Piora da pandemia põe em xeque a retomada da economia brasileira

Publicação: 2021-03-04 00:00:00
O Produto Interno Bruto (PIB), todo o valor gerado na economia) fechou o ano passado, marcado pela crise da covid-19. De acordo com o IBGE, considerado o crescimento populacional, o PIB per capita caiu 4,8% em relação a 2019. Com a piora da pandemia e o fim do auxílio emergencial, extinto em janeiro, indicadores mais recentes mostram que a desaceleração continuou neste início de ano, o que lança dúvidas sobre o ritmo da recuperação deste ano.

saiba mais

A queda de 4,8% no PIB per capita foi a maior da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. É a "tragédia maior" dos dados desta quarta-feira, porque sinaliza a piora na condição financeira dos brasileiros, disse o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal.

No quarto trimestre, foi registrada alta de 3,2% ante o terceiro trimestre, resultado melhor do que o esperado - as estimativas apontavam para alta de 2,8%. Isso dá um impulso adicional para 2021, mas foi insuficiente para desencadear revisões para cima nas expectativas. Pesquisa manteve a projeção de alta do PIB este ano em 3,3%, já considerando uma retração de 0,3% neste primeiro trimestre ante o quarto de 2020. A velocidade de vacinação da população ditará o ritmo da economia.

Helcio Takeda, economista da consultoria Pezco, lembrou que a dinâmica de "abre e fecha" do comércio poderá frustrar a retomada do mercado de trabalho, e o desemprego já se aproxima dos 14%.

Segundo economistas, a reedição do auxílio emergencial, em discussão no Congresso Nacional, ajudará a aliviar o choque da segunda onda da pandemia. As medidas definidas pelo governo federal e pelo Congresso, incluindo o auxílio, permitiram um desempenho melhor do que o esperado no PIB em 2020 - em meados do ano, as projeções chegaram a apontar para queda de até 9%. Só que, com o gasto limitado a cerca de R$ 44 bilhões, a segunda rodada da transferência emergencial de renda não deverá repetir o impacto dos quase R$ 300 bilhões injetados no ano passado.

"2020 é o ano que não terminou. O ano de 2021 é um 'repeteco', e agravado. Estamos vendo uma rebarba forte da pandemia, sem os instrumentos (para mitigar a crise), como o auxílio (emergencial), e com o desemprego e a inflação mais elevados. É um 2020 piorado", afirmou o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.

Como esperado, pesou no resultado anual de 2020 o segundo trimestre, auge das medidas de restrição, com tombo de 9,2% ante os três primeiros meses do ano. A partir de meados do ano, as medidas de restrição começaram a ser relaxadas País afora. Só isso já foi suficiente para dar início à retomada, lembrou a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro. É o que economistas chamam de "recuperação cíclica", que fica ameaçada pela volta das restrições, diante do descontrole da pandemia.