Petróleo em Mossoró: o melhor negócio é ser pequeno

Publicação: 2020-01-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Cassiano Arruda

Depois de 40 anos plugado nas decisões da Petrobras para programar seu próprio futuro, uma parte do Rio Grande do Norte que tem Mossoró no epicentro e dedicou seus últimos anos a chorar um desfecho inevitável, começa a mudar de sintonia. 

Neste novo ano que começa hoje, o jogo do petróleo no RN tem novas regras. O panorama da indústria petrolífera em terra começa a mudar: a total dependência da mastodôntica empresa estatal sai de cena, cedendo espaço para uma economia de mercado, protagonizada por empresas de menor porte. A grande mudança é a ausência de gigantes. O novo jogo será disputado por pequenos.

É um modelo que existe, nos Estados Unidos, desde o início da era do petróleo, no início do Século passado, onde operam mais de um milhão de poços, com produção média de, apenas, dez barris por dia por cada um. Esse conjunto responde por 80% da extração de petróleo e gás natural nos Estados Unidos. No Brasil, um único poço na Bacia de Santos, no pré-sal, concentra mais da metade de toda a produção nacional.

Hora da mudança

A comunidade de petróleo (trabalhadores, empresários, sindicalistas e autoridades) precisa atentar para essa nova realidade. Não adianta mais se posicionar apenas em relação a grandes reservas, como a do "campo de Lula", aquele da Bacia de Santos, com potencial para representar, sozinho, a metade da produção nacional.

A história passa a ser escrita por outros personagens. Também é preciso conhecer exemplos como do Campo do Vale do Quincó, na Bahia, a 80 quilômetros de Salvador, que funciona com um único técnico, acompanhado de um segurança e mais dois cães de guarda. O bastante para cuidar de um dos poços da menor petroleira do Brasil. Sua produção é de pouco mais de meio barril/dia, que custaria no mercado algo em torno de R$ 125. Uma produção tão pequena que poderia, até, ser transportada em baldes.

A petroleira Energizzi, dona do poço, não se inibe de sonhar alto e pretende colocar mais dinheiro em outras áreas de exploração em terra. Ela integra um movimento de petroleiras de pequeno porte que se armam para aproveitar a lacuna que está sendo deixada pela Petrobras no Nordeste, no Espírito Santo e no Amazonas, desde que optou por centralizar todos os seus recursos no pré-sal. 

Sinais de vida

Embora existam muitas expectativas com a mudança das regras do jogo, em Mossoró já é possível sentir outra atmosfera. Se ainda não se identifica a euforia de outros tempos, já não existe o derrotismo dos últimos cinco anos de enorme crise.

Noves fora opiniões ou torcida, é possível constatar que negócios já estão sendo feitos, sobretudo na área imobiliária. Imóveis estão sendo alugados ou vendidos.

A economia dá sinais de que está se movimentando, num ritmo muito mais intenso do que no resto do Estado.
São as primeiras pequenas empresas que estão se instalando. Existe oferta de empregos. E isso é real. Também existe uma movimentação na área de licença ambiental.

A festa está sendo preparada ainda. O número de empresas que vão explorar petróleo em terra (onshore) ainda é pequeno. E este é um modelo de negócio que aposta num grande número de empresas participantes, cada uma com pequena produção. 
Ou seja: está saindo a gigante estatal que sozinha supria todas as demandas e entram as pequenas empresas. Daqui pra frente o negócio é ser pequeno.

Um novo modelo

A virada que começou a dar impulso às petroleiras de pequeno porte no mercado nacional veio coma a decisão da Petrobras - após a crise do seu envolvimento na Operação Lava Jato - de vender ativos, entre os quais foram incluídas áreas de exploração em terra e em águas rasas (onde há menor necessidade de investimento), e consolidou-se com um novo modelo de leilão de campos devolvidos à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). É preciso que a nova ordem se consolide para que se concretize um alinhamento de forças entre governos e pequenos produtores. A expectativa é que, com a chegada de novos atores, se consolide uma grande onda favorável na economia local.

A substituição de um monopólio por uma indústria diversificada passa pela atração de pequenas e médias empresas para operar nos campos maduros, tanto em terra como nas águas rasas.

Em Mossoró, já se ouve falar na necessidade de redução do valor dos royalties, simplificação de contratos e definição de regras de abandono dos campos... Uma outra história. 

Para se ter uma ideia do que muda, basta comparar os custos do mercado atual. Enquanto um só poço do Pré-sal fica na casa de R$ 800 milhões, um poço em terra, operado por pequenas empresas, fica entre 3 e 5 milhões de Reais.  

Bons tempos

O Rio Grande do Norte ainda é o maior produtor de petróleo onshore da produção nacional. Embora tendo alcançado 100 mil barris/dia em viés de alta, hoje está limitado a marca dos 38 mil barris/dia, desde que a Petrobras decidiu concentra-se no Pré-sal, e foi reduzindo os seus investimentos na produção local. É difícil acreditar que, agora, as mudanças recentes conduzam nossa esperança para as pequenas empresas.

E Mossoró começa a acreditar que poderá voltar a ostentar o título de "capital do petróleo" e gás onshore, como foi dito em recente Fórum para discutir o assunto. Mas, para que isso aconteça, primeiro tem de acreditar que seu destino passa pelas pequenas empresas.

A esperança se chama REATE, Programa de Revitalização das Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres, do Ministério de Minas e Energia. É nesse número que estão sendo feitas todas as apostas para a retomada efetiva da cadeia produtiva de petróleo e gás.

E através do REATE é que se acredita na volta dos bons tempos.

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