Pesquisadora utiliza a arte para falar sobre deficiência no Brasil

Publicação: 2020-03-22 00:00:00
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Tádzio França
Repórter

Aprender a lidar com as dificuldades é algo cotidiano na vida do deficiente no Brasil. As muitas barreiras impostas pela formatação das cidades e pelos preconceitos alheios motivaram a atriz Carolina Teixeira a pensar a deficiência como uma experiência que pode ser vivida, pensada e compreendida por todos. Ela é referência nesse tipo de estudo no Brasil e exterior, já escreveu sobre a inserção do deficiente na arte, e criou a exposição “Poética protética, transignificações em curso”. Pensar sobre essas barreiras é uma forma de superar momentos difíceis. 

Créditos: DivulgaçãoAs muitas barreiras impostas pela formatação das cidades e pelos preconceitos alheios motivaram a atriz Carolina Teixeira a pensar a deficiência como uma experiência que pode ser vivida, pensada e compreendida por todos em tempos de criseAs muitas barreiras impostas pela formatação das cidades e pelos preconceitos alheios motivaram a atriz Carolina Teixeira a pensar a deficiência como uma experiência que pode ser vivida, pensada e compreendida por todos em tempos de crise

“Eu quero entender o que a deficiência traz enquanto experiência, conhecimento, no seu lugar mais duro. É muito mais pensar no que o corpo não pode, do que pensar no que ele pode – isso, todo mundo já sabe. A dúvida é que é a questão”, diz Carolina, fazendo uma relação com o momento da pandemia do corona vírus. “Essa crise evidencia nossa fragilidade. As sociedades precisam se reorganizar, e por vezes elas se desesperam, porque elas estão dentro de uma cultura de eficiência, que não sabe lidar com problemas. Isso para a pessoa com deficiência é uma situação diária muito comum”, afirma.

Segundo dados do IBGE em 2015, 6,2% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) considerou quatro tipos de deficiências: auditiva, visual, física e intelectual. E segundo o último censo demográfico do IBGE, 45 milhões de brasileiros sofrem de algum tipo de deficiência física. A vivência pessoal levou Carolina a esse lugar de fala: ela teve um AVC aos nove anos de idade, um dos primeiros casos no Nordeste e no Brasil. Após passar por uma série de tratamentos dentro e fora do Brasil, se encontrou na arte.

Carolina foi encaminhada à Cia Roda Viva, grupo ligado ao departamento de artes da UFRN que trabalhava com pessoas com e sem deficiência, utilizando a dança como uma forma de reinserção social. “Foi nesse contexto que a minha experiência com a deficiência caminhou. Essa experiência de me tornar uma pessoa com deficiência física foi que me motivou pra essa caminhada, nem digo militância, porque já transcende isso quando você vive a experiência no próprio corpo”, diz. Em 2011 ela lançou o livro “Deficiência em cena”, baseado na pesquisa de mestrado, referência sobre o estudo do deficiente nas artes cênicas.

Em seus estudos, a artista e pesquisadora debate como o Brasil é “inacessível” para seus deficientes. “O Brasil não é um país acessível pra ninguém, isso é um fato. Nós não temos uma lógica dentro do ponto de vista do que é acessibilidade universal, uma teoria do campo das ciências sociais nascida entre as décadas de 60 e 70, na Europa e EUA”, diz. Carolina pensa a acessibilidade não só direcionada a uma necessidade comum, mas a todas as necessidades especificas e individuais de cada ser. “A acessibilidade como um projeto político mundial, que deve ser para todos, em todos os contextos. Não apenas num contexto de experiência física ou cognitiva limitada, mas em todas as experiências humanas”.

Carolina se ressente da limitação geral para os deficientes no país, desde a arquitetônica mais básica, que é sair de casa, deslocar-se no seu ir e vir, até as necessidades funcionais, intelectuais, ideológicas. “As sociedades não são pensadas e projetadas para atender a pessoas que tenham um tipo de experiência física e cognitiva distinta”, diz. Ela reforça que enquanto a acessibilidade não for pensada como um projeto político comum e necessário a todos, essa condição em que as pessoas com deficiência vivem hoje dificilmente será transformada.        

“Ainda se pensa a experiência da deficiência como uma necessidade especial, e isso precisa ser mudado. As pessoas não querem ser  ‘especializadas’, elas querem ter direitos que são comuns a todos”, ressalta a artista. Carolina considera que a ótica da inclusão muitas vezes ainda é fictícia. É preciso encarar a experiência real que os deficientes vivem no seu dia a dia para expandir o conceito sobre. “É algo que não deve ficar limitado a um grupo, pensamento ou determinada área de estudo, a gente precisa transcender isso. A acessibilidade deve ser pensada de forma universal”, completa.

