Pesquisador quer que vacina atinja toda a população

Publicação: 2019-04-28 00:00:00
O problema das arboviroses é antigo e, sazonalmente, volta aos noticiários brasileiros à medida em que aumenta a quantidade de notificações da doença em estados e municípios brasileiros. Apesar da mais comum continuar sendo a dengue, que possui quatro sorotipos, ao longo dos últimos anos no Brasil, Zika e Chikungunya também passaram a integrar o leque de doenças que podem ser transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. A vacina para dengue, apesar de já existir, é restrita; apenas pessoas que tiveram ao menos um sorotipo da doença podem tomá-la, tornando seu uso restrito para apenas uma parcela da população. 

Créditos: Magnus NascimentoKleber Luz, infectologistaKleber Luz, infectologista
Kleber Luz, infectologista

Em 2019, o Rio Grande do Norte tem vivido uma queda nas notificações de arboviroses. Uma das situações mais preocupantes registradas recentemente foram as 89 notificações no bairro do Tirol, em Natal, que as autoridades da Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap), confirmaram se tratar do vírus chikungunya. Mesmo assim, os números não chegam perto das grandes epidemias vividas. Em 2016, por exemplo, foram 1.918 casos confirmados de dengue no Estado até a 13ª semana epidemiológica. Em 2019, foram 624 confirmados no mesmo intervalo de tempo, somando os casos de dengue com sinais de alarme, dengue grave e a forma mais comum da doença. 

Enquanto pesquisadores continuam estudando vacinas de aplicação mais simples que possam ser utilizadas pela sociedade e os órgãos de saúde pública trabalham no monitoramento da quantidade de vetores presentes por bairro e município, a prevenção mais eficaz contra as arboviroses permanece sendo o controle do vetor, o mosquito Aedes aegypti. 

Grande parte das vezes, de acordo com especialistas e agentes de saúde, os locais propícios para a reprodução do mosquito estão nas próprias residências das pessoas: vasos com água parada, pneus e garrafas PET deixados em locais abertos e que também passam a acumular água em tempos de chuva são alguns deles. 

Sobre os últimos avanços observados nas pesquisas sobre arboviroses, a prevenção e o papel de cada entidade – governo, comunidade e instituições de ensino – na prevenção contra a doença, a TRIBUNA DO NORTE conversou com o médico infectologista Kléber Luz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Confira a entrevista:

O senhor é um dos pesquisadores que estuda as notificações de arboviroses identificadas no bairro do Tirol, e levantou a hipótese de que poderia se tratar de uma nova doença. Como está essa situação? Os estudos foram concluídos?
Em relação àquela doença, o que temos até agora com base nos dados de laboratório, é de que em alguns pacientes se confirma o vírus de Chikungunya. Seria, tecnicamente, uma forma um pouco diferente da esperada. Mas ainda aguardamos a finalização da investigação, e novos exames que também estão sendo feitos para avaliar os casos. Tem algumas amostras que estão com a Fiocruz, e vamos aguardar a continuidade dos estudos.

A questão das arboviroses já vem sendo trabalhada há anos pelos órgãos de saúde pública. Em termos de pesquisa, o que está sendo estudado atualmente que pode levar a avanços na prevenção e tratamento dessas doenças?
Existem várias pesquisas importantes em curso atualmente sobre a questão das arboviroses. Uma delas é a vacina eficaz que está sendo estudada para a dengue. A ideia seria produzir uma vacina de uso mais fácil, na verdade. A vacina para dengue já é uma realidade, mas tem um impedimento que é o fato de que só pode ser utilizada por pessoas que já tiveram, pelo menos, um primeiro episódio de dengue, o que é um fator limitante. O que se espera é que surjam outras vacinas que possam ser utilizadas de forma indiscriminada entre as pessoas. Há muitas pesquisas em curso que apontam para a concretização dessa expectativa. 

