Plantações de abacaxi viabilizam os assentamentos

Publicação: 2011-02-19 00:00:00 | Comentários: 2
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Isaac Lira - repórter

Os caminhos entre Touros e São Miguel do Gostoso têm um elemento diferente na paisagem. Entre a vegetação característica do litoral, surge uma plantação de abacaxis que se estende até o horizonte. Muito mais do que um elemento estranho para quem não conhece a região, os abacaxis simbolizam o sucesso da política de assentamentos rurais na região, onde o cultivo de abacaxi e mamão conseguiu retirar da estagnação os agricultores assentados no chamado Mato Grande. Nem todos seguiram a trilha do progresso, mas os que fizeram a escolha correta demonstram a viabilidade de modelo, na avaliação do Incra e dos próprios produtores.

Produção de abacaxi começou nos assentamentos, mas hoje estendeu-se a outras comunidadesInicialmente, os abacaxis foram plantados no assentamento Planalto do Retiro, localizado na divisa entre Touros e São Miguel do Gostoso. Com os anos, o negócio se tornou um sucesso e influenciou comunidades vizinhas, algumas com os velhos problemas em assentamentos: produção pequena, endividamento, agricultores ociosos, etc. Os novos assentados da região, como os do assentamento Canudos, distante menos de um quilômetro do Planalto, copiaram o modelo. O que até agora também tem dado certo. São casos que se destacam por representar a prosperidade desses trabalhadores assentados em fazendas antes improdutivas.

Segundo os produtores, a escolha do produto a ser cultivado no primeiro investimento foi fundamental. Ao invés de utilizar o dinheiro do crédito fundiário para comprar gado e criar em um terreno “pequeno”, como costumeiramente é o lote para assentados, os colonos do Planalto do Retiro, como também aqueles do assentamento PA Rosário, em Ceará-mirim, escolheram produtos até então pouco cultivados em assentamentos no Rio Grande do Norte: o abacaxi e o melão. Até hoje esses dois assentamentos são considerados modelos de sucesso.

Os representantes da cooperativa em PA Rosário colocam a gestão em primeiro lugar de importância no caminho que levou ao sucesso. A união e o comprometimento dos assentados vêm depois, mas também é importante. “Temos 16 cooperados e quando começamos muitos assentados diziam que era uma loucura investir no cultivo do mamão e que era enterrar dinheiro no chão. Hoje, muitas dessas pessoas trabalham aqui para a cooperativa”, explica Zacarias da Silva, 37 anos, presidente da Cooperativa.

No Rosário, o acesso ao crédito e a programas do Governo Federal é um diferencial. Além de vender para empresas como Docemel e a Kalimã, a cooperativa trabalha com o Compra Direta, na aquisição de produtos para estoques públicos, como é o caso da merenda escolar, e foi contemplado com a mais importante linha de financiamento para a agricultura familiar: o Mais Alimentos, que empresta até R$ 130 mil. Apesar do movimento considerável, os colonos têm como renda o valor médio da região Nordeste: um salário mínimo. O restante do dinheiro é totalmente reinvestido. “Por mês, a renda fixa é de um salário. No fim do ano, distribuímos bônus e o resto é reinvestido. Esse é o diferencial”, aponta Zacarias.

No caso do Planalto do Retiro, a evolução do negócio se deu ao largo da assistência do poder público. Apesar de ser indicado como exemplo pelo Incra, a partir do superintendente Mário Moisés,  Rangiel dos Santos, 32 anos, líder do assentamento Planalto, afirma que não houve apoio do Incra ou qualquer outro órgão no processo de consolidação da plantação de abacaxis. “Não tivemos crédito fundiário, nem assistência técnica, absolutamente nada. Temos a sorte de a terra ser muito boa, muito fértil”, diz Rangiel. O Pronaf foi tentado no ano passado, mas ficou emperrado por conta da burocracia. “O que temos aqui é envolvimento da comunidade. Somos 70 assentados e poucos não trabalham com dedicação”, acrescenta Rangiel dos Santos. A perspectiva do assentamento é produzir outros itens.

Pesquisa traça perfil do assentado

Embora não tenha dados numéricos para atestar o nível satisfatório da qualidade de vida nos assentamentos, o Incra apresentou, em nível nacional, um estudo para aferir a percepção dos assentados sobre esse assunto. O resultado é positivo, segundo o que informou o superintendente interino Mário Moisés. Os assentados responderam questões sobre a melhoria na renda, a moradia, o tamanho do lote, a fertilidade do lote, o acesso ao mercado, entre outras. Na maioria delas, as respostas mostraram níveis de satisfação superiores a 50%.

O estudo não levou em consideração todo o universo de agricultores em assentamentos rurais, mas foi feito por amostragem, considerada pelo Incra um método seguro de medir esse nível de satisfação. “Posso dizer que a maioria dos assentamentos é produtivo e essa pesquisa demonstra isso”, explica Mário Moisés. Não há dados estatísticos sobre o crescimento da renda, quanto é produzido, em toneladas ou em dinheiro, nos assentamentos ou quanto dinheiro é movimentado nesse universo. Segundo Mário Moisés, o Incra-RN não tem esses dados.

Em relação à renda, 56,64% dos entrevistados responderam perceber aumento depois de ter sido assentados, sendo que 7,77% acreditam estar numa situação “muito melhor”. A  moradia é o item mais celebrado. Mais de 85% afirma estar entre ótimo e bom. Já a comercialização dos produtos e o acesso à água são os calcanhares de aquiles, de acordo com a pesquisa. No primeiro item,  cerca de 40% dos entrevistados  aprovam a atual política. No segundo, 51,55% dizem não conseguir acesso à água nos assentamentos.

No caso do Planalto do Retiro, a venda dos abacaxis é feita via atravessadores, justamente a forma a ser evitada, segundo o Incra. “Ruim com eles e pior sem eles, porque sozinhos não conseguiríamos vender o nosso abacaxi. Teríamos prejuízo”, diz Rangiel dos Santos. “Estamos trabalhando nisso para retirar os agricultores da dependência dos atravessadores, o que infelizmente ainda existe”, complementa Mário Moisés.

O estudo foi feito em 2010 e o número de entrevistados em cada assentamento era variável. O Incra acredita ser esse o processo mais eficiente e seguro.

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Comentários

  • tatau4

    materia do arizona

  • renatospp

    O Incra deve assentar os agricultores de acordo com o potencial produtivo de cada região. Um exemplo que vem dando certo é a cultura do abacaxi na região Mato Grande. Temos a região Seridó e Potengi que tem potencial para a bovinocultura leiteira e a caprinovinocultura. As regiões serranas com potencial para a fruticultura, o turismo rural, apicultura e caprinovinocultura. O processo de reforma agrária não se dá meramente em assentar as famílias, é mais complexo e vai desde a seleção rigorosa dos beneficiários até a integralização das políticas públicas. A realidade dos assentamentos do RN hoje é difícil, mas não podemos jogar a culpa somente no governo, a sociedade também pode fazer parte deste sucesso, tendo em vista que se eles chegaram ao poder, foi porque os elegemos. Renato Antônio