal problema do País. De acordo com a pesquisa, 79% dos entrevistados acredita que a corrupção é o principal problema do Brasil, enquanto outros 20% afirmam ser o desemprego.

Para a maior parte dos jovens, no entanto, a solução dos problemas – e a causa da maioria deles -, é unânime: falta de acesso à educação de qualidade. Estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), as jovens Maria Laura Urbano, de 19 anos, Maria Iolanda da Silva e Andreza Rodrigues, ambas com 20 anos de idade, compartilham a percepção de que é a falta de acesso à educação a responsável pela maior parte dos problemas do país.

“É algo que está ligado a tudo. Eu estudei sempre em escola pública, e tinha a percepção de que bandido bom era bandido morto, porque essa era a minha realidade. Quando comecei a refletir e tive acesso a outras linhas de pensamento, graças à escola, mudei de opinião, e hoje vejo o problema como algo muito mais complexo”, afirma Andreza Rodrigues.

As três jovens foram finalistas da Olimpíada Brasileira de História, e chegaram a viajar a Campinas para representar a delegação do Rio Grande do Norte. De acordo com elas, os conteúdos estudados permitiram novas interpretações da realidade e dos problemas do país. “O que nós vimos é que nada é simples. Estamos em um país complexo e desigual, onde as oportunidades também são desiguais.”, diz Maria Iolanda.

Para as jovens, o próprio Enem é um termômetro da desigualdade em relação à educação: “O Enem tem uma ementa interessantíssima e, realmente, se você domina todos os conteúdos que eles colocam lá, você está preparado para começar a ter uma visão crítica do mundo e entrar em uma universidade”, diz Andreza. “O problema é que, quando você vai para a realidade, a maior parte das pessoas não tem acesso aos conteúdos, os jovens não estão sendo formados para dominar todos esses temas, e têm dificuldades na prova”, completa Maria Laura.

O que pensam os estudantes que fizeram o Enem - Concordância com frases sobre comportamento
Créditos: Reproduçãopesquisapesquisa

A pesquisa
No último domingo (12), a TRIBUNA DO NORTE deu início a uma série de reportagens que aprofundam os números revelados pela pequisa feita pelo Instituto RadarNE durante os dois dias de aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) em Natal. Ao todo, 483 pessoas foram entrevistadas nos dias 3 e 10 de novembro de 2019 em Natal, utilizando o critério do salto sistemático na entrada e saída de participantes. O intervalo de confiança da pesquisa é de 95%, com margem de erro de 4% para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. Essa é a terceira matéria da série, que trata da percepção de jovens sobre temas como homossexualidade, porte de armas e políticas públicas. A primeira reportagem da série, publicada no domingo, trouxe uma análise de dados dos cursos mais desejados, tipos de universidade em que os estudantes desejam cursar a graduação, e como esses jovens circulam pela cidade e utilizam as redes sociais. A segunda, publicada na última terça-feira (13), aborda o otimismo dos jovens quanto ao futuro e como isso se relaciona com as suas escolhas profissionais. A última reportagem da série que traz os números da pesquisa RadarNE/TRIBUNA DO NORTE será veiculada na quinta-feira (16).