A UFRN vem colaborando com as pesquisas? De que maneiras?
Nós temos um centro que colabora com essas pesquisas, e temos colaborado no sentido de acompanhar as pessoas que foram vacinadas contra a dengue, para observar a eficácia da vacina. Nós acompanhamos mais de mil pessoas pela Universidade. Tem um trabalho que já foi publicado no New England, e outro em curso, atualmente. Há acordos de confidencialidade que impedem que os resultados sejam divulgados no presente momento das pesquisas, mas futuramente esses estudos serão divulgados para a sociedade. 

Apesar dos casos que foram notificados no bairro do Tirol, o Rio Grande do Norte tem registrado números menores de notificações de arboviroses desde os últimos grandes surtos, como aconteceu em 2014. A que se atribui essa queda nas notificações?
Toda arbovirose chega uma hora que esgota os suscetíveis. Ou seja, muitas pessoas já tiveram, e eles param de circular. Daqui há algum tempo, alguns anos, ela volta a acontecer. O caso do zika vírus, por exemplo: este ano ainda não foi confirmado nenhum caso no Rio Grande do Norte, mas no Nordeste já tivemos confirmações  no estado do Tocantins. 

Há uma questão da sazonalidade envolvendo o aumento no número de arboviroses, que inclusive é uma das coisas que o Poder Público leva em consideração ao montar suas estratégias de ação. Você acredita que esse é o caminho certo para tratar desse tipo de doença?
Na minha opinião, a questão das arboviroses é um problema da comunidade, e devem ser enfrentadas por essa comunidade. Não é um problema só do povo, só do governo ou só da universidade: é um problema de todos. E a única forma de controlar esse tipo de doença é justamente com o compromisso de todas as partes envolvidas. O governo, sozinho, não consegue controlar todos os focos ou locais onde é possível encontrar os vetores da doença. Eles não podem, por exemplo, sair arrombando as casas que estão fechadas aleatoriamente. 
Em Natal, lamentavelmente, não é incomum vermos pessoas com um carro novo, chique, jogando uma garrafa PET pela janela. Essa é uma cena bastante frequente, e mostra que indistintamente do nível social, as pessoas ainda insistem em práticas que contribuem para o surgimento dessas doenças. Isso é básico, não tem como o governo resolver isso. Ainda falta o Bê-A-Bá. 

Qual seria o papel de sociedade e governo nessa perspectiva?
O que a gente realmente precisa é de uma conscientização da própria comunidade em relação ao controle dos criadouros, que muitas vezes estão nas próprias residências das pessoas. Do governo, além das campanhas públicas de conscientização que relembrem à população da necessidade de ter esses cuidados, espera-se que haja pólos de atendimento que estejam de portas abertas para oferecer a melhor assistência possível para as pessoas que estão com a doença. Há um outro fator que é o do serviço privado de saúde, que também precisa ter um sistema organizado para poder atender esses pacientes que vão aparecer com dengue.

Uma das estratégias que vem sendo utilizada no combate ao mosquito é a disseminação dos larvicidas. É eficaz? 
O uso de algum inseticida para controlar o Aedes só pode ser feito com recomendação do sistema de saúde, porque não adianta colocar um veneno na sua própria casa, isso não vai resolver. O veneno tem que ser colocado na área inteira, no bairro. Não adianta dedetizar uma residência, porque o mosquito não é como um problema de baratas, que pode ser resolvido com a dedetização. O mosquito não, ele sai voando. Então é necessário que a disseminação do larvicida tenha abrangência de toda a área para que ela seja eficaz. Os químicos utilizados pela saúde pública costumam ser extremamente seguros, e não costumam oferecer riscos ou problemas à comunidade. O controle do mosquito é fundamental, e é a principal forma de prevenção contra as arboviroses.

Quem
Kleber Luz é médico infectologista, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e docente da mesma instituição, pelo departamento de infectologia. Ele é mestre em pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e doutor em doenças infecciosas pela Universidade de São Paulo (USP).