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Pesquisa relaciona processo de alfabetização com neurociência
Publicado: 00:00:00 - 02/05/2021 Atualizado: 10:51:55 - 01/05/2021
Tádzio França
Repórter

Educação infantil e alfabetização fazem parte de um processo que atravessa variadas disciplinas. Entre esses pontos, a neurociência é um dos caminhos possíveis a seguir. A pesquisadora e professora Angela Chuvas Naschold, do departamento de educação do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres) da UFRN, estuda há dez anos a relação entre esses elementos, e como eles podem tornar o aprendizado mais eficiente, construtivo, e ao mesmo tempo acessível.

Adriano Abreu
Professora Angela Naschold, do Ceres da UFRN, oferece curso para professores e gestores educacionais sobre as interfaces entre a neurociência e o processo de alfabetização

Professora Angela Naschold, do Ceres da UFRN, oferece curso para professores e gestores educacionais sobre as interfaces entre a neurociência e o processo de alfabetização


 A relação entre educação, neurociências e psicolingüística é o tema do curso de pós-graduação “Alfabetização + Neurociências: Interfaces na Educação Integral”, que Angela está coordenando para o Ceres, com início programado para 12 de junho, e inscrições até 21 de maio. O curso é voltado para professores, coordenadores, e gestores das redes pública e particular de ensino, interessados em alcançar novos conhecimentos sobre a leitura e a escrita.

A professora parte do princípio de que toda metodologia de ensino é baseada em conteúdos de diferentes ciências, e que, portanto, optar por apenas um deles hoje em dia já não é mais suficiente. “Alfabetizar envolve amplos conhecimentos psicolinguísticos que integram aspectos fônicos, gráficos, mórficos, semânticos, sintáticos, pragmáticos e textuais da língua materna”, diz.

É no desdobramento de conteúdos que a neurociência pode ser inserida no contexto. “Como os estudos atuais das neurociências têm nos indicado, os conhecimentos linguísticos acham-se ligados a certas condições, como atividade física, sono e alimentação adequada, que por sua vez são essenciais para a manutenção da memória, da atenção e do consequente engajamento do aluno no processo de aprendizagem. Esse engajamento do aluno é o motor da sua aprendizagem”, explica.

A interface entre neurociências e educação inclui temas como a influência da natureza genética e do tipo de educação oferecido pela família e pela escola no contexto social e cultural, e a relação de tais temas como sucesso da aprendizagem; a real importância das experiências e vivências dos primeiros anos para a ocorrência das aprendizagens ao longo da vida.

Angela também ressalta a influência da idade na aprendizagem de atitudes específicas, habilidades e conhecimentos; as diferenças entre a aprendizagem de jovens e adultos; o significado da inteligência; o funcionamento da atenção e da memória e a sua relação com as emoções e sentimentos; as bases neuropsicológicas para a aprendizagem leitura, escrita e matemática, entre muitos outros temas.

Kits neurocientíficos

Há algum tempo os estudos de Angela Naschold vem saindo da bolha acadêmica e ganhando outros territórios. Ela já fez parcerias com o Instituto do Cérebro da UFRN (ICe) e elaborou com ele materiais de alfabetização com características inovadoras. “O material foi produzido de forma a provocar o engajamento dos alunos e também do professor que vai utilizá-lo. Não se trata de um engajamento para simplesmente o professor repetir e replicar”, ressaltou.

Em decorrência dos resultados positivos alcançados pelas pesquisas realizadas, o Ministério da Educação (MEC), por meio do Programa Mais Educação, firmou um convênio com a UFRN para a elaboração do projeto “Leitura + Neurociências (L + N)”, coordenado por Angela. Segundo ela, o material foi pensado para que o próprio professor desenvolva a metodologia de ensino que melhor se adaptar a ele.

São livros com histórias infantis, jogos, brinquedos, folhas para recortar, origamis, quadro magnético para a formação de letras e palavras. Cada um deles foi pensado para atender finalidades teóricas, estéticas e lúdicas para o melhor ensino da língua. “O material é compatibilizado com as experiências e estudos que o professor desenvolveu em sua trajetória acadêmica e profissional. Não queremos negar conhecimentos importantes que sustentam a alfabetização há anos; temos que superar esta fase em nosso país”, diz.

O material exige conhecimento dos fundamentos teóricos que o sustentam, bem como a compatibilização destes com os conhecimentos do professor.  Um dos aspectos inovadores do trabalho é a inclusão de materiais baseados em um dos conceitos mais importantes para a alfabetização inicial trazidos pelas neurociências,que foi a descoberta da área onde a leitura inicia no cérebro, o que originou a Teoria da Reciclagem Neuronal.

Angela destaca materiais como o ‘dado das formas das letras’ e o ‘alfabeto móvel das formas das letras’, bem como os ‘portfólios didáticos de histórias’, material construído em folhas de tamanho maior que portam atividades metalingüísticas, Junto aos portfólios, utilizamos amplo material tais como: fichas, jogos e atividades lúdicas escritas e orais a serem realizadas na sala de aula e no pátio da escola, como a ‘amarelinha da leitura’, que é jogada com o dado especial de letras.

Neurociência pra todos

A professora acredita que a neurociência deve deixar de ser pensada como algo distante das salas de aula comuns. “É algo que precisamos superar se quisermos avançar na contribuição das neurociências para a educação. Para toda nova forma de conhecimento que se apresenta são postas barreiras. Procuro visualizar com tranquilidade as barreiras que precisamos transpor para que os cursos de graduação introduzam conteúdos oriundos das neurociências em seus currículos. Mas é inevitável. O mundo anda e a ciência anda junto com ele”, diz.

A professora ressalta que na UFRN há um curso de especialização já em sua quarta edição, que busca traduzir de forma clara aos professores a relação das neurociências com a educação, em especial com a leitura. “Os relatos dos alunos são gratificantes, e nos animamos muito quando eles mencionam que antes achavam difícil entender como o cérebro funciona na aprendizagem, mas que agora conseguem compreender com facilidade e clareza, as complexas conexões que acontecem no cérebro durante o processo de aprender”, explica.

Ao todo, o “Leitura + Neurociências”, considerando as diferentes etapas pelo que passou e os variados trabalhos realizados, atingiu 36 escolas públicas do estado, abrangendo 106 turmas e cerca de 2000 alunos. O trabalho conta com um portal na internet onde podem ser encontradas explicações sobre a iniciativa, dados sobre os eventos e cursos realizados, sobre a equipe envolvida e, também, detalhes dos kits de materiais de alfabetização e dos seis livros publicados.

Já o “Alfabetização + Neurociências” será um curso remoto de especialização que vai usar basicamente o material e os conceitos do “L+N”. Terá carga horária de 380 horas, e sua matriz curricular é composta por 13 componentes, além do Trabalho de Conclusão. A estrutura curricular é formada por oito módulos, um evento sobre temáticas relacionadas à leitura e à escrita e quatro ateliês, que trabalham o estado da arte da alfabetização.

O curso será ministrado com suporte de ambiente virtual síncrono e assíncrono. As aulas serão síncronas, isto é, de interação ao vivo entre professores e alunos com uso de aplicativos do tipo Meet, Zoom ou semelhantes. As outras atividades serão disponibilizadas no ambiente virtual dos diferentes componentes curriculares. O curso abrirá 120 vagas e terá duração de 18 meses. Inscrições no Sigaa da UFRN.




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