Plantar, nutrir e aprender

Publicação: 2019-04-28 00:00:00
Yuno Silva
Repórter

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte inaugura seu primeiro laboratório a céu aberto: o Laboratório Horta Comunitária Nutrir (LabNutrir), que funciona como suporte pedagógico do Departamento de Nutrição para desenvolvimento de pesquisas entre outras atividades que também mobilizam a comunidade externa. A horta comunitária, que começou a ser plantada em 2017, e foi assunto de reportagem aqui do TN Família, será formalmente reconhecida como laboratório a partir desta segunda-feira (29). “Esse reconhecimento foi estratégico para o projeto, traz viabilidade e maior sustentabilidade. Agora, por ser laboratório, também poderemos contar com o auxílio de um funcionário no manejo do espaço”, comemorou a professora Michelle Jacob, professora do Departamento de Nutrição da UFRN.

Créditos: CedidaDoce de Monguba, uma das PANCs cultivadas na LabNutrir. Rico em proteínas e antioxidantes, vegetal se assemelha ao CacauDoce de Monguba, uma das PANCs cultivadas na LabNutrir. Rico em proteínas e antioxidantes, vegetal se assemelha ao Cacau
Doce de Monguba, uma das PANCs cultivadas na LabNutrir. Rico em proteínas e antioxidantes, vegetal se assemelha ao Cacau

O foco da iniciativa, destacou Michelle, é pesquisar a diversidade e a potencialidade das PANCs – Plantas Alimentícias Não Convencionais. “Também temos plantas convencionais, mas priorizamos a diversidade: cultivamos vários tipos de pimenta, de milho, de manjericão. Fazemos um recorte na biodiversidade, mas nossa atenção maior está nas plantas não convencionais”. 

Das 110 espécies catalogadas no LabNutrir, 60% são PANCs. E um dos resultados práticos das pesquisas é o fichamento das espécies. A cada semestre, os alunos elaborar fichas detalhadas para quatro espécies com informação nutricional, formas de cultivo, nomes populares, o uso alimentício, a origem e a ecologia da espécie, entre outros dados científicos mais detalhados.

Créditos: CedidaEquipe do curso de Nutrição dá suporte pedagógico ao LabNutrirEquipe do curso de Nutrição dá suporte pedagógico ao LabNutrir
Equipe do curso de Nutrição dá suporte pedagógico ao LabNutrir

Entre as plantas alimentícias não convencionais com fichamento completo estão a famosa chanana (ou xanana), flor símbolo de Natal nativa do Brasil que pode ser consumida (as flores) crua, na forma de geléia ou cristalizada; as folhas são utilizadas em chás ou cozidas, e no preparo de molhos e suflês. Outras espécies de PANCs catalogadas pelo laboratório são a cariru, beldroega, ora-pro-nóbis (que pode virar ingrediente de hambúrguer vegano), a palma (servida refogada em moquecas e/ou recheios de pastéis), camapú, caruru, mastruz (que pode virar antepasto), couvinha, cana-do-brejo, trapoeraba e monguba (base para receitas doces).

Outras quatro já foram selecionadas para fichamento: a afamada moringa, melão de São Caetano, a frutinha uvaia (ou ubaia) e a tiririca.
As PANCs são plantas facilmente encontradas na natureza. Resistentes, nascem em qualquer lugar, mas são pouco difundidas.

Créditos: CedidaVisão da Horta comunitária após dois anos de experimentosVisão da Horta comunitária após dois anos de experimentos
Visão da Horta comunitária após dois anos de experimentos

“O espaço sempre foi aberto à comunidade externa, desde o início em 2017. A manutenção e o manejo da horta é garantido por todos, temos uma planilha diária que envolve alunos, professores, servidores e pessoas da comunidade que se envolveram de forma voluntária. Inclusive, incentivamos a criação de outras hortas (comunitárias e/ou escolares)”, disse Michelle Jacob. Em um ano e meio, o LabNutrir ajudou a implantar cinco hortas escolares. “Também damos uma assessoria para mostrar como a horta pode ser integrada ao currículo escolar”, acrescentou a professora.

Aprendizagem na horta
O laboratório atende cerca de 200 alunos de vários cursos de graduação da UFRN, e as cinco hortas criadas em creches, escolas de ensino fundamental e de ensino médio já contemplaram mais de 2.000 estudantes da Região Metropolitana de Natal. “Além de gerar conhecimento, do potencial inter e transdisciplinar da horta enquanto ferramenta pedagógica, onde se pode trabalhar temas como botânica, alimentação, saúde e meio ambiente, percebemos que a iniciativa também pode se transformar em um ofício e ser fonte de renda, Trabalhamos o conteúdo político e social da comida que chega todos os dias na mesa das pessoas”, destacou Michelle.

Ela contou que alunos do 3º Ano do Ensino Médio, depois de terem contato com a horta, decidiram começar a produzir produtos orgânicos para vender. “A partir de debates em sala de aula sobre o uso de agrotóxicos, os estudantes decidiram criar uma horta para comercializar produtos sem agrotóxicos”, valorizou.

Créditos: CedidaNhoque preparado com o Bredo, rico em potássio e cálcioNhoque preparado com o Bredo, rico em potássio e cálcio
Nhoque preparado com o Bredo, rico em potássio e cálcio

A horta do LabNurtrir funciona nos fundos do Departamento de Nutrição, que fica em frente ao Restaurante Universitário. Grande parte da produção é partilhada entre os colaboradores, o restante é utilizado em aulas práticas. O resíduo produzido retroalimenta o processo de cultivo, tornando a horta sustentável ao manter a terra nutrida de forma natural. Todo primeiro sábado do mês é realizado um mutirão, a oportunidade certa para pessoas interessadas se conectarem à iniciativa.

Os professores Michelle Medeiros Jacob, Adriana Monteiro de Almeida e João Maria Pontes  elaboraram um manual básico para implantação de hortas em escolas (disponível para download gratuito no link: nutrir.com.vc/blog/publicacoes/); e ainda este ano o conteúdo gerado pelo projeto será organizado no livro de receitas “Culinária selvagem: PANC religando natureza e cultura”. 

Serviço
Laboratório Horta Comunitária Nutrir (LabNutrir), projeto do Departamento de Nutrição da UFRN. Informações:  (84) 3342-2291, no perfil do projeto @nutrirhorta (Instagram) ou através do site nutrir.ufrn.br/.

Colaborou: Cinthia Lopes, Editora do TNFamília

RECEITA
Molho pesto de chanana e manjericão

Ingredientes
1 xícara (chá) de chanana
1 xícara (chá) de manjericão fresco
½ xícara (chá) de amendoim
100g de queijo de cabra curado
2 dentes de alho
1 xícara (chá) de azeite
Sal a gosto

Preparo
1. Faça um branqueamento das folhas de chanana, imergindo em água fervente por um minuto e, em seguida, mergulhando em água gelada
2. Bata no processador de alimentos o azeite, o amendoim, os dentes de alho e o queijo de cabra até triturar. Junte as folhas e termine de bater para fazer o molho – quanto menos você bater as folhas, mais verdinho fica o molho. Se preferir, bata o molho no mixer ou liquidificador
3. Tempere com o sal a gosto e utilize a seguir. Molho perfeito para comer com macarrão ou torradas.

Dica
Mantenha na geladeira por até 15 dias ou no congelador por até um mês.













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