Petrobras investirá menos no RN

Publicação: 2015-12-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Nadjara Martins
*Repórter

A partir de 2016, a Petrobras deve diminuir a injeção de recursos no Rio Grande do Norte. De acordo com as projeções apresentadas pela empresa durante o III Fórum Estadual de Energia do Rio Grande do Norte, ontem, os investimentos devem cair de US$ 930 milhões aplicados neste ano para US$ 905 milhões no próximo ano e US$ 860 milhões a partir de 2017. Entretanto, para especialistas do setor, a redução de 7,5% faz parte de um plano de desinvestimentos da empresa em todo o país, agravado pela crise – com a Lava Jato e a queda do barril de petróleo – mas não representa a redução das atividades da petroleira em solo potiguar.
Magnus NascimentoTuerte Amaral, gerente geral da unidade operacional RN-CE, da Petrobras: Média menor de produçãoTuerte Amaral, gerente geral da unidade operacional RN-CE, da Petrobras: Média menor de produção

Na apresentação, o gerente geral da unidade operacional RN-Ceará da empresa, Tuerte Amaral, apontou uma redução gradativa, nos últimos anos, na produção dos campos potiguares, já maduros. Devido ao tempo de exploração – mais de 40 anos – a maioria dos campos potiguares precisa de investimentos mais altos, com injeção de vapor e água, para manter a geração. Em 2013, a média era de 59 mil barris de petróleo por dia, caindo para 56 mil barris neste ano. O declínio médio é de 6,7%, segundo a companhia. “A situação está mais ou menos controlada. Se nada tivéssemos feito, já estaríamos produzindo 40 mil barris por dia em vez de 56 mil”, explicou.

 Ontem, durante a palestra, os representantes da empresa afirmaram que não há previsão de novas perfurações no RN no próximo ano. Eles garantiram, no entanto, a manutenção da estrutura já existente.

De acordo com Tuerte Amaral, a crise enfrentada pela empresa levou a um realinhamento dos investimentos. “Temos uma maior seletividade dos projetos que eles podem pagar. Mas a média de investimentos será a mesma de anos anteriores”, acrescentou.

Para Gutemberg Dias, presidente da Redepetro no RN – grupo formado por empresas prestadoras de serviço à empresa –  a nova redução causará um impacto ainda maior à cadeia do petróleo no RN.

“Podemos considerar uma redução grande. Só em royalties Mossoró já teve uma queda de 43% nos últimos seis anos. E se há uma redução da produção, há uma queda dos royalties e da cadeia de petróleo e gás. Tínhamos 80 empresas que prestavam serviço, hoje temos apenas 40. A saída a curto prazo é que as empresas mudem de segmento, não dependam só da Petrobras”, avalia.

Tanto Dias quanto o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Jorge Camargo, concordam que a Petrobras também deve abrir espaço para a concessão dos campos maduros para operação de empresas menores., mas não a saída da empresa do estado.  “Uma empresa, para trabalhar em bacias maduras, precisa de redução de custos. Empresas menores são mais capazes de ter competitividade para isso, mas é uma decisão que cabe a ela [Petrobras]”, acrescentou Jorge.

Estudos e refinaria
Mesmo com a redução planejada nos investimentos, a Petrobras deve continuar tocando o plano de desenvolvimento exploratório do campo de Pitú, reserva de petróleo em águas profundas recém-descoberta no RN. Ainda não há previsão, porém, sobre quando a empresa finalizará os estudos sobre a capacidade de produção do poço.

O gerente da Refinaria Clara Camarão, David Paulino, também anunciou a ampliação em 100% da capacidade de produção de querosene de aviação no RN, saindo de 400 barris/dia para 800 barris/dia. De acordo com ele, a empresa investiu R$ 40 milhões na ampliação de uma das unidades de destilação, que passará a produzir diesel e QAV.

“A Petrobras só coloca dinheiro onde há retorno. Colocar investimento quando temos a concorrência de uma outra refinaria ao lado é muito difícil. Os técnicos usaram de criatividade, e vamos duplicar a capacidade sem precisar construir outra planta de refino”, assegurou. Com isso, a unidade passará a refinar 78% do petróleo produzido no RN. A ampliação para 100% já está sendo estudada, segundo o gerente. “Este investimento já está sendo maturado para o ano que vem”, assegurou.