Em seu período de tratamento, Carolina fez uso de órteses, os aparelhos que corrigem deformações, por ocasião do AVC. “Eu sei bem como é a necessidade do uso dessas ferramentas de reabilitação, e por isso dentro do que eu estudo no campo das artes, a órtese foi um dos elementos que resolvi trabalhar dentro do campo da performance”, diz. A artista lamenta que tanto as órteses como as próteses sejam acessórios tão difíceis de ser obtidos no Brasil.

Há políticas e ações do SUS que disponibilizam próteses e órteses para pessoas que tenham sido acometidas de acidentes e deformidades, mas ainda em numero insuficiente. “Boa parte dessas pessoas terminam tendo que recorrer a empresas privadas, e terminam tendo que pagar, e ainda é muito caro conseguir uma órtese no país. Não é um material acessível a todo mundo, até pelo encarecimento que é o custo de produzir um prótese no Brasil, principalmente as mais modernas”, explica. A desvantagem extra é a lista de espera, muitas vezes não tem como aguardar a demanda de espera que as instituições públicas exigem.  

A arte de Carolina também reflete as situações de preconceito que são cotidianas no país. “Para a pessoa deficiente essa é uma situação quase ‘si  ne qua non’, ninguém passa despercebido. Até porque como eu tenho estudado nos últimos anos, a deficiência é algo que se estende ao que é espetacular, as pessoas ainda olham para o deficiente como uma espécie de anticorpo. Enquanto os outros movimentos sociais (negros, mulheres, LGBT) já materializaram um discurso, uma teoria que alicerça discursos e reivindicações, a luta pelas  pessoas com deficiência ainda não atingiu o mesmo patamar. Elas ainda não são vistas como um corpo”, declara.

Uma característica da vivência do deficiente, é ainda ser alvo da especulação e da fala de outra pessoa. “O deficiente ainda é interpelado pelas instituições, pela família, por outras vozes.  O discurso equivocado serve a dizer que o deficiente, o aleijado, o torto, é sempre o outro. É como se a deficiência em 2020 fosse uma espécie de justificação social, temos sempre que nos justificar que somos capazes, úteis, e isso é mais uma necessidade da sociedade do que da pessoa que vive a deficiência. Até no campo acadêmico há uma limitação”, diz. A artista lamenta o olhar penalizador do qual o deficiente ainda é alvo.

“De alguma maneira todos nós passaremos por restrições que a  experiência da deficiência traz, seja no nosso corpo ou na relação com outras pessoas que vivenciam”, afirma. Carolina exemplifica no próprio processo de envelhecimento, a deficiência é um fenômeno que vai perpassar a vida de todos, queira ou não. “É uma experiência, muito mais que uma condição ou uma situação, ela realmente vem ao longo das décadas sendo cada vez mais palpável e visível, e mais presente na sociedade então o acesso a essas peças devem ser mais acessíveis, devem ter o custo reduzido para que as pessoas possam ter acessivo, inclusive que as empresas privadas se tornem parceiras das iniciativas de saúde pública”.

“Poética protética”, a exposição, estava aberta até pouco tempo na UFRN, mas teve que ser fechada devido a suspensão temporária das atividades da UFRN por ocasião da pandemia do corona vírus. A mostra teve curadoria de Sanzia Pinheiro, e reunia diferentes obras como fotografias, poemas e performances de Carolina. É uma das poucas no Brasil a tocar o tema da acessibilidade e teve o objetivo de que as pessoas não só olhassem, mas também sentissem e interagissem com as obras. A exposição contou com a participação de artistas e fotógrafos que perpassaram a trajetória da artista como Simona Talma, Sílvia Sol, Júlio Lima, entre outros.

Segundo a artista, a mostra teve a proposta de pensar a deficiência não como um lugar sacralizado, uma exclusão, mas lugar de conhecimento e de proposição. Agora Carolina não sabe quando a exposição será reaberta, mas segue mantendo planos para sua missão artística. “Em julho pretendo apresentar meu espetáculo, que é um monologo dirigido pelo Mauricio Motta, chamado ‘Extrema Direita’, que é a reunião de toda essa experiência de um corpo AVC, tentando traduzir esse embate contemporâneo entre esquerda e direita, que assola não só o Brasil como o mundo”, conta. Ela já está acostumada às barreiras.


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