Pisa na fulô

Publicação: 2019-04-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

As histórias de Macaíba dos anos cinquenta que não estão na história resgatam a figura de:

01) Antonio Pelado nos anos cinquenta, era proprietário de um caminhão que arrecadava o lixo da cidade. Pelado residia numa casa de esquina da rua Pedro Velho e foi dono do bar “Gato Preto” que ficava nos fundos de sua casa. Nessa época a cidade era pequena e o lixo recolhido três vezes por semana. Semicareca, camisa sileque, Antônio não fugia a imagem de motorista de caminhão do lixo. Certa vez, padre Chacon, vigário paroquial chamou-o para acudir a Igreja Matriz durante uma cerimônia de casamento. O motor de luz elétrica da Uzina de Seu Olímpio Maciel havia dado pane. E o caminhão do lixo subiu o patamar da Igreja sobre taboas a fim de iluminar o interior do templo. Quanto à emergência da iluminação nada a reclamar. O pior de tudo, foi o mau cheiro exalado da carroceria do veículo que havia naquele instante concluído o serviço de limpeza da cidade. A emenda foi pior que o soneto. O nosso padre Antônio Chacon foi conclusivo: “Não havendo iluminação nem oxigênio para concluir a cerimônia, suspendo o sagrado ofício do matrimônio”.

02) Em 1958, Macaíba viveu uma fase explosiva de sua política. Era a campanha municipal de Alfredo Mesquita (Oposição-PSD), contra Leonel Mesquita (Situação-UDN), seu sobrinho e genro. Na época o oxigênio virava carbureto. Nasceu aí o “pisa na fulô”, musica popularizada na feira livre por um ceguinho que foi preso e espancado pelo atrevimento. Cantar ou dançar “o pisa na fulô” em Macaíba era uma temeridade. Mas, de Natal, saíram dois jovens advogados na tarde de um sábado, dispostos a enfrentar o arbítrio do delegado de polícia local. Primeiro foram a casa do líder da Oposição Alfredo Mesquita que se achava em missão política na área rural e nem se encontrava D. Nair, sua esposa. Entraram, sentaram e pediram cerveja a empregada. “Traga aquelas que Seu Mesquita guarda no congelador”. A empregada obedeceu. Ao cabo de algum tempo, já “calibrados”, dirigiram-se à praça do mercado público. E como os sanfoneiros da cidade com medo de represálias não apareceram, os dois causídicos improvisaram uma petição inicial do famoso xote com a letra no gogó para uma considerável aglomeração curiosa e surpreendente. Nisso, os puxa-sacos de plantão informaram de bandeja ao delegado que já descia a rua da Cruz com três soldados. E no auge do bate-boca da contestação policial chega Leonel Mesquita, líder da UDN, que reconhece logo os dançarinos forenses. “Leonel”, disse um deles, “vamos tomar cerveja e pisar na fulô e póf”. Abraçados, sob os olhares estarrecidos dos circunstantes foram para o bar de Zé Distinto. Leonel, João Meira Lima e Varela Barca. E pegue pisa na fulô até à bôca da noite.

 03) Maria Cabral era morena, magra, cabelos longos, vestia-se de preto em sinal de protesto pelas coisas ao seu redor que sempre reprovava. Fazia discursos intermináveis praguejando contra a ordem constitucional dos seres e costumes. Com uma rosa vermelha presa aos cabelos, caminhando sempre pelo meio da rua, dava-nos a impressão de uma “Diana” perdida ou bêbada de um pastoril imaginário. Ai de quem dissesse: “Vai trabalhar Maria Cabral”. Despachava uma verdadeira cascata de impropérios que atingia até a 3ª geração do xingador. Morreu há mais de cinquenta anos e com ela os seus mistérios, pois não se vê mais dessas Marias como antigamente.

04) Sebastião Melo foi um dos maiores seresteiros de Macaíba. Boêmio das madrugadas, o seu violão era patrimônio sentimental da cidade. Aniversários, casamentos, batizados ou simples reuniões pelos bares da vida lá estavam a sua voz e o violão interpretando Orlando Silva, Chico Alves, Nelson Gonçalves ou Silvio Caldas. Numa dessas noites, Sebastião pagou pelo excesso e adormeceu, alta madrugada, no batente da rua do comércio (praça Augusto Severo). O novo delegado de Macaíba, tenente José Medeiros, exigente e autoritário, patrulhava as ruas em traje civil, armado de um cipó de brocha. Ao se deparar com o seresteiro dormindo bateu-lhe levemente com o cipó. “Acorda!”. Sebastião, fora de si, boceja e desperta. “E o violão?”, pergunta o delegado. “Toco”, responde o boêmio. “Acompanhe-me”, responde ríspido o militar. Segurando o violão, Sebastião foi solícito: “Me dê o tom!”. Mal sabia o próprio que o perigo estava no tom. Foi pro xadrez.







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