Bate-papo - Jean-Paul Prates
presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne-RN)

A Petrobras anunciou uma redução nos investimentos no Rio Grande do Norte. De que forma podemos analisar isso?

Eu reputo este corte aos ajustes feitos em diagonal em toda a empresa. Então não houve nem um corte tão substancial. Ouvimos falar de cortes e renegociação de contratos e áreas superior a 30%. Não considero tão drástico, então. O remanejamento é esperado, não só pelas questões que a empresa está passando, mas porque é natural que haja mais movimentação em termos de empresa ao pré-sal. O que não quer dizer que vá prejudicar as operações aqui. O que discutimos pela manhã é que há ações por parte do governo que podem ser fundamentais para a revitalização do setor. Uma delas é o de águas profundas que, em cinco anos, esperando o reaquecimento da economia e do petróleo, o começo de uma preparação para receber uma nova leva de fornecedores para atuar neste novo setor. Até lá, temos que trabalhar na retomada dos campos rasos que temos.

Ela pode diminuir um pouco o investimento em revitalização?
O investimento de revitalização é aquele com um grau um pouco maior quando é passível de estimulação. É difícil você forçar uma empresa a investir o mesmo real ou dólar num campo de 10 barris dia em vez de um campo com 30 mil barris dia.

Então é difícil o RN manter o interesse da Petrobras?
Não, eu acho que o interesse precisa ser explorado com outros argumentos, não só volumétrico. Por exemplo, a Petrobras tem uma participação estatal importante e social também. Sair do Rio Grande do Norte não é uma hipótese. Cancelar e diminuir os investimentos a um ponto de prejudicar o programa de produção também não é uma hipótese. Uma redução deste tipo é normal para o período que a empresa está passando. 

Energia Eólica ‘trava’ nas linhas de transmissão
Durante a terceira edição do Fórum Estadual de Energia também foram discutidas as outras áreas de produção energética do Estado. As duas matrizes que despontaram nos últimos anos – eólica e solar – ainda enfrentam problemas com as linhas de transmissão. Os últimos quatro leilões realizados pelo Ministério de Minas e Energia não conseguiram arrematar interessados para a construção da infraestrutura. De acordo com representantes do setor, a baixa taxa de retorno dos editais, bem como as dificuldades com regularização fundiária e licenciamento ambiental comprometem o investimento.

Para o diretor técnico da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABBEolica), Sandro Yamamoto, houve uma mudança na metodologia dos leilões desde o ano passado. Agora, para arrematar lotes nos leilões de geração, o empreendedor precisa ter um ponto de transmissão já assegurado. Nos novos editais, a União não se compromete a fazer o ressarcimento dos geradores caso eles não finalizem o empreendimento e não tenham como escoar – como aconteceu com parques de Parazinho e João Câmara, em meados de 2012.

“O problema de esvaziamento dos leilões é bem grave. Os investidores vêem com muito risco ganhar um leilão de transmissão na situação que o Brasil vive. O que os investidores temem é que a receita anual permitida (aluguel das linhas quando ficar pronta), fixada pelo governo federal não cubra os riscos do investimento”, analisa. Entre os riscos, segundo ele, estão os questionamentos ambientais e fundiários.

De acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Flávio Azevedo, o governo já iniciou contato com o Ministério de Minas e Energia para tratar dos editais. Para ele, a infraestrutura de transmissão é uma necessidade urgente. O único linhão de 500 quilowatts (KW) que transporta a energia do estado potiguar, na região entre Campina Grande e Garanhuns, encontra-se congestionada. “Com a rede congestionada, a ONS está impedindo a instalação de qualquer tipo de produção no RN. Isso reduz a nossa capacidade”, pontuou. Hoje, o estado possui mais de 2 Gigawatts (GW) de capacidade de produção instalada, com mais 2 GW assegurados por empreendimentos em construção.

*Colaborou o repórter Fernando Domingo

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